Capítulo Cinquenta: Vera

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            - Seu avô te aguarda no escritório. — assim que eu saí da cozinha, as 19h no dia seguinte ao da matrícula, Menezes veio falar comigo. Estava nos seus habituais trajes pretos: terno, calça e gravata.

            - Comigo? Tem que ser agora? — depois daquele almoço de domingo infame eu estava tentando evitar todas as pessoas da família. Pelo visto, sem muito crédito. Até porque ontem mesmo eu havia esbarrado com Leon. E pelo visto, infelizmente, acabei dando um ponto final na nossa história. Era melhor assim. — Estou cansada. — e realmente eu estava cansada. Romulo havia feito eu trabalhar como uma condenada, porque me atrasei demais no dia anterior e hoje ele havia me feito fazer tantas coisas que eu preferi nem almoçar. No começo meu sequestro servia de desculpa, mas o coração dele é daqueles tipos que não amolece por muito tempo e, por causa disso, já estava na sua velha forma mandona e carrancuda.

            - Por favor. — ele pediu de maneira séria. Resolvi não teimar. Eu não queria ir, mas o segui até o elevador. — Como está o trabalho? — ele questionou quando entramos no elevador.

            - Chato. Romulo não sabe ter piedade.

            Menezes deu um sorriso torto, mas se manteve sério. — Eu imagino. — falou de maneira vaga, mas dava para ver que ele queria gargalhar na minha cara. Mas, vestido de Menezes, na frente de todos os hóspedes e funcionários do Hotel, ele era só o servo do Fagundes.

            - Por favor, nem imagine, não faria justiça a verdade. — comentei de forma irônica.

            Dessa vez, ele deu um sorriso de canto, que só tirou quando o elevador abriu novamente. Caminhamos lentamente até o escritório do vovô sem dizer nada. Nenhuma palavra. E fiquei me perguntando o que esse velho falaria agora.

            Ao abrirmos a porta, lá estava ele, sentado atrás da sua mesa, cheio de papéis sobre ela, com um cinzeiro cheio de cigarros. Pelo jeito Menezes não está tendo muito sucesso, pensei. E realmente pela cara que Menezes fez ao olhar para o cinzeiro, ele não estava com sucesso e muito menos feliz por não consegui-lo. Se não existisse bons modos, algo que me dizia que Menezes sairia berrando horrores sobre os atos de fumar do meu avô. Mas, ele não fez nada, só fechou o semblante com cara de poucos amigos.

            No canto, um pouco longe da mesa, havia uma senhorinha sentada numa das poltronas verdes musgos da sala. Ela parecia ter cerca de um metro e meio, era gorduchinha e usava um vestido preto, com luvinhas de cetim e um coque sem um fio solto no cabelo grisalho. Segurava no colo, uma bolsinha miúda preta com detalhes pratas, chegava até mesmo a balançar os pezinhos calçando sapatilhas pratas nos pés. Queria dizer que prata sem motivo me parecia muito brega, mas fiquei calada. Uma coisa eu havia aprendido nessa vida: ninguém aparece por acaso. NINGUÉM. Não existe uma única pessoa que não tenha algum papel.

            Ainda mais quando estão envolvidas com essa família maculada, cheia de segredos e pompa.

            - Olá. — meu avô disse com aquele seu tom seco. — Soube que deu tudo certo na sua matrícula.

            - Sim, obrigada. — falei com sinceridade. Era triste e duro dizer isso, mas cresci muito depois da morte da minha mãe. Cresci e sofri muito. Há um ano atrás eu nunca ia me imaginar querendo voltar a estudar...

            - Ótimo. Por favor, sente-se.                                       

            Dei uma olhada de rabo-de-olho para Menezes. Mas, ele estava com a cara séria sem graça, ainda bravo com os cigarros.

A Herdeira (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora