- Obrigada. – falei para a Patty antes de finalmente deitar na minha cama.
Foram as piores 48 horas da minha vida. Ontem, quando chegamos na galeria, estava uma bagunça. Os bombeiros tentavam apagar o fogo e os paramédicos faziam os primeiros-socorros no asfalto. Quando Patty parou o carro e eu saí correndo, não me deixaram chegar muito perto. Meus olhos procuraram o rosto da minha mãe entre tantos que estavam ali.
- Talvez, ela tenha ido para o Hospital. - Patty tentou me consolar.
Mas, a verdade era que ambas sabíamos que não tinha acontecido isso. A loja dela ficava no subsolo, e era a mais longe da escada de emergência que vivia muitas vezes com objetos obstruindo a passagem. Era algo tão difícil de ter acontecido, ela ter escapado. Eu não queria chorar, mas foi o que fiz. Chorei por muito tempo. Mesmo depois quando tudo tinha acabado e os bombeiros conseguiram apagar o fogo. Depois que passou toda aquela bagunça, e Patty e eu já tínhamos verificado todos os hospitais que tinham levado os sobreviventes, foi a vez de termos que reconhecer os corpos. Algo que eu precisei de muita coragem para fazer. O corpo estava praticamente irreconhecível, mas lá estavam o resto de seus documentos, a corrente de ouro no pescoço e as calças jeans que ela tanto amava usar.
Fiquei desolada. Tive um ataque de nervos no IML e me levaram para o Hospital. Tive que ser medicada. Patty tomou conta de tudo, ela que comprou o caixão, que avisou as pessoas do ocorrido, que correu atrás de tudo para que o corpo de minha mãe fosse velado e enterrado de forma digna. Ela me buscou no Hospital e me levou para o cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Foram poucas pessoas para o velório. Os pais de Patty e seu irmão de 16 anos, Jonathan, algumas amigas de mamãe, alguns vizinhos e conhecidos, mas nada demais. Eu permaneci sentada ao lado do caixão lacrado o tempo todo. Só me levantei para caminhar levando o caixão. O pai e o irmão de Patty e mais alguns vizinhos me ajudaram com o caixão. Fomos andando até a cova, onde ali mamãe descansaria para sempre.
Foi triste ver a terra caindo. Eu joguei algumas flores e outros fizeram o mesmo. Depois disso, algumas pessoas me abraçaram e Patty me trouxe para casa. Ela queria que comesse, mas eu estava sem fome. Eu só queria dormir. Patty estava sendo tão boa comigo, mas eu não sabia muito bem como agradecê-la. De onde eu tiraria as forças? Se me sentia como se alguém tivesse me arrancado os braços e as pernas. Como me manteria em pé? Se tudo em mim doía tanto?
Quando deitei na minha cama, eu só pensava em dormir. Porque meu peito estava dolorido e meus olhos ardiam de tanto chorar. As lágrimas escorriam e eu não conseguia respirar. Era penoso demais esse sofrimento. Dormi para esquecer. Dormi por 16 horas seguidas. Só acordei no outro dia, quando estava quase escurecendo o céu novamente. Eu me levantei, comi algo e fui para o quarto de mamãe. Tudo estava como ela havia deixado. O perfume dela estava ali. Passei a mão no edredom da cama, abracei as suas roupas que estavam sobre a cadeira. Deitei na cama e fiquei alisando o lençol. Olhei para o criado-mudo, existia uma bíblia e uma moringa. Sorri. Abri a bíblia e dela caiu uma foto. Era um homem.
Meu coração disparou. Não conhecia nenhum homem como aquele. Ele era branco, tinha cabelos loiros que quase eram brancos e imensos olhos azuis. Estava de terno e gravata, tudo tão alinhado e tinha até mesmo um ar arrogante. Deveria ter no máximo trinta anos. Eu virei a foto e estava escrito: "Para você nunca esquecer de mim." Era só isso. Sem assinatura, sem data, sem nada. Nem sabia que minha mãe tinha um namorado. Não fazia ideia.
Nesse momento fiquei pensando quantas coisas a mais que eu não sabia sobre a minha mãe. E como eu nunca saberia. Ela havia partido – para sempre.
Não sei explicar, mas quando percebi eu não tinha mais vontade de nada. Depois de dois dias da sua morte descobri que ela havia deixado uma mensagem dizendo que me amava na Caixa Postal do meu celular. Foram suas últimas palavras. Até no fim ela disse que me ama. Era o maior amor do mundo. Queria conservar as mensagens, mas a voz eletrônica dizia: em cinco dias as mensagens serão apagadas. E foram, e com elas eu temi que em breve eu esquecesse o timbre da sua voz.
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A Herdeira (Concluído)
ChickLitCarolina nunca pensou que a sua vida poderia mudar da água para o vinho - Literalmente. Ela só queria ir para a academia, fugir do trabalho, sambar e ser Madrinha de Bateria, apesar de saber que não tinha influência nenhuma para ser uma. Mas, depoi...
