Tentativas de trabalhar a escrita, através de temas variados, textos curtos, sem grandes compromissos, sem prazos ou metas, apenas aproveitando qualquer inspiração que surgir.
Também posso revisitar algumas histórias ou poemas meus, publicadas em ou...
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Valéria parou, ajustou mais uma vez a armadura já velha e gasta, cheia de marcas de batalha, verificou as pistolas e o fio da espada. Tudo pronto. Com um dedo mediu a direção do vento. Estava a seu favor, eles não sentiriam. Prendeu os fios de cabelo longos e prateados que, por causa do vento, agora escapavam do capacete de proteção. Respirou fundo, beijou três vezes a medalha que carregava no pescoço e prosseguiu. Era o confronto final, a sua última chance. Sua princesa a esperava.
À sua frente, poucas milhas adiante, rodeada de vegetação selvagem - e coisas piores espreitando dentre a vegetação rasteira e espinhosa e dentro da água lamacenta do fosso antigo -, está a torre que aprisiona a sua garota em sua janela mais alta e aparentemente intransponível. Mas não mais. Hoje Valéria vai atravessar esse caminho tortuoso e resgatar a sua princesa pássaro.
Melina. A mais doce de todas. Um pequeno e frágil pássaro negro preso nas grades terríveis de um falso amor paternal. Trancada em uma torre vigiada, protegida do mundo e seus teóricos perigos para sempre. Há quanto tempo será que ela não cantava mais? Valéria não sabia. Teria alguém percebido o quanto aquele pássaro sofria? Alguém mais ouvia os seus mudos pedidos de socorro? Valéria temia não chegar a tempo.
Seguiu adiante confiante. Tinha medo, muito medo. Mas isso jamais a pararia. Melina precisava de sua coragem e Valéria precisava de seu amor. Logo à frente os monstros espreitavam, o olhar maligno e carregado de maldade. Se atreveriam a atacar assim à luz do dia? Podia acontecer. Ela tinha que estar preparada para tudo.
Procurou sentir mais uma vez o peso das pistolas carregadas. Isso a acalmava. Na falta da voz doce de sua menina, era o que havia.
Caminhou com cautela, desviando das plantas venenosas que tentavam prender os seus passos. Esmagou uma ou outra criatura rastejante, não dando a elas mais do que uma fração de segundo de sua atenção. Havia perigos maiores à frente.
Logo adiante surgiu uma das gárgulas, antigas e fatais. A peleja foi difícil, mas Valéria conseguiu vencer habilmente, e sem gastar mais do que duas balas. Nem um arranhão a atingiu.
A vitória não a acalmou, sabia que andavam sempre em bandos. Era melhor se precaver.
Como sempre estava certa. Anos de batalha a deixaram esperta. Lá vinham mais duas e podia apostar que havia uma tentando dar um retorno escondida e lhe pegar por trás. Essa foi a primeira que matou. Com a espada cortou-lhe a cabeça de uma vez só. As outras duas mais a frente tiveram um momento de pausa assustada sem saber como agir. Valéria aproveitou-se disso para ferir de morte mais uma, que saiu fugindo deixando para trás uma trilha de sangue negro. A outra, agora cheia de raiva, lhe deu um pouco mais de trabalho. Seis balas e alguns arranhões superficiais depois e ela finalmente caiu.
A essa altura Valéria já sentia o suor começar a escorrer. Era só o começo, pensou, enquanto recarregava as pistolas. As gralhas grasnavam loucamente a essa altura, conforme se aproximava da região em torno do fosso. Provavelmente as fofoqueiras tinham ido entregar a sua chegada. Hora de dizer adeus ao fator surpresa.