* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ...
Eu já falei que o livro tem muito sexo?
É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
O canal 4 queria aproveitar ao máximo o momento em que o assunto sobre a gárgula estava em alta e marcou a entrevista para o mais breve possível: ainda naquele dia. Geralmente, o meu marido me acompanhava nesses eventos, mas dessa vez ele estava de serviço e não pôde estar lá para me segurar a mão enquanto eu esperava.
A emissora explorava o tema de todas as formas possíveis. No jornal da manhã, uma repórter fez um passeio pelos pontos turísticos de Nancy e depois foi até o antigo castelo da família Leroy, que hoje funciona como um hotel. Antes que eu fosse chamada, passaram ainda uma entrevista gravada mais cedo com a senhora Alis.
Marie anunciou que, após o intervalo comercial, a entrevista começaria. É incrível como, mesmo após centenas de entrevistas, eu ainda ficava nervosa. Sempre tive medo de que me perguntassem algo que eu não soubesse responder, ou que eu dissesse alguma besteira sem querer e que isso fosse parar em todos os lugares. Bom, antigamente eu me preocupava com jornais e revistas, mas hoje em dia ninguém mais lê tanto impresso. O pior mesmo seria acabar virando meme ou virar assunto nos sites de fofoca e de conteúdo duvidoso.
Sentei-me no sofá cor-de-rosa do estúdio, respirei fundo e forcei um sorriso. Em pouco tempo, a própria apresentadora veio ao meu encontro, cumprimentou-me e disse que sua filha lia todos os meus livros, sendo talvez a minha fã número um. Enquanto falava, fez sinal para que uma jovem de aproximadamente dezesseis anos se aproximasse para tirarmos uma foto juntas.
Marie Marie era uma jornalista conhecida, porém voltada mais para o entretenimento do que para assuntos políticos ou sérios. Ela estava na fase de ser famosa o bastante para escolher o que queria fazer, e no momento ela desejava entrevistar personalidades que eram o assunto do momento na internet. E a história da gárgula estava bombando desde o roubo. Marie tinha por volta de quarenta e dois anos, era negra, com cabelos grisalhos cortados na altura dos ombros e olhos cor de mel, tão claros que por vezes pareciam amarelos. Vestia-se de sóbria, porém com muito bom gosto, sempre investindo em tons pastéis, o que era praticamente a sua marca registrada.
O estúdio onde ela gravava não ficava no mesmo prédio do restante do jornal, nem mesmo em Paris. Ao fundo, geralmente era exibida uma imagem ao vivo da Torre Eiffel, mas naquele dia a imagem era a fachada da Catedral de Notre Dame.
Uma assistente ruiva aproximou-se da bancada e colocou a caneca com o chá de camomila que eu havia pedido. Alguém avisou que entraríamos no ar em dez segundos. Ajustei a postura e respirei fundo mais uma vez.
Assim que o quadro começou, Marie fez a apresentação de praxe e iniciou:
— Foi vazada a notícia de que o seu próximo livro será sobre a Gárgula da família Leroy. E poucos sabem, mas você faz parte dessa família.
— Sim, meu marido é neto de Alis de Leroy, que já foi prefeita de Nancy e atualmente é a matriarca da família. — Respondi, me controlando para não revirar os olhos.
— Quando a escultura foi roubada, você acabou entrando para a lista de suspeitos, pois era uma das poucas pessoas que tinha acesso a ela. Por que tinha esse privilégio? — perguntou Marie.
— Como o meu livro tem como cenário a própria catedral, achei melhor fazer o que chamam de imersão. Ir até o local apenas como turista não era suficiente, então entrei no curso de restauração. Com o tempo, puxei assunto sobre o tema com o Arcebispo, o que possibilitou o meu acesso. Fiz vários desenhos da peça para tentar recriar algo para a capa e, por isso, tive acesso direto à escultura.
— No telão, veremos alguns dos desenhos de Emma Müller, que, diga-se de passagem, são excelentes. — A jornalista falou enquanto as imagens eram projetadas. — A gárgula ainda não está em exposição, a visitação só abrirá no domingo, mas olhando os seus desenhos não a achei tão assustadora quanto as gárgulas e quimeras habituais.
