É minha

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Morena.
O barulho da chave girando na porta me fez gelar por dentro. Meu corpo inteiro ficou em alerta, como se soubesse que o dia ia piorar. O Caveira entrou com aquele sorriso torto que nunca anunciava coisa boa.

- Levanta daí - ele falou seco, sem nem me olhar direito. - Hoje não tem café pra você.

Meu estômago já roncava desde cedo, mas engoli em seco. Qualquer resposta podia virar motivo pra ele perder a cabeça.

Passei a manhã trancada no quarto, ouvindo ele andando pela casa, mexendo nas coisas, como se fosse dono até do meu ar. Quando tentei sair, já perto do horário do almoço, ele me parou no corredor.

- Vai pra onde? - perguntou, estreitando os olhos.
- Só ia pegar um copo de água... - falei baixinho.
- Água até pode... mas comida, não. Você não fez nada pra merecer.

Ele falou como se estivesse me punindo. Como se fosse normal decidir se eu podia ou não comer. Segurei a raiva e o nó na garganta, voltando pro quarto sem olhar pra trás.

Me sentei na cama, abraçando os joelhos. Minha mão foi de novo até a barriga, sentindo aquele peso que não era só físico. Lá dentro, uma vida dependia de mim. E eu me sentia tão fraca.

Fechei os olhos e, sem querer, a imagem do R7 apareceu na minha mente. A forma como ele me olhava, como se enxergasse além de tudo isso. Meu peito apertou. Será que ele tava pensando em mim agora? Será que ele sabia o que o Caveira tava fazendo comigo nesse momento?

O silêncio do quarto era sufocante, quebrado apenas pelo som distante da TV na sala. Me senti presa. Presa num corpo cansado, presa nessa casa, presa nesse medo.

E no fundo, uma única certeza martelava: eu precisava sair daqui. Nem que fosse rastejando.

dia tava passando devagar demais pro meu gosto. Desde cedo, aquele pressentimento ruim me corroía por dentro. Eu sabia que o Caveira tava aprontando alguma coisa. E se eu não me mexesse logo, ia me arrepender pro resto da vida.

- Vamo, rapaziada... - falei pros meus vapores, trancando a Glock na cintura. - Hoje nóis sobe o Alemão, e ninguém volta até eu achar a Morena.

Os moleque se entreolharam, já sabendo que quando eu falava assim, não tinha volta.

No caminho, minha cabeça fervia. As cenas dela passando fome, com medo... o jeito que ela segurava a barriga... Aquilo não saía da minha mente. Eu precisava tirar ela de lá antes do sol sumir, antes que ele encostasse um dedo nela de novo.

Subimos o morro sem fazer barulho, mas a tensão no ar dava pra cortar com faca. Meus vapores já espalhados, cada um cobrindo uma viela.

- R7, é ali... - um deles apontou pra uma casa com a janela semiaberta.

Ouvi a voz dele lá dentro, grossa e carregada de ódio.
- Tu vai aprender a me respeitar, sua vadia... - Caveira rosnava.

Meu sangue ferveu. Empurrei a porta sem cerimônia, o barulho ecoando na casa. Ele tava com a mão levantada pra bater nela, mas congelou quando me viu.

- O que tu tá fazendo aqui, seu merda? - Caveira cuspiu as palavras, vindo na minha direção.
- Tô aqui pra buscar o que é meu. - falei firme, encarando ele. - E esse filho aí... é MEU, não teu.

- Teu o caralho! - ele gritou, avançando pra cima de mim.

O soco veio rápido, mas eu desviei e acertei um direto no maxilar dele. O barulho da pancada ecoou no silêncio pesado. A Morena gritou meu nome, mas eu não tirei o foco.

A luta virou um caos. Soco, chute, cotovelada. Cada golpe que eu dava era por cada lágrima que ela derramou. Cada vez que ele tentava me derrubar, eu lembrava dela trancada no quarto, com fome e medo.

- Ela é minha! - Caveira urrava, tentando me empurrar contra a parede.
- É tua porra nenhuma! - agarrei ele pela gola, jogando contra a mesa que quebrou na hora. - Tu nunca mais vai encostar nela!

Ele tentou se levantar, mas um cruzado meu pegou em cheio na têmpora. O corpo dele amoleceu e caiu no chão, apagado.

Respirei fundo, sentindo a mão tremer de adrenalina. Caminhei até a Morena, que tava encolhida num canto, chorando.

- Vem... - falei baixo, pegando ela no colo. - Acabou, eu tô aqui.

Ela me abraçou forte, como se tivesse medo de me soltar. Saí da casa com ela nos braços, meus vapores fazendo a contenção lá fora. Coloquei ela no banco do carona e bati a porta.

- Agora tu vai pra casa comigo... e ninguém mais te tira de mim. - falei, ligando o carro e descendo o morro sem olhar pra trás.

(....)

O motor roncava enquanto eu descia o morro, mas minha cabeça tava a mil.
Eu sabia que ela tava passando fome. Não foi chute, não. Foi certeza.

O dono do Dendê, meu parceiro antigo, deu uma investigada pra mim, na miúda, sem o Caveira nem sonhar. Ele me contou que ela quase não saía do quarto, que andava fraca, e que às vezes a cozinha ficava trancada. Isso só confirmou o que eu já suspeitava.

E pra fechar de vez, a tal da Bruna, amiga dela, me procurou chorando.
- R7... ela não tá bem, ele tá deixando ela sem comer... - ela falou, quase sem conseguir terminar a frase.

Aquilo me fez perder o resto da paciência que eu tinha. Eu já tava pronto pra buscar ela antes, mas depois disso... virou questão de honra.

Olhei pro lado. Morena tava no banco, abraçando a própria barriga, o olhar perdido na rua passando pela janela. Ela ainda tremia, e eu sabia que não era só de medo. Era fraqueza também.

- Relaxa, princesa... - falei baixo, mas com firmeza. - Daqui pra frente ninguém mais vai te fazer passar necessidade.

Ela virou o rosto pra mim, os olhos marejados. Não precisava falar nada. Eu já entendia.
E dentro de mim, a promessa tava feita: Caveira podia até acordar, mas nunca mais ia ter a chance de encostar nela.

Apertei o volante, sentindo a raiva e o alívio misturados. Hoje eu tirei ela do inferno. Agora, ia cuidar pra nunca mais deixar ela voltar pra lá.

Continua...

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