As testemunhas

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Maria Boaventura

​- As Testemunhas

​A dor é algo concreto, algo que sentimos quando algo está errado com nosso corpo físico. Todavia, um sentimento abstrato causa em nosso corpo algo tão concreto que é explicado somente por poetas; esse sentimento abstrato dói tanto dentro do nosso concreto corpo que atravessa todos os sentidos.

​O coração se estilhaça em milhões de pedaços. Nossos membros tremem, perdem os movimentos; nosso cérebro perde a razão, a visão e a audição. Médicos tentam explicar algo sem explicação. E assim, o abstrato sentimento torna-se concreto em rabiscos com tinta e sobre um papel em branco.

​Ayana coloca sua mão sobre a mão de Leôncio em meio à grande confusão que se formou no recinto.

​- Não atente às palavras daquele maldito, Leôncio. Ele quer te humilhar e enlouquecer.

​- Aquele homem é mesmo um filho do demônio - responde Leôncio, a voz firme, embora o peito fervilhasse.

​Dona Beatriz levanta-se e caminha até a cadeira de testemunhas. Coloca a mão direita sobre a Bíblia Sagrada e faz o juramento solene diante de todos:

​- Jura dizer a verdade, nada mais que a verdade?

​- Eu juro! - diz Dona Beatriz, com a voz ligeiramente trêmula.

​O juiz ajusta os óculos e olha na direção da defesa:

​- Pode começar as perguntas, Doutor Daniel Sampaio.

​- Sim, meritíssimo - o advogado dá um passo à frente, ajeitando o paletó. - Senhora Beatriz, é esposa do senhor Samuel de Albuquerque?

​- Sou.

​- Senhora Beatriz, a senhora tem filhos?

​- Três meninas... e um menino que não vive mais.

​O Doutor Sampaio aproxima-se um pouco mais, mudando o tom para algo mais incisivo:

​- É verdade que esse menino foi morto pelo senhor Leôncio, que se recusou a salvá-lo para salvar seu próprio filho? Que o ex-escravo de seu marido fez isso por vingança ao saber que sua mucama, a mulher dele, tinha um caso com seu marido?

​O impacto da pergunta faz o ar faltar no peito de Beatriz.

​- Não é totalmente verdade...

​- Responda somente: sim ou não! - exige o advogado, cortando-a rudemente.

​- Eu... eu... - ela balbucia, sentindo o peso invisível da mordaça de Samuel esmagar sua garganta.

​- Ora! A senhora tinha esse conhecimento, como não tem uma resposta?

​Um murmúrio volta a se formar na plateia. Cochichos e burburinhos altos se ouvem por todo o recinto do fórum. Leôncio sente seu coração palpitar fortemente no peito; seu rosto empalidece de indignação e seus olhos procuram desesperadamente os de Ayana. Ela, por sua vez, está com as mãos sobre o rosto, derramando lágrimas silenciosas.

​- Protesto! - gritou o Doutor José Jerônimo Munhoz, levantando-se impetuosamente.

​O juiz bate o martelo para conter o alvoroço e encara o advogado de acusação:

​- Qual o motivo do seu protesto, Doutor Munhoz?

​- O prezado amigo Sampaio está constrangendo a testemunha! Ele está exigindo que ela exponha a vida íntima da família sem a devida finalidade!

​O Doutor Sampaio solta um riso de desdém, voltando-se para o magistrado:

​- Ora, o doutor causídico deve estar brincando. Queremos saber o verdadeiro motivo pelo qual o senhor Leôncio tirou a vida do filho do réu!

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⏰ Última atualização: Jun 01 ⏰

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