Anos se passaram desde o dia em que Pandora fora deixada na varanda de George. Agora, ela era uma jovem adulta de beleza marcante — traços delicados, mas intensos, a pele clara salpicada de sardas sutis e profundos olhos castanhos, emoldurados por uma cascata de cabelos negros e ondulados. O tio havia desistido há muito tempo da ideia de que algum lobo surgiria para resgatá-la — e libertá-lo do fardo. Pandora, porém, ainda nutria esperanças, mesmo que o tempo tivesse apagado o som daquelas vozes de sua memória.
George a abominava com todas as forças — sobretudo por ter traído seus próprios princípios ao conjurar dois feitiços por causa dela. O primeiro, um encantamento de ocultação em um colar que a tornava invisível a bruxas farejadoras. O segundo, uma barreira impenetrável ao redor da propriedade: só ele entrava e saía livremente. Assim, Pandora ficava trancada, protegida de ameaças externas... e das visitas da matilha. Ele duvidava que os lobos voltassem, mas precaução nunca era demais.
Todo aquele esforço, contudo, não gerara um pingo de afeto. George não fazia questão de esconder seu desprezo. Pandora também detestava estar presa ali, preferindo os momentos em que ele sumia na loja de antiguidades a tê-lo por perto, explodindo em crises de fúria e descontando tudo nela.
Desde os oito anos de idade, ela arcava com todas as tarefas domésticas. Se George flagrasse um fiapo de pó ou uma panela suja na pia, o castigo vinha em forma de berros e agressões, terminando com a garota trancafiada no porão — sem comida ou água. Ao longo dos anos, o abuso a moldou: a criança chorosa deu lugar a uma jovem endurecida. Os olhos outrora brilhantes agora eram velados por desconfiança, um vazio que mascarava explosões silenciosas de fúria.
E não fora por falta de tentativas de fuga, mas a barreira mágica a prendia como uma jaula invisível. Pandora não entendia como funcionava; janelas escancaradas ou portas entreabertas de nada adiantavam. Ao tentar atravessar o limite do quintal, batia em uma parede sólida de ar, as mãos espalmadas contra o vácuo pulsante enquanto seu corpo ricocheteava como se colidisse contra o vidro. Aquela frustração a corroía dia após dia.
Mesmo com o colar no pescoço, Pandora ainda manipulava magia — sem saber, sem querer. Para ela, o sobrenatural era ficção, e suas manifestações costumavam passar despercebidas, como um sussurro do sangue mestiço que George tanto temia. Objetos caíam de lugares impossíveis sem explicação, lâmpadas piscavam sozinhas e a lista de anomalias só crescia. Certa vez, no porão abafado, ela desejou intensamente que o aquecedor desligasse — e o aparelho se apagou com um clique súbito. George teve um ataque de fúria: o porão esfriou, mas o resto da casa congelou bem no início do inverno. Ela jurou inocência; desejara aquilo, sim, mas não tocara no botão. Ele não acreditou. Naquela noite, Pandora dormiu com o corpo dolorido e os olhos inchados de tanto chorar.
— Ei, praga! Já acordou? — O tio martelou a porta do porão, gritando. — Acorda logo!
— Estou indo, tio George! — Pandora se ergueu do colchão fino jogado no chão de cimento. O lugar era um buraco úmido, com paredes rachadas e o som constante de goteiras no teto baixo. Apoiada no travesseiro encardido, ela ajeitou as roupas puídas com os dedos ainda dormentes de frio.
— Anda logo! Meu café da manhã não vai se fazer sozinho! — berrou ele, a voz ecoando pelos degraus.
— Já estou indo — murmurou ela para o topo da escada.
Pandora ouviu os passos pesados de George se arrastando até a cozinha, seguidos pelo rangido estridente de uma cadeira sendo puxada. Ela gemeu baixo, exausta de ser a empregada perpétua do tio. Esfregou o rosto com as mãos calejadas, prendeu o cabelo em um coque frouxo e subiu para começar o dia.
Assim que entrou na cozinha, foi direto para a pia, lavando o rosto com a água gelada antes de pegar a frigideira no armário. Tirou ovos e bacon da geladeira, sentindo o mormaço do fogão contrastar com o ambiente gélido. De canto de olho, observou o homem sentado à mesa: ainda era um tipo bonito, embora envelhecido, com fios brancos salpicando o cabelo curto e a barba por fazer. Vendo-o ali, absorto no jornal, ninguém imaginaria o monstro por trás daquela fachada pacífica. Se George não fosse tão podre por dentro, poderia ter uma família de verdade. Mas nem tudo sai como queremos — pensou ela, engolindo o nó na garganta.
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The Hybrid | Elijah Mikaelson
Fanfiction"Por muitos anos, a doce e inocente Pandora Carter era maltratada por seu tio George, que a criava. Mas um dia, em uma perda de controle emocional, ela comete um enorme erro que lhe custará a sua "segurança" e descobriria sozinha que tinha dons que...
