Tentativas de trabalhar a escrita, através de temas variados, textos curtos, sem grandes compromissos, sem prazos ou metas, apenas aproveitando qualquer inspiração que surgir.
Também posso revisitar algumas histórias ou poemas meus, publicadas em ou...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
José e Silvana recém sentavam - se à mesa para engolir o parco café da manhã - que consistia em um líquido melado e fumegante e dois pães franceses amanhecidos para ele e um para ela - quando ouviram o som das palmas.
A princípio não deram atenção, devia ser no vizinho.
O som se repetiu, mais firme dessa vez.
Entreolharam - se. A dúvida - entremeada de descrença - estampada no rosto de ambos.
Fazia tempo desde a última vez que alguém viera bater a porta do casebre mal acabado em que viviam. Eles fingiam entre si e para si que era melhor assim. Muito bom que nenhum vendedor viesse encher o saco ou que alguma testemunha de Jeová se atrevesse a vir tentar lhes salvar a alma. Mas a verdade é que a cada vez que alguém pulava sua residência para bater na dos vizinhos era como que uma pá de cal a mais sobre a dignidade de ambos.
As palmas continuaram por mais um tempo e então a curiosidade foi maior que tudo.
- Vá lá ver o que é, mulher. - disse o homem fingindo impaciência.
- Não há de ser nada - ela respondeu, já apertando o passo. Finalmente o marido dera - lhe permissão.
Mas ao chegar ao portão a velha decepção.
Não havia ninguém.
Antes que entrasse em casa, porém, pôde ouvir o barulho de um carro que saía ali de perto e novamente a dúvida acendeu.
"Será? "
Ao voltar com um ar pensativo à pequena cozinha o marido indagou:
-O que foi, mulher?
-Não tinha ninguém, de certo era na casa do lado.
- Eu bem que imaginei. Bem, melhor assim. Pelo menos posso ir para a lida sossegado ao invés de perder tempo com algum vendedor mentiroso.
Levantou - se e saiu.
Silvana nem mesmo voltou a sentar. Na mesa o resto do pão meio seco e o café que já começava a esfriar. Engoliu tudo com pressa. Não suportava desperdício e assim tbém não dava tempo de se incomodar com o gosto.
O restante do dia passou da maneira usual. O marido na fábrica e ela em casa. Muito trabalho para os dois. A noite um prato de arroz e feijão e cama. Estava frio, então ela tirou o cobertor extra do maleiro. Era velho e cheirava a mofo, mas era quentinho e tornou a noite mais agradável.
De manhã ela começava a passar o café enquanto ouvia os roncos do marido - que aproveitava seus últimos minutinhos de sono - no quarto ao lado.
Então ouviu o som das palmas. Era o mesmo do dia anterior. Ela sabia, de alguma forma.
Antes que a dúvida lhe atordoasse os passos ela foi célere até a porta.