Capítulo 13 - Negações

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Carla chegou ao treino. Tinha acabado de passar pegar seu carro que já estava totalmente reparado. O serviço foi feito por um fã fanático do Lyon e foi rápido.Na verdade o estrago parecia maior do que realmente foi.

Logo que chegou já com o uniforme de treino, passou a correr à volta do campo, e Star atrás. Sabia bem o que ela queria, por isso acelerou o pique e manteve o mais que pôde. De repente algo a alcançou por trás e caiu com ela embolada no gramado.

--Ela é gata!? Você disse que era gata?! Ela é um avião! Puta merda Cosmo! Como não disse que era aquela morenaça que estava no banco com a comissão?! Quanto tempo tá comendo ela? – Star dizia sem fôlego. Carla se desvencilhou do corpo dela com um empurrão.

--Ei Star, olha como fala dela! – Star sorriu e fez uma cara apavorada.

--Não acredito! Aconteceu mesmo?! Você se apaixonou?! Derrotaram a Cosmo! Não acredito! – Sentaram no gramado e Carla responde séria.

--Vai à merda Star Vai! Você foi presa por estuprar uma gringa e eu não te perguntei nada! – Star se aborreceu.

--Ei Cosmo vai tomar no seu cu! Eu não estuprei ninguém! Eu tava bêbada pô! A mina chegou toda se sorrindo na minha frente falando comigo. Sei lá que língua ela tava falando eu tava pregada de tequila! Achei que ela tava me querendo e agarrei! Dei mó beijão e ela bem deixou! Daí veio um cara bem puto da vida me segurando e puxou a mina! Eu "preguei a mão nos córno" dele! Só que era o marido da mina que eu tinha beijado e eles chamaram um polícia e eu me fudí! – Carla ria.

--Olha Star, não sei se o melhor são as coisas que te acontecem ou o jeito que conta elas! Mas sempre começa com "eu tava bêbada"! – Star rebateu.

--Ao menos eu tava bêbada! Você tá sóbria e com cara de menina adolescente apaixonada! – Carla fez uma voz de ironia.

--há há Estrelinha! Que engraçado! Porque você não se enfia dentro do próprio cu e vê se me esquece! Vem. – disse dando a mão para que ela levantasse. – O treino vai começar.

Durante todo o treino Star colocava as duas mãos atrás do corpo e movia um pé em meia lua olhando o chão fingindo de garotinha tímida dizendo "tá apaí-xona-da, tá apaí-xona-da" e Carla, depois de reclamar umas duas vezes começou a rir daquilo. Num momento parou perto dela, imitou o mesmo gesto de timidez dizendo "Star deu pra go-leira lag-berg e foi a bun-da, Star deu..." Star pulou nela rindo e interrompendo-a.

--Para sua puta! Nunca mais te conto meus segredos! – E assim aquele treino foi bem descontraído e produtivo, e certamente ninguém ali além de Star teria coragem de fazer qualquer pergunta sobre Nanda e a capa do jornal. Também se fizessem iam receber provavelmente um "vá se foder" como resposta.

Entardecia quando Carla parou o carro no portão de casa na Tassin-La-Demi-Lune. Parado em frente ao seu portão estava o carro de Nanda. O coração de Carla disparou. Ela colocou as duas mãos na nuca e espichou a cabeça para cima buscando calma. Então bagunçou os cabelos e desceu do carro. Nanda também descia de seu carro. Como ela estava linda! Pararam uma em frente a outra. Nanda evitava olhá-la.

-- Quer entrar? – Carla perguntou e ela negou com a cabeça.

--Podemos caminhar um pouco pela rua? – Carla concordou. Andaram por um tempo lado a lado sem nada dizer, e tudo que Carla conseguia pensar era na falta da mão dela junto à sua enquanto caminhavam, como nas outras vezes que andaram juntas. E esta falta de algo tão simples como segurar sua mão assustava muito! Nunca foi assim antes!

--No que está pensando? – Nanda perguntou com um sorriso inseguro e um pouco entristecido. Era um sorriso combalido, estafado.

--Estou tentando pensar em mil coisas, mas tudo que consigo pensar agora, é que eu queria segurar sua mão! – Nanda estacou por um instante. Seu semblante pareceu pesar. Então ela segurou a mão de Carla e continuou andando sem olhá-la. Disse com um sorriso tímido.

