Capítulo 17

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Acordo de manhã com um suave bater na porta. Levanto-me ainda ensonada e quando abro a porta vejo o homem que costuma estar na entrada dos dormitórios, o suposto segurança se não me engano. O que é que ele está aqui a fazer?

"Bom dia Miss Gray, deixaram isto na entrada para si." Ele sorri-me e entrega-me um ramo enorme e elaborado de flores.

Agradeço-lhe, fecho a porta e procuro por um cartão que indique de quem são as flores. Finalmente encontro-o mas não tem nenhum nome escrito, apenas uma frase: "There can be no peace for us, only misery, and the greatest happiness" . Anna Karenina, é a frase que o Alexei diz à Anna quando ela pede para ele deixá-la em paz. As flores são do Nathan, está bem claro com esta frase, mas qual é a intenção dele? O que ele quer dizer com isto? Que não me vai deixar em paz e fazer-me infeliz, ou que se arrepende e quer tentar de novo?

A minha cabeça está outra ver a latejar em dores, tenho de parar de me sujeitar a estas fortes emoções e a estes dramas. Coloco o ramo em cima da minha secretária e vou à casa-de-banho procurar um objecto qualquer tipo jarro para meter as flores. Encontro um copo extra onde se coloca as escovas de dentes, encho com água e levo-o até à minha secretária onde coloco as flores dentro.

Enquanto apreciou a belíssima diversidade de cores do buquet oiço alguém a abrir a porta. Rebecca. Viro-me para ela e a minha boca age mais rápido que o meu cérebro.

"Como correu?" Pergunto automaticamente.

"Está tudo bem." A Rebecca tenta forçar um sorriso fingindo mas eu sei que algo não está bem.

"O que é que se passou?" Eu franzo a sobrancelha e ela apercebe-se que eu sei que ela está a esconder algo.

"O Andrew está doente..." As palavras custam-lhe a sair.

"O que é que ele tem?" Eu pergunto já preocupada.

"Ele foi diagnosticado com Lúpus à um mês atrás e não me disse nada. Ele apenas começou a afastar-se de mim e a deixar-me de parte. Eu pensava que ele andava-me a trair e afinal-" Ela não consegue completar a frase e despedaça-se em lágrimas.

Eu aproximo-me da Rebecca e abraço-a. O Andrew parece tão boa pessoa, porque é que as coisas más tendem sempre a acontecer às boas pessoas? O destino tem um humor doentio. Após a Rebecca acalmar-se e conseguir controlar as lágrimas, tivemos a falar do quão avançada estava a doença e de que tipo era. O Andrew foi diagnosticado com o pior, Lúpus sistémico, ou seja, a doença auto-imune está ou vai atacar brevemente qualquer parte do seu corpo. Ainda está no início e assim o Andrew já sabe os cuidados que tem que ter e o que vem para a frente vai ser pior do que está agora, ou seja, ainda tem algum tempo para aceitar o diagnóstico e a aprender a viver com a sua doença. 

O Andrew tentou que a Rebecca acaba-se com ele porque não queria que ela o visse assim mas ele era louco por pensar que ela alguma vez o ia deixar sozinho, ainda mais depois de receber uma notícia tão terrível como aquela. A Rebecca não chorou ao pé dele, ela está a ser forte por ambos e para ser o apoio do Andrew. Admiro-a, é preciso ser um tipo de amor profundo para ficar ao lado de uma pessoa que se ama e ver o seu estado de saúde sempre a piorar.

Ela abraça-me e informa-me que vai ter com o Andrew para irem almoçar juntos. Ela convida-me por bondade mas eu recuso, eles devem passar todo o tempo possível juntos e eu não quero retirar-lhes isso.

Quarenta minutos após a Rebecca sair alguém bate a porta. Hoje esta porta deve estar concorrida. Abro e vejo o segurança, outra vez?

