Capítulo 31

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"Não devias estar a fazer esforços, podes ter uma tontura e desmaiar." Informo-lhe em tom de aviso.

"Estou bem Anna. Para alguém que quase morreu, claro." Ele esboça um sorriso fraco e eu sinto um aperto no peito. Ele tinha razão, era um milagre ele estar aqui à minha frente.

"Não menosprezes o que aconteceu, pensei por momentos que te ia perder." Fixo os meus olhos nos dele que agora estavam petrificadas num tom de azul frio.

"Foste tu que me abandonaste em primeiro lugar." Ele relembra-me da nossa discussão.

Eu páro de dançar e solto a minha mão da sua, deixando-a sair pelo meu corpo.

"Queres falar disso? Foste tu que me traíste com a Emma." Atiro-o à cara. Sem rodeios, sem falinhas mansas, sem piedade.

Ele morde o lábio inferior e solta um sorriso irónico afastando-se de mim e deixando-me sozinha no meio da tenda enquanto os outros casais dançavam à minha volta. 

Era mais que óbvio que não podíamos simplesmente ignorar o que tinha acontecido, todas as escolhas que nos levaram até aqui. Não podíamos fingir que não aconteceram e retomar o nosso último momento feliz. Não é assim que acontece no mundo real, nem alguma vez tal podia acontecer com o Nathaniel. Ele vai sempre ter o poder de me magoar quando e onde quiser, sem misericórdia, ele vai sempre retomar o ciclo da discussão e relembrar todos os erros que eu cometi, e eu, também com o meu feitio difícil vou sempre responder-lhe de igual forma. Isto somos nós e vamos ser sempre assim desta forma.

Afasto-me do centro da pista e dirijo-me para dentro da mansão, segurando com uma mão a parte do vestido branco para conseguir movimentar-me mais depressa.

"Anna, querida?" A voz da Elizabeth apanha-me despercebida e obriga-me a focar a minha atenção nos seus grandes olhos azuis iguais aos do Nathan. "O que se passa?" Ela questiona-me preocupada.

"Nada, vou só à casa-de-banho." Finjo um sorriso mas sei que não a convenci.

"É por isso que estás a chorar?" Ela franze a sobrancelha e eu toco na minha face. Não tinha reparado que estava a chorar até aquele momento. Seco alguma das lágrimas com as costas da minha mão e noto que a minha maquilhagem estava borrada. "Não faz mal querida." Ela esboça um sorriso e deixa-me sozinha.

Retomo o passo e entro na primeira casa-de-banho do andar de cima sem verificar se estava lá alguém. Deparo-me com uma rapariga de olhos azuis profundos e avermelhados no chão sentada com uma garrafa de vodka da mão. É a Mia.

"Deixa-me adivinhar, também estás a fugir de algo?" Ela esboça-me um largo sorriso e eu aceno docemente. "Junta-te ao grupo." Ela bate com a mão no chão para me sentar ao seu lado e assim o faço, recebendo a garrafa de vodka para a mão. "Bota abaixo." 

E assim o fiz. Mal bebi um golo da garrafa senti a minha garganta a queimar e o meu corpo a aquecer.

"Chateaste-te com o casmurro do meu irmão não foi?" Ela observa-me cuidadosamente mas não consegue ler o meu rosto. "Não te preocupes, ele sempre foi casmurro e senhor da razão." Ela liberta um riso irónico fazendo-me sorrir. "Desde que éramos pequenos que ele tinha que ganhar todos os argumentos, e às vezes não falávamos durante uma semana inteira, é um teimoso irritante de primeira classe mas está completamente cego por ti."

"Duvido seriamente disso." Solto um sorriso cínico e dou outro golo na garrafa. "Ele traiu-me com a Emma." Não sou do tipo de partilhar mas não me podia importar menos neste momento.

"Aquela cabra irritante ainda anda por aqui? Pensava que tinha voltado para o habitat natural." A Mia retira-me a garrafa e afunda o líquido pela garganta abaixo. "Ela sempre manipulou o Nathan, sempre o teve como um fantoche nas mãos. Até aposto que o enganou com um teatro qualquer com lágrimas."

Pego na garrafa e peço por mais líquido a queimar-me a garganta, consegue ser menos doloroso do que pensar em tudo o que o Nathan já fez.

"Mesmo assim o Nathan é que foi parvo por ter caído nisso. Pelos vistos eu não sou suficiente." Admito à minha nova companheira.

"Junta-te ao grupo. Os meus últimos dois ex's enganaram-me múltiplas vezes, e vamos sublinhar o facto que namorei com um deles há seis meses e outro há três." Ela começa a rir-se descontroladamente. "E o pior de tudo foi quando descobri que e traíram com a minha melhor amiga. Considerava aquela cabra uma irmã e depois atirava-se a todas os rapazes que eu gostava."

"Isso ainda é mais triste que a minha situação." Junto-me ao seu riso descontrolado. "Precisas de amigas novas."

"Achas?!" Ela ri-se ainda mais alto. "Ainda não me tinha apercebido." Ela pega na garrafa e inclina a cabeça para trás. "Sabes o que é que precisámos? De nos divertirmos!" 

A Mia levanta-se com dificuldade do chão e com uma mão a segurar na garrafa de vodka, oferece-me a outra para me ajudar a levantar e assim o faço. 

"Vamos!" Ela informa-me e pega-me na mão arrastando-me desde a casa-de-banho até à porta da entrada. Afastamos-nos até chegarmos à rua onde está duas filas cheias de carros estacionados, provavelmente todos convidados.

Ela conduz-me até a um Mercedes prateado e convida-me a entrar para o lugar do passageiro. Não fazia ideia que ela já tinha carta, mas de qualquer maneira o incorrecto já o estávamos a fazer.

...

Após uma hora de viagem com o rádio no volume máximo e de uns golos na garrafa de vodka, a Mia estacionada à frente de vários bares e discotecas que nunca tinha visto mas as filas eram intermináveis. Saímos do carro e dirigimos-nos para a porta de um dos estabelecimentos, passando à frente de uma fila enorme. 

"Têm que ir para a fila." Um segurança musculado impede a passagem a Mia e esta apenas esboça um sorriso enorme.

"Faz alguma ideia de quem sou? Mia Clark, filha do Sr. Clark." Ela afirma e uma expressão de pânico instala-se no rosto de segurança. Claramente que o pai da Mia e do Nathan é alguém importante.

O segurança deixa-nos passar e ainda desculpa-se à Mia, aparecendo um empregado qualquer que nos acompanha até a uma mesa VIP no meio da discoteca. 

Sentamos-nos num enorme sofá redondo branco e a poucos minutos depois uma garrafa de tequila está à nossa frente e estamos a ser servidas por uma linda mulher loira.

A Mia não perde tempo a despejar a sua bebida pelo seu esófago e eu sigo o exemplo, afastando todos os maus pensamentos e pensamentos relacionados com o Nathan, que na sua generalidade, são maus pensamentos.

"Vamos dançar!" A Mia implora-me pela quinquagésima vez e finalmente cedo ao seu beicinho.

Ela abre caminho para o centro da pista e em segundos as suas ancas já estão sincronizadas com o ritmo da música, chamando a atenção de vários homens que se encontravam ao seu lado, alguns acompanhados por outras mulheres. Sem dúvida que a Mia é uma força da natureza, destemida e livre. 

Ela puxa-me para junto a si e começa a roçar-se em mim de modo que eu entro no seu ritmo. Se não fosse da intoxicação do álcool eu nunca faria algo assim, mas o que é que interessa? Neste exacto momento não há barreiras nem limites.

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