--Também estava sentindo falta de segurar sua mão. – E Carla assustou-se com a força daquele simples gesto. Apenas segurá-la pela mão parecia lhe ser de tanta importância agora! E lhe trazia algo diferente, algo que lhe falava de uma paz que ela não compreendia. De qualquer forma, se pensasse nisto, ou qualquer outra garota lhe falasse disso, não pareceria tão primordial como era ter a mão de Nanda na sua enquanto andavam sem nada dizer. Pararam na Place Pierre Vauboin e sentaram lado a lado em um dos bancos. Nanda tinha o olhar perdido.

--Eu ainda estou tão confusa! – Nanda disse olhando para frente. – Pensei em você a tarde toda! Por mais que eu não quisesse! Essa não é a relação que sonho pra mim! Não é só porque você é uma garota, é que... Não combinamos em nada! E o que sinto por você só me perturba! – Carla a olhava com um semblante triste.

--Eu entendo! Você também me perturba! Nunca quis uma relação com ninguém. Tem momentos que preciso estar com minha cabeça vazia, direcionada, e você está fazendo um carnaval nela! Com escola de samba, surdo e tudo o mais! Hoje no treino tudo me fazia pensar em você, e não posso! Não posso me entregar assim! Mas já não tenho controle! Você tomou tudo em mim sem que eu permitisse, e agora estou tentando organizar as coisas. Eu quero meu coração de volta e você quer devolver, só não sabemos como fazer isso! – Nanda olhou-a nos olhos ainda mais confusa. Negou com a cabeça.

--Preciso de tempo! Pra organizar isto tudo em mim! Porque ainda não sei se quero devolver nada! – Os olhares fixos e nervosos, miravam-se a falar do beijo que elas estavam evitando com esforço. Nanda desviou o olhar. Passou as mãos nos cabelos agoniada. – Tem também meus pais, não param de me ligar! Vou conversar com eles daqui a pouco.

--Se eu puder fazer alguma coisa. – Nanda sorriu, um sorriso um pouco triste, mas era um dos seus e era belo, e mexia com Carla.

--Tente ser minha amiga e me ajudar a controlar tudo isso! – E mesmo sorrindo, uma lágrima lhe desceu pelo rosto. – Precisamos ir. – Carla concordou com a cabeça. Levantaram e ela segurou o rosto de Nanda, limpando aquela lágrima.

--Você vai ficar bem? – Nanda olhou para o chão evitando seus olhos.

--Se me der a mão para voltarmos até o carro vou. – Sorriu ainda sem olhá-la. – E você? – Carla segurou-lhe a mão passando a andar.

--Enquanto ainda puder segurar sua mão acho que sim. – Voltaram mudas até o carro. Pararam. Nanda abraçou-se forte a Carla, escondeu o rosto em seu pescoço. Os corpos unidos e tanta emoção incrível e inexplicável naquele abraço. Aspirou o perfume dela. Carla tinha um cheiro que mexia com ela, com tudo nela! Sussurrou.

--Me diz que tudo isto que estou sentindo vai passar! É muito forte! – Mais uma vez Carla sentiu o peso que tinha cada palavra que ela lhe dizia.

--Só se disser que vai passar pra mim também! – Carla sussurrou de volta. Ali soube que estava totalmente perdida, enquanto viu Nanda separar-se dela e sem conseguir nem mesmo olhá-la, e partir em seu carro. Ela estava levando algo com ela, algo que roubou sem querer, porque Carla nunca pretendeu lhe dar. Ela estava levando seu coração! Ele não só havia sido tocado, como havia sido arrancado, e agora estava todo com aquela garota.

Parada ali no portão, Carla não sabia dizer quem delas duas estava mais confusa. Dizem que os que tomam a iniciativa e partem são mais fortes, mas só ela sabia a força que estava imprimindo para não ir imediatamente atrás dela e roubar-lhe todos os beijos que tinha de uma vez. Precisava urgente ter seu coração de volta, e parar esse sentimento. Precisava ver alguém. 



NOTA:

Aii que fofo!

O Poder eo SonhoOnde histórias criam vida. Descubra agora