Capítulo Treze: A Entrevista - Parte I

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         - Boa noite meus queridos telespectadores, todo o meu Brasil! Como vão nessa noite? – Adam se apresentou com um tom brando e monótono.

A mulher que ajeitou meu cabelo colocou um espelho na minha frente. E por alguns segundos, não consegui perceber o que Adam estava falando. Eu estava linda. E isso era perfeito! Perfeito porque eu ia mostrar para ele quem manda. Ele, Adam. O idiota que me levou para um quarto aleatório! Por que não o meu quarto? Afinal, eu estava com a chave!

- Hoje eu tenho uma convidada especial, a mais badala e mais nova integrante de high society brasileira. – e a expressão high society me deu um grande embrulho no estômago, porque com as aulas de Leon, eu conseguia entender o que significava. – Carolina Amaral, futura Carolina Fagundes, a mais nova herdeira do país. Aplausos, por favor!

Todo mundo da plateia foi incentivado a me aplaudir. Uma mulher acenava ao lado. Eu não posso dizer que entrei feliz. Eu fui empurrada, já que não tomei nenhuma atitude. Alguém me empurrou e eu me vi tentando me equilibrar até chegar perto de Adam.

- Seja bem-vinda Carolina! É um imenso prazer tê-la aqui no nosso programa, não é mesmo? – e deu uma piscadinha para a câmera. Eu sabia que milhares de mulheres estariam se derretendo sobre os seus sofás.

- Sr. Adam, o prazer é todo meu. – falei de forma cordial.

- Sem cordialidades, minha querida. Posso chamá-la assim? – questionou, um lampejo irônico passou por seus olhos me dando vontade de socá-lo, mas resisti bravamente.

- Como quiser.

- Sente-se, por favor! – ele apontou para o sofá vermelho, que me pareceu tão assustador assim de perto, e eu sem dizer nada o obedeci. Ele se sentou ao lado na sua poltrona azul. Estávamos um de frente para o outro, só levemente inclinados para a plateia e havia uma mesinha com uma jarra de água. Parecia que ele estava me recebendo em sua casa. Talvez, fosse essa mesmo a ideia.

- Carolina, todos estão comentando sobre você! As mídias parecem fazer muito burburinho a cada passo seu. Como é essa sensação? Você já está adaptada? – isso fazia parte do que havíamos conversando. Ele parecia ignorar que meu último burburinho era com ele.

- Sinceramente, é difícil. Eu vivia numa parte mais humilde da cidade e estava longe de fazer sucesso no meu bairro, imagina estar estampada nos jornais. – eu queria parecer humilde, mesmo não sendo muito. Queria me agarrar a única chance das pessoas me conhecerem e pensarem que eu podia ser amada e respeitada!

- Imagino! Foi um choque saber que era neta do sr. Fagundes? Ele é um homem muito importante. – sr. Fagundes, normalmente ninguém fala assim...

- Muito chocante. – confessei.

- Pode nos contar um pouco como tudo aconteceu? Afinal, as fofocas voam até mais que as notícias.

- Não se vocês se lembram do incêndio que aconteceu no centro da cidade. Bem, foi há poucos meses. – na verdade, quase três, três meses que eu estava só nesse mundo. E isso me ardeu por dentro. Não foi exatamente dor, foi um ardimento no peito, um aperto, um incômodo. Minha mãe não devia estar orgulhosa de mim...

- Sim, foi terrível. – Adam comentou assim que percebeu meus segundos sem falar.

- E-eu perdi minha mãe nele. – falei murcha, parecia que alguém estava me esmagando. Minha voz quase falhou, mas no fim veio. Ah não, meus olhos começaram a mareja e isso em rede nacional. Era terrível!

Adam não falou nada e nem a plateia falou nada. Foi um silêncio desconfortante. Eu queria chorar. Eu havia esquecido, os dias eram doídos sem minha mãe, mas trabalhando e estudando eu esquecia de tudo. Esse silêncio só me fazia lembrar que estava sozinha nesse mundo, sem ter com quem contar. Que a única pessoa que realmente me apoiava era Patty, e eu nem conseguia mais vê-la com frequência.

- Sinto muito. – Adam disse com um sorriso sem mostrar os dentes, um sorriso de canto de boca, com certa compaixão.

Eu dei o melhor sorriso que consegui. – Obrigada, foi um golpe da vida. – respondi sem saber como as palavras vieram. – Depois disso, um assistente do meu avô, – e eu podia lembrar do rosto do Ângelo bravo, e ainda a expressão indignada de Menezes, isso me fez dar um sorriso mais animado. – ele me encontrou, não sei como e acabei entrando nesse mundo.

- Uma história de livro, eu diria. – Adam disse olhando para a câmera e para a plateia em vez de mim. – Vamos a um rápido comercial e voltamos já.

Olhei para o mesmo lado que ele olhava, havia uma luz vermelha acesa, ela desligou. Estávamos fora do ar. Finalmente, eu pude relaxar. Era terrível estar no ar e saber que muita gente estava me assistindo. Sem falar em Leon, ele havia me avisado, não havia? E... Era horrendo lembrar do nosso último encontro porque eu sentia um frisson por todo o meu corpo.

- Chegou aqui rápido? – Adam me tirou dos pensamentos.

Eu o encarei. – Você realmente tinha que me por num quarto que não era o meu e ainda tirar minha roupa? – cochichei para ele.

Adam riu, mas pôs a mão sobre a boca para disfarçar. – Era porque você vomitou em si mesma. – ainda bem que ele cochichou isso.

Aposto que fiz cara de nojo, porque ele soltou uma gargalhada sem se conter. Muita gente o olhou e ele só sorrio com cara deslavada e voltou os olhos verdes para mim. – E eu queria te pregar uma peça. – comentou.

Ai maldito, pensei com raiva. Como assim, meu? – Uma peça? Você é idiota! – falei de forma acusadora. Mais que uma forma, eu estava o acusando, eu estava tirando satisfação. Eu queria mata-lo.

- Aí Carolina, eu sabia que você seria uma pessoa engraçada. – ele comentou rindo, olhou para a plateia e sorriu, acenou, fez sua ceninha... Que raiva! Depois levantou, conversou com algumas pessoas na plateia, autografou algumas coisas e voltou. Vieram com pó no nosso rosto e um batom na minha boca.

- Vamos voltar ao ar, em um, dois, três... – e o som da claquete me levou para o inferno. Quando sorri e olhei para a câmera, não sabia que eu estava encrencada. Ignorante, sem saber que eu deveria ter ouvido Leon e nunca ter ido nessa entrevista. Ah, se eu soubesse...

A Herdeira (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora