O Despertar da Fera

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O Despertar da Fera

​Diz o ditado: "Mais vale uma triste verdade do que uma alegre mentira"...

Também dizem: "Melhor a verdade que constrói do que a mentira que destrói".

"Palacete"

​Leôncio está se recuperando no palacete. A Baronesa Octaviana de Vertilhos o vem tratando como a um irmão, e o doutor José Jerônimo como a um familiar querido. Octaviana recebeu também Ayana e Catarina, que estão agradecidas pela honra.

​Dona Zulmira ficou triste com a saída de suas hóspedes, porém feliz por elas estarem bem cuidadas. Catarina tenta disfarçar frente a Leôncio a maternidade de Gabriel, que a chama de "Laina" e não de mãe. Ele, em sua inocência, demonstra todo amor que tem por sua mãe, Ayana, englobando também a Baronesa ao chamá-la de mamãe.

​Leôncio está deitado no alpendre e vê Ayana brincando com Gabrielzinho.

​- Ele gosta muito de você.

​- Sim, ele me ama muito, muito - diz Ayana, olhando para Gabriel com seu grande amor de mãe.

​Leôncio estende a mão e segura a mão de Ayana.

​- Não fique triste, teremos outros filhos e o maldito do senhor Samuel vai pagar por todos os nossos filhos. Eu sei que o doutor José Jerônimo vai conseguir condená-lo à forca, sei que vai.

​Ayana aperta a mão de Leôncio e diz:

​- Leôncio, vamos deixar para lá e fugir daqui. Ir embora para longe, formar uma nova família e nunca mais voltar para esse sofrimento.

​- Como você pode me pedir para esquecer meus quatro filhos que esse maldito matou? Eu não posso ser como ele, não vou sujar minhas mãos com o sangue podre dele, mas quero vê-lo balançando na forca e cuspir nele.

​- Leôncio...

​- Não! Eu não saio daqui enquanto ele respirar.

​Ayana deixa lágrimas descerem de seus olhos mais uma vez, se cala e engole a verdade sobre Gabriel. Os grandes portões do palacete se abrem e dona Beatriz adentra acompanhada por uma das empregadas.

​- Seja bem-vinda, senhora Beatriz Albuquerque.

​- Agradeço por me receber, senhora Baronesa. Peço perdão por invadir sua casa, porém precisava ver Ayana e Leôncio. Tenho muitos préstimos.

​- Seja sempre bem-vinda. Quem trata bem meus amigos, são amigos também. Vou acompanhá-la até eles.

​E assim, Beatriz adentra o palacete e caminha até o alpendre que dá vista ao enorme jardim.

​- Dona Beatriz! - diz Ayana, correndo para junto dela.

​- Fico tão feliz por saber que estais bem você, Leôncio e o menino. Aonde ele está? Quero vê-lo.

​- Dona Beatriz, por favor, não diga nada sobre Gabriel. Leôncio não sabe de nada.

​- Como? O que você disse a ele?

​- Dissemos que é filho da menina Catarina, e mantemos essa mentira até agora.

​- Pobre Ayana, o que será quando ele souber...

​- Por favor, não diga.

​- Jamais diria, jamais.

​Leôncio, que está a poucos metros, vê dona Beatriz e sorri, pois ela sempre foi amável com todos os escravos e ele sabe que ela muito sofreu nas mãos do senhor Samuel. Beatriz se aproxima.

​- Leôncio, fico radiante em saber que Samuel não conseguiu cumprir seu intuito.

​- Sinhá Beatriz, peço perdão por não salvar teu menino. Eu queria, queria...

​- Não se amofine, Leôncio. Eu vi que você tentou e nunca o culpei por aquela fatalidade. Sou eu quem te peço perdão pela monstruosidade do Samuel!

​- Não tenho o que perdoar à Sinhá. O senhor Samuel é o único culpado por tudo.

​E assim o assunto continuou até a tardezinha. Quando dona Beatriz está se despedindo, segura na mão de Ayana e diz:

​- Você é quem sabe, Ayana. Se mudar de ideia, está aqui meu endereço; ficarei aqui na capital até o final do julgamento.

​Ayana pega o papel com o endereço e o guarda.

Delegacia

​O soldado chega com Serafim, que sorri com seus dentes podres e malcheirosos.

​- Ora, ora, se não é o doutorzinho bom de briga. O que o senhor quer comigo? Não vai me dizer que quem vai para a forca sou só eu e o fazendeirinho vai ficar livre?

​- De maneira alguma! Comigo e meu sócio, Rodolfo, não haverá liberdade para um assassino de crianças.

​- Pelo menos uma coisa justa nessa porcaria de lei que favorece só os que têm dinheiro. O que vocês querem comigo?

​- Que você diga a verdade aqui e no tribunal.

​- O que eu ganho com isso?

​- Se você contar tudo, nós te defenderemos e sua pena será bem menor. Como você não matou o Leôncio, você será acusado de tentativa de assassinato e, com um bom advogado, você ficará uns dois anos preso.

​- Dois anos! Eu quero é ir embora daqui livre.

​- Isto é impossível. Dois anos é melhor do que a forca se você não tiver quem o defenda. E pior: tiver eu e o doutor José Jerônimo como advogados de acusação - diz Rodolfo, com um sorriso enigmático.

​- É a mais pura verdade - diz José Jerônimo.

​- O que tenho que fazer? - exclama Serafim.

​- Vamos, nos conte como...

​E assim, o Serafim contou toda sua jornada sob as ordens de Samuel.

Alguns dias passam.

​Extra, extra! Fazendeiro abastado será julgado por assassinar três crianças negras. E assim, Samuel viu seu nome ingressar na boca de todos, na capital e nos arredores. Fazendeiros e comerciantes da alta cúpula do Império se indignavam por um homem branco e abastado ser julgado por matar negros. Abolicionistas estão usando o julgamento para que sirva de exemplo para aqueles que infringem as leis imaginando que não serão punidos com o rigor da mesma.

​Samuel é mantido informado por seu advogado, que tentou de todas as formas comprar juízes para que Samuel fosse liberto sem julgamento, porém José Jerônimo luta com insistência e força da própria lei, ajudado pelos folhetins que expõem toda a monstruosidade de Samuel; e a população, negra e branca, clama por justiça.

Na Delegacia

​- O que fazes aqui, Beatriz? Por que não foste para casa cuidar de teus afazeres? - pergunta Samuel.

​- Não posso, sou testemunha no seu julgamento.

​- Quem te convocou?

​- Os advogados de acusação.

​- Não me venha com falsetas, não se atreva a usar injurias contra mim. Você me deve respeito e obediência.

​- Eu sei, meu marido. Não vim aqui por isso, quero que você assine esse papel.

​- Que maldito papel é esse?

​- Um reconhecimento de paternidade.

​- Paternidade? Por acaso você tem algum filho que eu não saiba?

​- Não! O filho não é meu.

​- De quem...?

​Os olhos de Samuel brilham e seus lábios expressam um sorriso macabro.

​- Ayana? O filho dela é...

​- Sim. Ele é branco, a sua cara, e ele precisa de um nome...

​Samuel gargalha e salta de alegria.

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