- Não suporto mais! – exclamei com ódio e derrubei o balde sem querer ao tropeçar nele. Depois de uma semana de treinamento, Elza e Maria me largaram a Deus dará para cuidar de tudo. Eu não trabalhava só como camareira, não! Eu ainda tinha que lavar – eca! – os banheiros. E sabe o pior foi Fagundes, aquele velho decrépito que exigiu isso. Além de arrumar tudo, ainda tinha que lavar os banheiros. E eu achando que só ia dobrar a colcha na cama dos outros. E pior, existia uma técnica para isso – sério! – de como se dobrar um lençol, como dobrar a colcha, como alinhar os travesseiros, como dobrar as toalhas, tudo era minucioso e chato. Passava o dia todo indo levar toalhas para cima e para baixo, trocando lençóis de hóspedes chiquérrimos e ainda lavando os banheiros fétidos.
Olhei para o líquido de produtos químicos com um imenso cheiro de desinfetante invadindo o banheiro. Comecei a limpá-lo. Só mais treze dias, pensei. Só mais treze dias e minha situação piora ou melhora. Meus olhos depararam com um rolo de papel no cesto de lixo. Coloquei minhas luvas de borracha e olhei. Era o jornal do dia anterior. Mais uma matéria sobre mim. Agora era comum eu aparecer no noticiário nacional. A maior parte das opiniões era sobre eu ser uma mentirosa que estava enganando Fagundes. Tipo 95% - maldita festa! 4% tinham dó de mim, porque agora eu trabalhava como camareira. Sim, todos já sabiam disso. E 1% estavam nem aí para a minha existência – u-uhuu...
Essa matéria não era nada positiva. Eles adoravam colocar a minha foto com a champanhe nas mãos. Mais uma reportagem falando sobre a minha falta de senso. Fui parar até em revistas de moda. Na verdade, foi só uma só. E não foi nada legal. A matéria chamava: Aponte os 7 erros da roupa de festa. Para variar a minha foto segurando a champanhe. E lá criticavam meu péssimo gosto fashion dos meus sapatos até os meus brincos.
- Parando para ler no expediente, priminha. – a voz do ser mais odiado dessa terra me despertou. Olhei para a porta do banheiro. Ele estava lá com mais um terninho bem costurado e alinhado, esse era cinza com riscas bem fininhas brancas. Um pouco moderninho demais para alguém que escorria tradicionalismo. A sorte era que ele era bem gostosinho e bonito ou aquele terno nunca teria ficado bom.
Dei de ombros, joguei o jornal no lixo e peguei o saco, fechando e o enfiando no lixo do meu carrinho. Terminei de secar o chão, enquanto ele me observava. Leon me deixava desconfortável. Ele era filho do sobrinho do meu avó. Isso fazia dele meu primo em segundo-grau. Como o irmão do meu avó era morto e o pai dele ou era mãe, sei lá, bem... Sinceramente eu não sei o que houve. Não sabia se ele era órfão ou se eles estavam vivos – e se vivos, bem eles não iam muito para o Hotel porque nem ouvi falar eu ouvi. Enfim, de algum jeito, depois de mim (se o exame der positivo – Senhor do Céus, eu imploro que esse exame dê positivo – Amém!), ele e seus pais (se existissem) eram os mais prováveis a terem a herança.
Sendo diretor da companhia, ele era bem ocupado. Porém, aparentemente, ele adorava arranjar tempo para me vigiar como um cão sarnento e grudento. Só que óbvio que eu saquei qual era dele. Leon queria que eu caísse. Afundasse literalmente num mar de tristezas, incertezas e problemas. Em outras palavras, ele queria que eu me ferrasse. Se eu rezava e implorava para que o exame desse positivo, Leon queria proporcionalmente o inverso. Ele me odiava.
- Preciso passar. – foram as minhas únicas palavras. Ainda disse depois que terminei de limpar, enquanto ele me olhava. – Você está obstruindo a passagem. – disse sem paciência.
- Priminha, - e eu odiava ouvir essas palavras vindo da boca dele. – precisava ver como andava o seu trabalho para passar um relatório ao meu avó.
Além de tudo, quem pediu isso foi o Fagundes. Aquele velho gagá... Ops...
- Achei que ele era seu tio-avô na verdade. – provoquei.
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A Herdeira (Concluído)
ChickLitCarolina nunca pensou que a sua vida poderia mudar da água para o vinho - Literalmente. Ela só queria ir para a academia, fugir do trabalho, sambar e ser Madrinha de Bateria, apesar de saber que não tinha influência nenhuma para ser uma. Mas, depoi...
