27 Reliquia

224 18 1
                                        


Na mesma noite…
Louise digitou uma mensagem rápida.
Segundos depois, a porta lateral da catedral se abriu.
— Aqui está — disse ela, entregando um maço de dinheiro.
O padre pegou o dinheiro com certa hesitação.
Era jovem. Bonito até demais para a batina — pele clara, cabelo preto, olhos escuros e profundos. Os lábios, naturalmente vermelhos, contrastavam com a expressão tensa.
— E aqui está a chave. Não perca. Foi difícil trazer um chaveiro sem levantar suspeitas.
Louise pegou a chave, analisando-a por um segundo.
— Muito obrigada, padre… a sua bênção.
O sarcasmo era evidente.
— Que Deus a abençoe e te guarde, minha filha.
Ela soltou um meio sorriso e virou as costas.
O padre seguiu em direção ao Santíssimo.
Louise… ao porão.
O som do salto alto ecoava pela catedral quase vazia.
Ao passar pela nave central, fez o sinal da cruz — rápido, automático, quase mecânico — e continuou.
Quando chegou à porta, abriu sem hesitar.
Desceu as escadas com pressa.
Mas, ao alcançar o espaço lá embaixo…
Parou.
Silêncio.
Começou a filmar.
Devagar.
Meticulosa.
Cada canto.
Cada detalhe.
E então a frustração veio.
— Não é possível…
Nada.
Absolutamente nada de valor.
Subiu as escadas irritada, passos duros, sem qualquer reverência desta vez.
Foi direto até o Santíssimo.
O lugar estava vazio.
Exceto por ele.
O padre.
Ainda ajoelhado.
Orando.
Louise não pensou duas vezes.
Agarrou-o pelo colarinho e o puxou com força.
— Você acha que eu sou idiota?
Arrastou-o até a parede, pressionando o antebraço contra o pescoço dele.
— Não tem nada lá embaixo!
O padre se debateu, ofegante.
— Eu não sei de nada… eu juro! Eu só fiz a cópia da chave! O arcebispo nunca deixou ninguém descer lá!
Louise manteve a pressão por mais alguns segundos.
Observando.
Avaliando.
Então soltou.
Deu um passo para trás e ajeitou a batina dele, como se nada tivesse acontecido.
— Perdão, padre.
Seus olhos percorreram o rosto dele com calma.
— Você é bem bonito… tem o quê? Vinte e cinco?
— Vinte e quatro… — respondeu, ainda sem ar.
Ela sorriu de lado.
— Se desistir da batina… me liga.
Piscou.
E foi embora.
Deixando o padre encostado na parede, ainda tentando recuperar o fôlego.
Em casa, Louise se jogou na cama.
Pegou o celular.
E começou a assistir às gravações.
Uma vez.
Duas.
Três.
De novo.
Até que algo chamou sua atenção.
— Espera…
Deu zoom.
Mais zoom.
A imagem perdeu qualidade… mas o detalhe estava lá.
Algo no chão.
Quebrado.
Ela aproximou ainda mais.
E então viu.
Uma capinha de celular.
Personalizada.
Com um machado… e uma espada.
O sorriso surgiu lentamente.
— Te peguei.
Os dias passaram.
E a obsessão de Louise só aumentava.
Ela começou a observar.
Esperar.
Estudar.
Ficava de longe, assistindo à aula de restauração.
Mas não prestava atenção no conteúdo.
Observava Emma.
— Para limpar uma escultura de mármore… — dizia o professor — removam a sujeira solta com um pano limpo. Usem uma escova pequena para áreas de difícil acesso…
Louise bocejou, entediada.
— O Eugène é bonito… mas insuportável. Esse curso dá sono — murmurou para si mesma.
Seus olhos voltaram para Emma.
Sempre para Emma.
Emma já havia percebido.
A capinha do celular.
Sumida.
E sabia exatamente onde poderia estar.
Foi por isso que voltou ao porão.
Discreta.
Rápida.
Mas, no momento em que abriu a porta—
Foi empurrada.
Louise.
Silenciosa como uma sombra.
Tomou a chave de sua mão.
— Devolve — sussurrei, tentando não chamar atenção.
A porta ficou entreaberta.
Louise percebeu.
E sorriu.
— Sua ladra… você roubou a relíquia.
— Que relíquia? Você está louca, eu não roubei nada!
— Mentirosa.
Ela girou a chave entre os dedos.
— Mas já que você gosta tanto da sua capinha de celular…
Abriu a porta completamente.
— Entra lá e pega.
Antes que eu pudesse reagir, fui empurrada para dentro.
A porta se fechou.
O clique da chave ecoou alto demais.
— Se quiser sair — disse Louise do outro lado — me liga e me conta onde está a relíquia.
Os passos dela se afastaram.
E o silêncio voltou.
Fiquei parada por alguns segundos.
Pensando.
Eu podia bater na porta.
Gritar.
Alguém viria.
Mas então…
As perguntas.
— Como você entrou aqui?
— O que estava fazendo?
— Quem te deu a chave?
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
E me virei lentamente…
Para o fundo do porão.

LEIA TAMBÉM

LEIA TAMBÉM

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora