Capítulo Quarenta e Nove: La roue tourne

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            (Leon)

            -Sua vaca! – ainda lembro do som gutural saindo da sua boca. Dos passos vacilantes até ela, das mãos se emaranhando nos cabelos loiros e os puxando com força até a tez dela embranquecer. Minhas mãos procuravam algo, tateavam o chão como se buscasse uma arma. Se eu tivesse uma arma, eu atiraria sem pensar. Mesmo na minha tenra idade, mesmo que eu ainda fosse tão menino. Eu sei que faria alguma maldade que eu pudesse atenuar aquela situação. Qualquer coisa para pará-lo. Mas, ele já havia me empurrado, derrubado, castigado, batido e cuspido. Nem por um mero segundo meus braços finos e fracos conseguiram moveram. Nem mesmo por um único momento, eu consegui atingi-lo.

            - Mãe. – foi tudo o que saiu dos meus lábios já inchados e machucados. Minha boca saboreava o gosto do sangue. Era puro ferro invadindo cada pedaço das minhas papilas gustativas. O corpo dela se arqueou com o golpe, sem largar os seus cabelos, arrastou-a já sem força pelos fios louros. Bateu a cabeça sobre o chão até um fio de sangue deslizar por sua pele, depois mais e mais sangue. Levantei num sobressalto, com uma força incrível. Pulei sobre os seus braços, mordisquei o seu antebraço, apertei o seu pescoço... Mas, era franco.

            Senti o golpe no meu estômago.

            - Um bando de ingratos. – meu pai murmurou.

            Encarei a face ensanguentada de minha mãe, a respiração entrecortada, diminuindo conforme o sangue ia saindo. O peso do meu próprio corpo batendo contra o chão. Uma pancada inesperada na cabeça. A última coisa que vi foram os olhos azuis vazios de mamãe. Ela já parecia sem vida. Talvez, eu também.

            Acordei suando frio. O corpo colado na cama, suando, pingo imensos deslizando pela minha pele e molhando o meu lençol. Eu estava sem camisa, só de cueca. Sentei na cama ainda atordoado com a lembrança. Fui direto para o banho, vesti-me e me recompus. Fazia anos que eu não sonhava com esse dia. O dia que meu pai quase nos matou de tanto nos espancar.

            Eu não duvidei nem por um único minuto que suas acusações fossem infundadas. Naquela mesma época, minha mãe já havia me levado para a casa do tio Jacques, como eu o chamava quando criança. Ela vivia dando um jeito de ir passear e me levar para todos os cantos. Uma desculpa para vê-lo. Eu era uma criança muito obediente. Nenhuma vez citei que o conhecesse.

            - Ne dites à personne. (Não conte a ninguém)  – ela me pedia. Eu concordava, assentia e sorria, como só uma criança obediente pode fazer. Não contava a ninguém. Eu a vi chorar ao lado do meu pai e sorrir ao lado do tio Jacques. Para mim, ele era uma boa pessoa. Sem ideia de que ele era a maior parte das brigas. Mas, era um ciclo. Meu pai a batia porque dizia que ela flertava com todos. Ela realmente flertava. Pelo menos com um. Mas, isso nunca lhe daria o direito de levantar a voz, muito menos a mão contra ela. Infelizmente, ele o fazia. Mesmo novo, eu sabia. Ele estava enlouquecendo.

            A água caiu feito pedra no meu corpo. Em vez de alívio me trouxe dor. Meu corpo estava moído. Parecia que eu tinha sido atropelado. Saí do banho, coloquei minhas calças e camisa social. Passei a gravata pela gola, dei nó nela e a deixei alinhada e perfeita. Pus o terno e saí de casa com um peso no coração. A verdade era que eu não queria fazer isso. Eu não queria deixar Jacqueline ir ver Jacques. Eu discordava desse trato. Mas, quem eu era de fato para desejar algo? Fagundes havia a negociado como um burro de carga. Uma semana. Foi tudo o que ele pediu para ajudar nas investigações, para mostrar cada erro cometido, acusar cada comparsa, encurralar o irmão, aprisionar velhotes ladrões. Jacques era melhor do que Louis. Isso era fato. Entretanto, era influenciado pelo irmão malandro, desde anos antes de conhecer minha mãe. O irmão era como um diabo prostrado em seu ombro, murmurando cada maldade que devia fazer. Nem era gêmeos. Mas, eram apegados como unha e carne. Companheiros. Jacques era caçula. Louis era o mais velho. Um admirava o outro. E o outro abusava de qualquer boa vontade demonstrada.

A Herdeira (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora