Capítulo 49 - Tempestade

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Carla estava ali. Aquele foi o único lugar que conseguiu pensar. Pegou o filho e a Mãe em casa, ligou para Star e disse que cancelasse tudo que estivesse fazendo. Ligou para o assessor. Ele que resolvesse tudo e rápido, queria um jato particular. Pra onde? Ele perguntou. E Carla repetiu a pergunta para si mesma. Onde queria estar? O mais longe de Nanda possível! Onde ela não pudesse chegar. Em uma ilha. Sozinha. Era isso. Disse que ele comprasse ou alugasse uma ilha. Aproveitando que logo ela teria que estar no Rio de Janeiro para jogar pela seleção, ele alugou a Ilha Da Piedade em Angra dos reis. O nome fazia muito sentido. O estado do coração de Carla dava piedade.

Assim que chegaram ali, a beleza do lugar parecia piorar tudo! Não só nela. Até Augustã sentia. O pequeno dava crises histéricas constantes. Nada estava bom para ele. Naquela tarde, sentados no mesmo lugar que estava agora, enquanto nuvens negras se formavam no céu tiveram uma conversa. Ele fez a pergunta que estava evitando.

--Maman... Porque minha Mãe não veio? Onde ela tá? – Carla engoliu em seco.

--Filho, eu e sua Mãe... – Como dizer isto ao pequeno se nem ela queria ouvir. – Ela não vai ficar com a gente.

--E quando que ela vem? – Olhou mais uma vez para o garoto.

--Você lembra a ultima vez que tive que viajar e fiquei um tempo sem te ver, e você passou o natal e o ano novo sem mim? – Ele concordou com a cabecinha. – Lembra como ficou magoado comigo, brigou comigo e não queria me ver? Então... Eu e sua Mãe... Nós brigamos, e eu estou muito magoada, eu não quero mais vê-la, porque isto vai me doer muito! Mas ela não fez nada pra você... Espera um tempo, só um tempo e eu peço à tia Star que te leve ver sua Mãe, está bem? – O pequeno fuçou com um graveto no chão. Ele não era capaz de um sorriso desde que saíram de Lyon.

--Maman, você vai ficar boazinha depois que nem eu fiquei e vai querer ver ela? – Carla negou docemente.

--Não, filho. Você só estava um pouco triste... Vai ser diferente comigo. Eu vou melhorar, mas não vou mais ver a Nanda... Mas você pode visita-la. Vamos morar em outro lugar, outra cidade, e pode ir Vê-la. – Ele endureceu o semblante.

--Então não vamos mais morar tudo junto? – Carla respondeu negando com a cabeça, enquanto o nó se formava em sua garganta. O pequeno apenas correu para dentro de casa enfurecido.

Desde a hora que conversou com Augustã ainda estava sentada ali. Olhava os raios cortarem o céu. Sua alma parecia bastante com aquela tempestade. Por mais que quisesse que fosse como das outras vezes, por mais que doesse admitir, não havia como apenas apagar Nanda da sua vida. Ela estava ali, presente em seu peito, e seria um esforço enorme arrancá-la, mas Carla conseguiria. Se focaria em seu futebol, em seu sucesso, em seu filho, e começaria tudo outra vez.

Novamente a chuva a enganava. Enquanto a agua gelada banhava com fúria todo o seu corpo, as lágrimas banhavam com fúria todo o seu rosto. Como se molhada não soubesse definir o que eram lágrimas e o que era chuva, mas ela sabia. Mais uma vez estava a chorar por Nanda.

--Agora já chega! Entendo que sua alma precisa ser lavada, mas está embaixo desta chuva há mais de três horas. Vamos entrar. – Star disse, mas em vez disso sentou na chuva ao seu lado. Carla se jogou nos braços dela chorando compulsivamente.

--Porque dei meu coração a ela?! Tá doendo tanto Star! – Desabafou. Já não podia suportar sozinha.

--Eu sei! E sei que não vai conversar com ela, e sei que não vai passar tão cedo. Estou aqui, vou te ajudar... Desculpa se um dia brinquei que queria te ver sofrer por mulher. Não queria. Tá doendo te ver assim. Vai passar.

Ficaram sob a chuva forte por mais uma hora. Até que Carla mal tivesse forças para respirar. Até que já não chorasse. Mas a dor e a mágoa ainda não haviam passado. Na verdade, talvez ficariam para sempre nela.

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