Algumas semanas se passaram desde aquela noite. A tensão no morro ainda existia, mas a gente tava conseguindo manter tudo sob controle — por enquanto. Ninguém mais desapareceu, nenhum ataque direto, e as bocas funcionavam no ritmo certo, sem treta interna. A paz era frágil, mas real.
Nesse meio-tempo, nossa casa nova virou abrigo de verdade. Minha mãe ficou uns dias com a gente, ajudando com as coisas da gravidez. R7 até se acostumou com ela mandando nele na cozinha — embora vivesse reclamando baixinho.
E num domingo quente, típico de fim de morro, a gente decidiu fazer um churrasco com chá revelação. Só pros mais chegados. Só pros que tavam com a gente até nas fases feias.
No quintal da casa, a churrasqueira fumegava. R7, de boné virado pra trás, comandava a carne com uma cerveja na mão. Vapores faziam fila com os pratos, rindo, conversando, sem rádio, sem arma na cintura — só por hoje.
Cláudia e Sasa estavam sentadas perto da piscina inflável que o GuiGui trouxe só pra enfeitar. As duas cuidavam da decoração azul e rosa, mesmo sabendo que era só um detalhe — porque o que a gente queria mesmo era celebrar a vida.
Bruna, minha parceira de escola, veio com o namorado e um bolo que ela mesma fez. Toda orgulhosa. Minha mãe tava sentada na sombra, sorrindo, falando com o namorado do GuiGui — um menino calado, mas simpático. E por falar nele…
— Moooooorenaaaa! — GuiGui veio rebolando, com uma bandeja de pão de alho e aquele jeito espalhafatoso de sempre. — Trouxe teu pão com ovo, viadinha, só pra manter a tradição! — e riu alto.
— Você é impossível.
— E gostosa, o combo completo.
Todo mundo riu. Até o Pimenta, que tinha ficado um tempo sumido depois do ataque, apareceu. Mais magro, mais calado, mas com o olhar limpo. Quando R7 viu ele, largou a carne e foi até ele:
— Fico feliz que você tá de pé, irmão.
— Tô aqui, patrão. Só de ver isso tudo aqui… já vale.
A gente abraçou o Pimenta, e naquele momento, tudo parecia certo. O churrasco rolava, o som tocava aquele pagodinho antigo que minha mãe amava, e a vida parecia normal. Pela primeira vez… normal.
—
Mais pro fim da tarde, a decoração tava pronta. Um painel com “Menino ou Menina?” escrito em balões. Um caixa com fumaça colorida. Os celulares começaram a ser erguidos. Todo mundo gritando:
— Vai, Morena! Vai, R7! É agoraaaaa!
Eu fiquei no centro do jardim, de mãos dadas com ele. R7 tava nervoso, mas disfarçava. Sussurrou:
— Se for menino, vai ser meu escudeiro. Se for menina… vai ser a minha paz.
— Vai ser amado, do mesmo jeito.
Contamos com a galera:
— UM… DOIS… TRÊS!
PAAAHH!
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A fumaça azul subiu pro céu junto com uma explosão de gritos. Era menino!
R7 me puxou num abraço forte, e eu senti ele tremendo de emoção. Me deu um beijo na boca, demorado, com gosto de sonho realizado. Eu chorava. Ele também.
— É meu filho, Morena… é um guri!
Fogos começaram a estourar lá fora, iluminando o céu, e como se fosse uma tradição do morro, os vapores puxaram o bonde e soltaram rajadas pro alto:
— PAH! PAH! PAH-PAH-PAH!
Era alegria crua. Bruta. Barulhenta. Do jeito deles. Do jeito da nossa quebrada. Não era guerra — era comemoração. Era o anúncio de que o morro ia ganhar um novo herdeiro.
GuiGui dançava no meio da fumaça azul, gritando:
— É o reizinho do morro, p*rra! Rainha pariu um príncipe!
Sasa filmava tudo, Cláudia chorava com minha mãe. Bruna distribuía bolo com glitter azul. Pimenta sorria tímido num canto, como quem finalmente via luz depois de tanta escuridão.
E eu… Eu só olhava pra barriga e pensava:
“Você ainda nem nasceu, mas já mudou tudo.”
R7 me olhou de novo, os olhos ainda úmidos.
— Vamos criar esse moleque no amor, Morena. Sem guerra, se Deus quiser.
— Se depender de mim… vai ser só amor.
Mas no fundo, a gente sabia: pra manter essa paz viva… ia precisar lutar de um jeito novo.