Princesa Isabel e a lei do ventre livre
O ser humano é o único animal pensante na Terra, e isso lhe dá o poder de escolher como guiar seus passos na longa caminhada da vida. Mas alguns escolhem fingir; preferem transformar o próprio destino em uma grande ilusão.
Existe um ditado, muito usado no teatro, que diz: "Repita uma mentira muitas vezes, e ela acabará virando uma verdade". Foi bem assim que as histórias de muitos países foram escritas e contadas, para que o povo acreditasse nelas sem duvidar.
Mas a Princesa Isabel, que foi regente por três vezes, lutou com coragem para libertar os negros escravizados. No ano de 1871, ela conquistou uma vitória inesquecível para os excluídos do país: todas as crianças nascidas a partir daquela data seriam livres desde o nascimento. Era a Lei do Ventre Livre.
Apesar da lei assinada e aprovada, a elite não a aceitou de bom grado. Passou a usar de desculpas e armadilhas para, se não podia anular a lei, pelo menos burlá-la. Com isso, a regente ganhou inimigos poderosos na Corte. Afinal, o que era uma bênção para os negros era um prejuízo terrível para quem se achava dono deles.
Esses atos heroicos da Princesa Isabel acabaram levando os republicanos a tomarem o poder. Mas ela não teve medo de perder a coroa. Nesse ato de coragem, que a história oficial tentou apagar, ela deu a liberdade a toda uma raça que sofreu por mais de trezentos anos no cativeiro - não só do corpo, mas principalmente da alma.
- Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o seu trono! - disseram os homens poderosos.
- Se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar a raça negra - respondeu ela.
Um trono, uma dinastia perdida. Por uma assinatura no rodapé da história.
Agora, com a recém-assinada Lei Áurea, o vento da história havia mudado definitivamente de direção. Leôncio e todos os que antes eram cativos respiravam, enfim, o ar de homens livres. É nesse novo Brasil, onde a impunidade do antigo senhor começava a ruir, que Samuel sente o peso da grande humilhação pela qual está passando. Conduzido dentro de uma carroça com grades de ferro, ele está com as mãos algemadas, mas, para o seu orgulho, o pior suplício era estar confinado naquele espaço junto a Serafim. Dois policiais guiam a carroça, enquanto o restante da escolta segue logo atrás, a cavalo.
As ruas da cidade estão tomadas por manifestantes que, em meio ao tumulto, logo percebem quem está ali dentro: o homem que matara três crianças inocentes anos atrás.
- Olhem! Aquele é o maldito fazendeiro assassino! - grita alguém na multidão.
O povo começa a se ajuntar ao redor da carroça em um coro inflamado. Em estado de alerta, os policiais resolvem desviar o caminho para entrar pelos fundos do fórum. Mesmo assim, alguns manifestantes conseguem romper a barreira e, apertando o cerco, passam a desferir golpes contra a estrutura, empurrando Samuel, que é tomado por um verdadeiro terror até finalmente cruzar os portões do prédio.
Do lado de dentro, Serafim não esconde o riso diante do pânico do fazendeiro:
- Você é mesmo patético, senhor Samuel. Canta de homem macho, mas se mija de medo de um povinho revoltado. Vemos que o senhor não passa de um saco furado, cheio apenas de empáfia.
- Cale-se, seu negro bastardo! - esbraveja Samuel, espumando de ódio.
- Calem-se os dois! - interrompe o comandante da guarda que os escoltava. - Ou eu mesmo jogo os dois lá fora para a multidão dar-lhes uma surra, e só depois os levo para o tribunal.
O silêncio imediatamente se instala entre os dois prisioneiros, enquanto, do lado de fora das grossas paredes, ainda ecoa a gritaria furiosa da população.
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Espinhos da Liberdade
Ficção GeralApós a abolição da escravidão, muitos escravos libertos se viram sem rumo, sem perspectiva. Saíram sem nada, a não ser, suas vidas errantes pelos caminhos desconhecidos do destino. A liberdade tão sonhada, transformou-se em espinhos. Uma nova, velha...
