conhecendo

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Morena

A tarde passou num piscar de olhos.
**Pauloxa** se mostrou completamente diferente do que eu imaginava. Conversamos muito - sobre o R7, o passado dele, os tombos que ele levou, e também sobre esse presente tão intenso que é ter um filho. Ela me ouviu de verdade. Me olhou nos olhos. E, quando falou de como cuidou do R7 quando ele era só um molequinho cheio de revolta, eu senti que ela era mais mãe dele do que qualquer laço de sangue poderia ser.

Ela trouxe um brinquedinho pro bebê - um móbile musical com estrelinhas. Quando pendurei no berço, o olhar do meu filho seguiu o movimento e ele até sorriu de canto. Pauloxa sorriu também, emocionada. Era um presente simples, mas cheio de carinho.

No fim da tarde, enquanto o céu já escurecia com aquele tom meio alaranjado, ela se levantou pra ir embora. Agradeceu o almoço, me abraçou forte e falou baixinho no meu ouvido:

- **"Você é forte, menina. Continue sendo. O R7 precisa disso. Mas também precisa saber que você é mulher, não só fortaleza."**

Aquilo me bateu fundo.

Depois que ela foi embora, fui até o portão, fechei tudo e esperei...
Esperei mais um pouco.
**Esperei demais.**

E **nada de R7**.

Peguei o celular, liguei uma vez... caixa postal.
Liguei outra. Caixa postal de novo.
Mandei mensagem. Silêncio.
Nenhuma resposta.

Aquela angústia subiu no peito.
Nem uma explicação, nem um "tô resolvendo um bagulho aqui, já chego".
**Nada.**

Fiquei boladona.
Porque ele sabe que eu fico ansiosa, sabe que meu mundo agora gira em torno desse bebê e dele. E mesmo assim... sumiu. Como se eu fosse invisível.

Peguei o bebê, que já estava acordando com fome, dei de mamar e subi pro quarto com ele no colo. O coração batendo forte, misturado entre preocupação e raiva.

Coloquei ele no berço, ajeitei a cobertinha e fiquei um tempo só olhando aquele rostinho dormindo. Tão calmo, tão distante do caos que às vezes o pai traz junto.

Depois fui até a porta, **tranquei**. Girei a chave com gosto.
- *"Agora eu quero ver ele entrar aqui."*

Sentei na beirada da cama e fiquei ali no escuro, com a luz do abajur acesa.
Não sei onde ele tá.
Não sei com quem.
E o pior: **não sei por quê.**

Mas amanhã...
**ele me paga.**
Porque sumir assim, com filho pequeno em casa, sem dar sinal de vida?
Não é só falta de consideração.
É falta de respeito.

> E eu posso até amar o R7 com tudo que sou...
> Mas antes de ser mulher dele, sou mãe.
> E **mãe de respeito não aceita desprezo.*

R7...

Acordei com uma luz forte no rosto, tudo meio embaçado.
Vi o **Pimenta** do lado da cama, com cara de quem já tava ali fazia tempo.

- **"Pow, chefe... achei que não ia acordar nunca, hein."**

Demorei uns segundos pra entender onde eu tava. Olhei em volta.
Postinho. Braço enfaixado. Cabeça doendo.

- **"Que porra aconteceu, Pimenta?"**

Ele coçou a nuca, meio sem graça.

- **"Bateram no teu carro, mano. Mas relaxa, já resolvi tudo. Só te tiraram da pista por umas horas. Te trouxeram pra cá ontem de noite... o médico falou que tu tava só grogue, mas que era bom observar."**

- **"E a Morena? Avisaram ela?"**

- **"Pior que não tinha o CTT dela. Só tinha o da tua mãe. Avisa ela, avisei sim. Falei que o carro deu ruim, mas que tu tava bem. Ela mandou avisar tua mulher... deve ter passado o recado."**

**Puts... e a Morena?**

Na hora, meu coração gelou.
Tinha o almoço com ela e com a minha mãe ontem.
**Tava tudo certo.**

- **"Caralho... cadê meu celular?!"**

Peguei o telefone, liguei na hora. Uma vez. Duas. Três.
**Nada. Ela não atendeu.**

Olhei o relógio no canto da parede:
**10:03 da manhã.**

- *"Merda..."* - murmurei, sentando com dificuldade.
Tava no hospital **desde ontem**, e ela sem saber de nada direito.

Já imaginei a cena.
Ela me esperando.
A comida pronta.
O bebê ali.
Minha mãe indo embora.
E eu... **sumido.**

- **"Pimenta, resolve um carro pra mim. Qualquer um. Mas agora."**

- **"Vai pra onde, chefe? Tá todo arrebentado."**

- **"Vou pra casa. E é agora."**

Ele saiu correndo, e em menos de 20 minutos, um carro me esperava na porta do postinho.
Entrei com o braço enfaixado, o corpo doído, mas o coração ainda mais. A raiva de mim mesmo era o que mais doía. Não pela batida, não pelo hospital.
Mas por **ter deixado minha mulher sem notícia**.

Cheguei na casa já sabendo que o clima ia tá ruim, mas juro... não esperava aquele silêncio.
**Silêncio pesado.**

Fui direto na porta, botei a chave...
**Trancada.**

Girei de novo. Nada.
Bati com cuidado. Esperei.
**Nada.**

- **"Merda..."** - sussurrei, encostando a testa na porta.
Já imaginei ela lá dentro, emburrada, com o bebê dormindo... provavelmente achando que eu tava no bar, na rua, sei lá onde, menos onde eu realmente tava.

Machuquei o braço, quase morri de susto, passei a noite no hospital...
Mas o que mais me doía era **ter falhado com ela**.
Com eles.

- *"Morena... abre essa porta. Por favor, amor. Deixa eu explicar..."*

Nada.

- *"Eu sei que eu errei, que devia ter dado um jeito de te avisar. Mas me escuta... só me escuta, mulher..."*

A tranca continuava firme.
Silêncio absoluto.

Encostei no batente, respirei fundo, e falei mais baixo, só pra ela ouvir se estivesse perto da porta:

- *"Foi um acidente. Eu nem lembro direito. Só lembro de pensar em você e no nosso filho. De ter perdido o almoço, o momento com a minha mãe, contigo... de ter sumido. Mas eu juro, Morena... não foi por mal. Nunca seria."*

Fiquei ali, esperando alguma reação.
Qualquer barulho do lado de dentro.

Mas nada.

> E foi ali, do lado de fora da porta do nosso quarto, com o braço doendo e o coração mais ainda, que eu percebi que não adianta ser o dono do morro... se eu não consigo nem manter minha casa de pé.

Agora...
**vou ter que reconquistar minha rainha.
De novo.
Com tudo que eu sou.**

Continua....

VivendoOnde histórias criam vida. Descubra agora