"Bom dia Miss Gray, recebeu outra encomenda." Ele sorri-me, deve pensar que sou alguma prostituta por correio, com tantas "encomendas" que eu recebo até eu me ria. 

Agradeci-lhe e fechei a porta. Levei a caixa até a cama e abri-a. É um livro, é... Anna Karenina. Presumindo que esta encomenda também é do Nathan porque é que este me enviaria o meu livro preferido sabendo que já o tenho? 

Quando abro o livro respondo automaticamente à minha questão, é uma publicação bastante antiga, não digna de museu mas mesmo assim bastante mais antiga que a minha, que não é propriamente nova. Folheio as páginas e não é apenas uma edição antiga, é uma edição antiga com algumas frases sublinhadas a lápis. Enquanto fico espantada a olhar para o livro uma pequena nota cai-me no colo. Abro-a e deparo-me com uma tinta preta esbatida no papel, após decifrar a letra reconheço imediatamente a frase. 

"All I know is that I send her away and it feels like I shot myself through the heart."  *

Anna Karenina, quando a Anna manda Alexei embora e o marido pergunta se não era aquilo que ela queria. A única diferença é que ele alterou a frase para ser dirigida a mim. Isto significa que ele se arrepende de me ter mandado embora? Que se arrepende como agiu? Se sim, porque é que ele ainda não tentou falar comigo pessoalmente? Não são estas ofertas de "paz" que vão resolver as coisas por ele. Admito, é querido e original mas não é suficiente. 

"Contigo nunca nada é." Oiço as palavras dele a fazer eco na minha mente. 

Será verdade? Será que peço demasiado do que devia? Será que me contento com pouco? Talvez seja ele que faça pouco, peça demasiado e acha que tenho que aceitar apenas aquilo que ele dá.

Levanto-me e vou-me preparar para ir a algumas aulas antes de ir almoçar e ir para a livraria, aproveito e estudo lá um pouco, pode ser que me distraía. 

...

Quando chego ao auditório destinado a minha aula, história da literatura inglesa, avisto o Cameron, mas sem sinal do Richard. Será que me devo sentar ao lado dele? Ele foi ter comigo ontem e está perto das filas da frente, caso o Richard aparece pode-me ver e sentar-se ao meu lado. Aproximo-me do Cameron e sento-me ao seu lado. 

"Hey Anna, desculpa por não ter ficado mais ontem-" Interrompo-o.

"Não faz mal Cameron, obrigada pelo chocolate outra vez." Ainda bem que ele não ficou mais tempo, não saberia o que dizer ou o que fazer. Não me sinto confortável perto dele para o ter no meu dormitório.

A aula passou a voar e quando dei por mim já me estava a ir embora do auditório e não tinha visto o Richard. Despeço-me do Cameron e vou a andar até chegar a livraria, pronta para começar o meu turno. O dono da livraria, Mr Gordon, mal me vê a entrar esboça um sorriso suspeito.

"Boa tarde Miss Gray, está aqui uma encomenda para si." Outra?

"Obrigada Mr Gordon, espero não ter causado problemas."

"É sempre um prazer ver algo a ser feito como nos livros de romance antigos." Ele sorri.

...


* A frase original era "All I know is that I send him away and it feels like I shot myself through the heart" mas foi alterada o género, ou seja, o "him" para "her".




Notas:

1 - Eu sei que este capítulo não está tão bom como os outros mas tenho sentido um bloqueio mental para escrever. Além disso, tenho estado em exames da faculdade por isso vai ser mais complicado publicar todos os dias, apenas devo conseguir publicar dia sim dia não. Espero que compreendam continuem a seguir a história <3

2 - Uma outra autora portuguesa entrou em contacto comigo e pediu-me para partilhar convosco a sua história. Eu por acaso gostei muito da sua fanfic e aconselho-vos a passarem por lá e verem :) o seu nome de utilizador é SaraDavid2001.




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