40- Kaleb

134 12 2
                                        



Ainda estávamos lá, como gárgulas, olhando Paris se estender sob nossos pés, procurando por qualquer sinal de Pierre. Depois de muita espera, vimos algo se aproximando velozmente no céu noturno. Apontei para o Arcebispo, que soltou um longo suspiro de alívio.

Instantes depois, Pierre pousou na torre, confuso, sem entender o que havia acontecido.

Assim que ele se firmou, eu corri e o abracei com força. Demorou cerca de cinco segundos para a gárgula corresponder ao gesto, mas quando o fez, foi como se o mundo parasse. Quando nos separamos, ele perguntou:

— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?

— Alguém roubou você, Pierre. Por ser a Gárgula da família Leroy. — Disse o Arcebispo com sua voz paciente e calma.

— E quem foi?

— Não sei. — Respondeu o sacerdote.

— Eu desconfio de quem seja...

— Levantar falso testemunho é um pecado muito grave, senhora Leroy. — O Arcebispo me interrompeu firmemente.

Nesse momento, meu celular vibrou. Era uma mensagem de Jean:

“Acabei de sair do hospital, levei um tiro de raspão, nada muito grave. Estou indo para casa.”

— Ai meu Deus! Tenho que ir! — Gritei, saindo correndo. Tropecei duas vezes nos degraus de tanto pressa, quase rolando escada abaixo, mas precisava chegar logo.

...

— Tivemos vários problemas enquanto você esteve fora. Um deles foi que a senhora Leroy quase foi presa por causa do roubo. Muitas pessoas já estão até fazendo abaixo-assinado, querendo que, se a polícia recuperar você, seja exposto ao público. Parece que ninguém está ligando muito para a lenda de que você seria amaldiçoado ou demoníaco. — O Arcebispo fez uma pausa e olhou sério para ele. — Mas mudando de assunto... pode me explicar aquele abraço que a senhora Leroy te deu?

— Amigo Arcebispo, eu pedi um beijo a ela e ela não me negou. Cheguei a dizer que não havia sentido nada, insinuando que, por ser pedra, não sentiria... mas senti. Senti cada milímetro.

— Os séculos estão te deixando louco, Pierre Durand! Não dê falsas esperanças a essa mulher. Isso é errado de tantas formas que eu nem sei por onde começar. Ela é casada! E você é uma estátua de mármore que ganha vida apenas na lua cheia. Nestes quarenta anos que te conheço, tentei de tudo para achar uma forma de te libertar, mas não existe. Você não pode dar a ela o que ela realmente precisa, nem ela nem qualquer mulher. Desculpa se pareço insensível, amigo, mas você sabe muito bem o destino das mulheres que se envolveram com você.

“Maya ficou louca. Sophie foi queimada viva. Lohan descobriu que ela modificou o feitiço para que você voltasse a ter vida — porque ela também era apaixonada por você — e mandou matá-la. E antes de morrer, na fogueira, ela lançou uma praga: quem te amar, sofrerá para sempre.”

— Não precisa contar a história toda, eu estava lá, amigo Arcebispo.

— Então não destrua a vida dessa mulher como destruiu as outras duas. — Disse o sacerdote, descendo as escadas e deixando Pierre sozinho com seus pensamentos.

...

Ligação...

— Louise, a escultura foi roubada.

— Kaleb, do que você está falando?

— Do Gárgula, é claro! E o pior é que eu já tinha comprador, aquela coisa vale uma fortuna!

— Désolé... eu não tenho nada a ver com isso. Sabe que dizem: ladrão que rouba ladrão...

— Louise, não brinque comigo!

— Kaleb, se quiser eu juro com a mão na Bíblia!

— Desde quando você é cristã?

— Detalhes...

— Deixaram um buraco enorme na porta de ferro do galpão.

— Acho melhor você ficar quieto. Tem polícia em todo canto procurando essa escultura e o caminhão branco. Já se livraram dele?

— Ainda não. O cara que ia mudar a pintura não chegou de Lyon ainda, disse que está doente.

— Kaleb, dá um jeito agora! Destrói, pinta, queima! Faz qualquer coisa com esse caminhão!

...

Kaleb ouvia gritos vindos do andar térreo do prédio de três andares.

— Morena, vou ver o que é essa bagunça lá embaixo. Deve ser só um rato ou coisa parecida, ouvi o Tony gritando.

— Vai lá, mata esse rato, Kaleb.

Ele desceu as escadas tateando no escuro, apertou o interruptor várias vezes, mas a luz não acendeu.

— Tony? Cadê você? Precisa fazer todo esse escândalo por causa de rato? — Chamava ele, mas só havia silêncio.

Andou mais alguns passos no grande escritório escuro até que bateu em algo e caiu. Pegou o celular, ligou a lanterna e...

Viu seu amigo morto no chão, com a cabeça esmagada contra a parede.

...

— Puta que pariu! O que aconteceu aqui?

— Desculpa, acabei quebrando a lâmpada. — Uma voz grave e rouca respondeu das sombras. — Seu amigo está assim porque eu bati a cabeça dele na parede até parar de se mexer. Ele não era uma boa pessoa, acho que nunca mais vai roubar nada.

Quando Kaleb apontou a luz para a voz, viu a enorme silhueta da Gárgula se aproximando.

Ele tentou recuar, mas as pernas não obedeciam. O medo o paralisou.

— Seu amigo morreu porque não me falou quem me tirou de Notre-Dame. Mas foi um erro de principiante tirar foto com o que roubou, né? Na imagem tem eu, o defunto e você... Acho que vou usar isso para limpar a imagem de uma amiga minha.

Kaleb tentou correr para pegar a arma que ficava no andar de cima, mas a criatura foi mais rápida. Agarrou-o pelo braço com força gelada e o arrastou até a janela que havia quebrado para entrar.

A sensação daquela mão de pedra causou um arrepio gelado que percorreu todo o seu corpo.

Estavam longe de tudo, nem gritar adiantava.

— Vamos passear. — Disse o monstro.

Ele bateu as asas imensas e deu um impulso. Kaleb tentou se soltar, mas era inútil, a força era descomunal.

Quando já estavam no ar, a Gárgula o segurou firme pela cintura com ambas as mãos e rosnou:

— Vou te deixar em um lugar onde você não vai sair. Se sair, farei o mesmo que fiz com ele. De lá vão te levar para a cadeia. E se fugir... você já sabe o que te espera.

...

Emma...

Eu sabia que não conseguiria chegar em casa antes de Jean, então decidi passar na pizzaria. Assim teria uma desculpa perfeita para não estar lá quando ele entrasse.

Fiquei mandando mensagens até que ele disse que já estava na rua. Foi então que respondi que havia saído para comprar pizza.

Na verdade, eu já estava mesmo na fila, com o pedido feito, esperando uma pizza grande e um refrigerante, quando meu celular vibrou de novo com uma mensagem dele:

“Você não vai acreditar... Tem um sujeito todo amarrado no poste bem em frente à nossa porta! Ele está gritando que foi ele quem roubou a Gárgula!”

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora