TRINTA

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   Quando eu digo que minha famigerada "sorte" durou pouco, me refiro ao fato de tentar não desejar tanto o Guilherme. Por mais que eu me esforçasse para ignorar a sensação boa que me tomava ao estar com ele, beijá-lo e até brigar, eu não conseguia. Pelo menos, tinha conseguido algumas horas longe daquele perfume e sorriso, Fragoso resolveu ir buscar as minhas coisas, até porquê amanhã temos trabalho e não posso ir com um jeans e regata. 

   Em relação a cama, ele insistiu em dormir no sofá, o que eu estranhei... Ok, sei que estou fugindo das investidas dele, mas  eu posso admitir — só mentalmente, que até tenho medo de proferir em voz alta — que gosto dessa insistência. 

   Guilherme é a minha versão masculina, não posso negar isso. 

   Se essa fosse uma história bem clichê, as camisas tamanho M do Fragoso caberia na minha pessoa e ainda ficaria folgada. No entanto, estamos falando sobre a realidade e bem, a única coisa que poderia dar em mim, era os lençóis da cama king size.

   Então, apenas fiquei de lingerie. 

   O jeans estava me irritando e a regata tinha ido para a máquina de lavar. 

   E não. Não é uma provocação. 

   Tá bom, eu sou um tiquinho vingativa. 

   Joguei a bolinha para o Nick pela enésima vez e me levantei. Os raios de sol entravam pelas paredes de vidro, trazendo um calorzinho agradável ao se misturar com o ar condicionado da cobertura. Foda-se se alguém podia me ver lá de baixo, aquela vista era boa demais para ser desperdiçada.  

   Mesmo distraída com a paisagem, o meu estômago se manifestou, roncando de um jeito que até o Nick parou de morder a bolinha para me olhar. Dei de ombros para o meu pequeno lobo. O Guilherme saiu achando que voltaria cedo, mas já era a hora do almoço e nada dele. Nem das minhas roupas. 

   O que significava duas coisas: 

   Uma, vou cozinhar. 

   E a segunda, é que vou ter que usar o avental ridículo do Fragoso. 

   Não me levem a mal, o avental tem escrito um "o verdadeiro filé sou eu". Tirando essa parte, eu sempre gostei de cozinhar. Até acho que a maioria dos meus quilos a mais se devem ao fato de sempre amar estar perto do fogão, não só comendo, mas fazendo a minha própria comida. Porém, isso só acontecia se eu estivesse dançando e experimentando tudo ao mesmo tempo. 

   Também era difícil de me concentrar, porque o Gui tinha a geladeira dos meus sonhos.: duas portas gigantes e que quase ocupavam uma parede. Tá bom tudo era muito berrante, em amarelo e vermelho, mas ainda sim, era a geladeira prateada dos meus sonhos mais gordos. 

   Escutando um coro angelical —  juro que podia ouvir até uns sinos lá no fundo —, puxei as duas alças, abrindo aquela maravilha e quase desmaiando em seguida. 

   — Nossa Senhora das Comedoras de Pudim! — exclamei olhando a geladeira mais abastecida que eu já vi na vida. Eu poderia viver uns seis meses só com aquela comida. Tortas, refrigerante, cervejas, uma área colorida cheia de frutas e verduras, queijos, sorvete... Era muita coisa. Mas não tinha comida congelada, o que mostrava que, além de rico, bonito, cavaleiro... O maldito Fragoso ainda sabia cozinhar. 

   Eu poderia criar várias coisas com todas aqueles ingredientes, mas a minha fome optou por uma macarronada rápida e simples. Logo depois de organizar a bancada, corri para colocar uma música e explorar o sistema de som do riquinho rico — gostaram do apelido? — até porque, se não for para cozinhar e balançar a minha bunda, eu nem começo. 

(música: Swalla - Jason Derulo ft. Nicki Minaj)

  Se uma pessoa estivesse essa cena, ela, com toda certeza do mundo, riria. Eu estava de lingerie, com um avental tosco, dançando enquanto esperava o macarrão cozinhar e arriscando arrancar meu dedo ao picar o queijo e algumas verduras para fazer o molho. 

   — Rrrrrrruuuu — tentei (e falhei vergonhosamente) imitar o ronronar da Nicki Minaj na música. A batida era muito contagiante e meus quadris eram bem fáceis de influenciar, já se mexiam como se não houvesse amanhã. — Freakin', freakin' girl! — cantei, mexendo a cabeça, sem conseguir me controlar, desço até o chão, arriscando até uma mãozinha no cabelo. 

   Gargalhei, subindo e rebolando..

   Hmmm, acho que está faltando um pouco de oregán...

  — Eu não sei o que está me deixando mais excitado, se é esse cheiro de comida italiana ou o fato de você estar de calcinha e sutiã, rebolando de um jeito que devia ser proibido e sem estar fazendo isso para me provocar... Só porque está a fim...

  — Que susto! — resmunguei, virando para encará-lo. 

  Ok.

   Não devia ter feito isso.

   Eu já tinha visto vários "Guilherme's" durante todo esse tempo. 

   O empresário sexy, com ternos sob medida e erguidas de sobrancelha capazes de fazer qualquer calcinha cair automaticamente. 

   O cafajeste, com sorriso safado e um perfume que devia ser patenteado pela "sedução". 

   Até o Guilherme-casa, de bermuda e sem camisa. 

   Mas, esse era novidade. 

   Em mais de oito anos, eu nunca tinha visto o Fragoso fazer trabalhos braçais. Que exigissem força e muito suor. Ele era uma preguiça ambulante e extremamente fresco. Entretanto, assim que dei de cara com a regata preta, os músculos suados, o cabelo despenteado, sem nem mencionar a face rubra por causa do recente esforço e a cara de besta por ter me visto dançando, eu salivei. 

   E ele, obviamente, percebeu. 

  — O que vamos ter para o almoço? —  pousou as caixas no chão, estalando o pescoço e limpando a gota de suor que escorria pela testa. Como um gato, ele se esticou, aproveitando para me dar uma olhadinha ao passar a mão pelos fios negros. — Spaghetti?  

   Fechei os olhos com força, mandando o meu cérebro voltar para o lugar dele. Mas parecia que ele tinha passado os meus controles mentais para a minha boceta. E, ela sim, sabia muito bem o que queria. 

   — Não. 

   Ele ergueu uma sobrancelha, arrodeando o balcão. 

  — Não?  

  Aquiesci, soltando o meu cabelo, tinha descoberto recentemente que o Guilherme gostava de ver ele cair sob os meus ombros. 

   —  O cardápio mudou —  desci um tom da minha voz. Eu podia ser virgem, mas conseguia ser ótima em flertar. Não me questionem como, talvez seja um dom. 

   Ele sorriu.

   — Então o que teremos, Joyce? — os olhos azuis esverdeados estavam famintos.

   Eu me sentia na porra de um filme pornô barato...

   E o pior é que eu estava gostando disso.

   E muito. 

    Lambi meus lábios, o fitando de cima a baixo, comendo cada pedacinho daquela maravilha de homem com os olhos, sorrindo pra ele no fim, quando nossos olhares se encontraram. 

    — Você.  

O Sabor Dos Seus Lábios - As Whiter'sHistórias para pegar e não largar. Descubra agora