Apesar de estranho, o caderno de capa preta era fascinante — um verdadeiro grimório repleto de rituais complexos e feitiços que qualquer bruxo de fantasia invejaria. Ainda assim, aquilo não mudava o fato de George ser um homem intragável.
Pandora sempre tentara se distanciar da amargura do tio. Doce e atenciosa, ela interpretava o papel da criada pacífica na esperança ingênua de que, um dia, ele reconhecesse seu valor e a deixasse explorar ao menos os limites do bairro. Pura ilusão: George nunca seria afetuoso, e não tinha o menor interesse em conhecê-la.
Aos poucos, no entanto, aquele feitio amável começava a dar lugar a uma rebeldia silenciosa. O enjaulamento a sufocava. Ela sonhava em ver pessoas, ouvir música e dançar — mundos que só conhecia pelas páginas dos livros. Quebrando a própria rotina, acomodou-se no sofá da sala, com os olhos presos ao jardim da vizinha. Vasos impecáveis de lírios e margaridas reluziam sob a luz de uma lua cheia imensa. Era uma vista linda, mas que já tinha perdido o encanto pela repetição.
— Eu vou enlouquecer neste lugar... — resmungou, os dedos cravados nas bordas ásperas do grimório enquanto observava as flores.
Embalada pelo tédio, Pandora acabou pegando no sono ali mesmo, com o livro frouxo entre as mãos. Sonhou com a liberdade. Um casal radiante — seus pais, ela presumiu — a envolvia em um abraço caloroso, sussurrando palavras de carinho. Era o seu anseio mais profundo transformado em um bálsamo efêmero.
O puxão violento que arrancou o caderno de seus braços a trouxe abruptamente de volta à realidade. Com os olhos arregalados, deparou-se com George arfando de fúria, com o rosto vermelho de raiva. Antes que ela pudesse balbuciar uma desculpa, ele desferiu o primeiro golpe contra o rosto dela usando o diário pesado.
— Por favor, não! Pare! — clamou Pandora, encolhendo-se no estofado para tentar escapar, os braços erguidos em uma defesa inútil.
— Onde você achou isso? Onde? — rosnou ele, ignorando os apelos. O livro atingia seu rosto e ombros com baques surdos. — O que você fez? Tentou conjurar alguma coisa?
— Não! Eu só li! Achei no escritório e...
A confissão apenas alimentou a fúria do tio. Os impactos vieram ainda mais fortes, esmagando suas palavras e fazendo Pandora gemer de dor enquanto tentava rastejar pelo chão.
— Além de encosto, ficou surda? Quantas vezes eu disse para não tocar em nada no meu escritório? — cuspiu ele. George a agarrou pelo braço com brutalidade, prensou-a contra a parede fria e desferiu um soco direto em seu ombro. Uma queimação aguda disparou por seus nervos. — Nem pense em fugir! Vou te ensinar a nunca mais mexer nas minhas coisas!
Pandora implorava entre soluços, mas o tio parecia cego pela raiva. No meio do caos da mente zonza, uma dúvida latejava: por que um livro de feitiços que ela julgava infantis o enfurecia tanto?
Num surto de pura adrenalina, Pandora chutou o estômago de George. O impacto inesperado o pegou de surpresa, fazendo-o cambalear e cair sentado na poltrona com um grunhido. Aproveitando a brecha, ela correu em direção à cozinha, mas ele se recuperou rápido demais: agarrou-a pelos cabelos em um puxão doloroso, desferindo mais golpes contra suas costelas. Naquele momento, porém, algo mudou dentro de Pandora. Ela decidiu que não seria mais inerte.
Aos gritos, ela se debateu até se livrar do aperto, deixando alguns fios de cabelo para trás. Movida por um desespero violento, ela avançou contra George e o encurralou contra a parede, cravando o antebraço direito contra o pescoço dele. Por alguma razão além de seu entendimento, o homem debateu-se fraco, sem forças para se soltar. Os olhos dele se arregalaram em um pavor inédito.
— Me... s-solta... sua aberração inútil! — ordenou ele, com a voz rouca e sufocada. George tentava atingi-la com unhas e cotovelos, ficando roxo pela falta de ar, mas não conseguia mover a jovem um centímetro sequer.
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The Hybrid | Elijah Mikaelson
Fanfiction"Por muitos anos, a doce e inocente Pandora Carter era maltratada por seu tio George, que a criava. Mas um dia, em uma perda de controle emocional, ela comete um enorme erro que lhe custará a sua "segurança" e descobriria sozinha que tinha dons que...