— Sim, é bem diferente. Isso porque a lenda conta que a peça representa um homem que foi transformado em pedra. Então, com exceção das asas, panturrilhas e pés, o restante do corpo é totalmente humano. — Expliquei.
— E que homem... Alguém me abana, que músculos! — Marie brincou, fingindo estar sentindo calor, e a jovem ruiva que havia trazido o chá começou a abaná-la com algumas das fichas do roteiro.
— Conversamos com a senhora Alis e ela disse que não há nenhuma explicação nos documentos da família sobre o porquê do guarda ter sido transformado em pedra. Você estudou a lenda a fundo para escrever o livro; encontrou alguma explicação? — Marie perguntou, fazendo sinal para que a assistente se retirasse.
— Realmente não encontrei uma explicação histórica. Porém, apesar do meu livro relatar parte do passado, a maior parte da trama se passa no presente. E como sabe, quando trabalhamos com lendas, acabamos tendo que criar alguns detalhes para dar continuidade à história. Como o livro não será baseado em fatos reais, isso me dá bastante liberdade criativa. — Falei, tomando um pequeno gole do chá adoçado com mel.
— Também estudamos um pouco para essa entrevista e é incrível a semelhança que você tem com a Duquesa Maya, assim como o seu marido é idêntico ao Duque. — Na tela ao fundo, apareceram os quadros antigos dos nobres, os mesmos que estavam no castelo. — E temos aqui fotos suas em uma festa no hotel, vestida com um traje idêntico ao da Duquesa. É impressionante, parecem ser a mesma pessoa.
Apenas sorri, sem graça, enquanto as imagens rodavam no telão.
— Sim, somos bastante parecidas.
— Mudando de assunto... Não acha muita coincidência o ladrão confessar o roubo da gárgula e, logo depois, aparecer amarrado justamente em frente à sua casa?
— Achei tudo muito estranho. Eu não estava em casa quando aconteceu, fiquei sabendo pelo meu esposo e fui até lá imediatamente. O rapaz parecia bastante perturbado, não falava coisa com coisa. — Respondi, bebendo mais um pouco do chá.
— Você acha que ele poderia estar drogado? Levando em conta que seria impossível uma escultura de mármore voar sozinha. — Marie indagou, observando cada um dos meus movimentos.
— Acredito que ele estava perturbado, mas só os médicos poderão dizer o real motivo. — Falei.
Antes que Marie pudesse fazer outra pergunta, a assistente ruiva entrou em cena novamente com uma nova informação.
— Olha só, a editora da Emma na linha!
— Bom dia, Marie! Bom dia, Emma! Trago em primeira mão uma notícia que agora é real: recebemos uma proposta oficial para transformar em série o livro Crônicas de Machado e Espada, que esteve por oitenta semanas na lista dos mais vendidos!
...
Louise...
— É incrível como ela sempre se dá bem! Sempre consegue sair por cima! Você está vendo isso? A Emma vai ter um dos livros transformado em série! — Falou ao telefone, visivelmente irritada.
— Claro que não estou vendo, Louise! Ainda estou na catedral. E se quiser um conselho: acho que deveria fazer terapia. Não é normal essa obsessão toda pela escritora. Você já conseguiu os cinquenta mil euros com a venda do diário, e ainda bem que me deu cinco mil como combinado, mas a verdade é que já passamos de todos os limites. Vou esperar a poeira baixar e vou largar a batina. Voltarei para Orleans, onde viverei da terra como meu pai e meu avô. Essa vida de padre não foi uma boa escolha. Se quiser, pode vir comigo.
— Padre Carlos, eu não pedi a sua opinião! Pode engolir ela junto com a casquinha de sorvete que vocês chamam de hóstia! — Falou, desligando a chamada abruptamente.
Em seguida, acendeu um cigarro e caminhou até a varanda do seu pequeno apartamento. Leia Também
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.