41-Que inferno

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Quase desisti da pizza, mas faltavam apenas três minutos para ficar pronta. Assim que a recebi, coloquei a caixa e o refrigerante nas sacolas, subi no meu patinete elétrico e acelerei na velocidade máxima.

Em pouco tempo cheguei em casa. A rua parecia um circo armado: havia policiais por todos os lados, equipes de três canais de televisão e uma multidão de curiosos empurrando uns aos outros para ver o que acontecia. No centro da confusão, o suposto ladrão gritava:

- Foi a Gárgula! A escultura que roubei! Ela mesma me trouxe até aqui! Disse que se eu fizesse algo para evitar ser preso, iria me matar como matou o meu amigo!

- Então foi você quem roubou a Gárgula da família Leroy? E afirma que ela própria te obrigou a vir aqui se entregar? - perguntou um repórter, aproximando o microfone.

- Não! Ele não me pediu, ele me trouxe! Voando! Com aquelas asas enormes!

- Isso é impossível! Estátuas não voam, muito menos as de cimento! - gritou outro jornalista.

- Seu idiota! Achas que eu iria roubar peso de cimento? Aquela coisa era de mármore puro! - berou o bandido, furioso.

- Puta que pariu... - sussurrei, vendo Jean vindo em minha direção.

- Amor, você acredita nesse cara? Diz que roubou a estátua de Notre-Dame e agora fica falando que a própria gárgula o trouxe aqui? Deve estar drogado!

- Que loucura! - Falei, abraçando-o forte para mudar de assunto logo. - E você? Como está? Onde foi o tiro?

...

Em um pub em Paris...

- Que inferno! Essa escritorazinha realmente tem o santo forte. Como ela conseguiu não ser presa com todos os nossos depoimentos incriminando ela? - Disse Louise, tomando um gole grande de cerveja.

- Eu não incriminei ninguém, apenas contei o que vi de verdade. E ela realmente entrava lá algumas vezes. - Respondeu o Padre Carlos.

- Ah, claro... Vossa Santidade. - Ironizou ela. - Acha que contar mentira é pecado, mas transar comigo no carro não é, não é mesmo?

O padre estava disfarçado, com um casaco grosso e capuz, tentando não ser reconhecido. Afinal, não ficaria bem um sacerdote ser visto bebendo cerveja em um bar.

- O que acho estranho é que o Arcebispo não parece nem um pouco preocupado com o sumiço. Se a coisa era tão importante assim, por que só ele e ela tinham acesso?

- Talvez seja um alívio para ele. Dizem que a estátua era amaldiçoada. Contam que, antes de ir para Notre-Dame, ficou em vários palácios e havia relatos de que ela se mexia sozinha, ou que aparecia em lugares diferentes de onde tinha sido colocada. - Explicou Louise, fazendo sinal para o garçom trazer mais bebida.

- Você realmente acredita que ela é mal assombrada? - Perguntou ele, assustado.

- Claro que não! Eu acredito que ela vale uma fortuna! E aposto que o Kaleb está louco atrás dela agora. - Ela parou de falar de repente, olhando para a TV do bar. - Espera um pouco...

- Por favor, pode aumentar o volume dessa televisão? - Pediu ao atendente.

Na tela, viam Kaleb todo amarrado a um poste, gritando aos quatro ventos que era culpado, que havia roubado a estátua, e que ela tinha ganhado vida, matado seu amigo e o obrigado a se entregar.

- Isso é inteligente da parte dele? - Sussurrou o padre, horrorizado.

- Só se ele ficar calado sobre a gente. Agora, com essa história de monstro, ninguém vai levar ele a sério. Mas olha só a cara dele... coitado, parece que realmente está morrendo de medo.

...

No dia seguinte...

- Você não vai trabalhar hoje, nem pensar! Tem atestado de cinco dias e vai ficar em casa repousando. Não vai colocar sua recuperação em risco por causa de história de assombração. O Capitão já disse que se tiver novidades ele te liga. Então relaxa! - Falei, servindo um café quentinho e colocando os macarons na mesa.

O celular de Jean tocou e, ao ver o número, ele me mostrou: era o Capitão Lohan.

- Alô, Capitão.

- Estou ligando justamente para te avisar: mandamos uma equipe até o endereço que o suspeito passou, o tal galpão, e realmente encontramos um corpo lá. E a ficha deles? Ambos são bandidos de carteirinha, especializados em roubo de relíquias. Achamos também anotações de possíveis compradores e até outras peças roubadas escondidas por lá.

- E o senhor acha que ele mesmo matou o parceiro, Capitão?

- Achamos vestígios de sangue na roupa dele, então a probabilidade é enorme. O problema é que agora ele está falando cada coisa... Acho que a chance grande dele ser levado para um hospício é enorme. Já tem dois psiquiatras lá com ele agora.

- Muita gente finge de louco para não ir para a cadeia, senhor.

- É verdade... Mas tem uma coisa que está me incomodando, Leroy. Por que logo em frente à porta da sua casa? Por que ele pediu para ser levado justamente ali?

- É a mesma pergunta que eu venho me fazendo desde ontem, Capitão.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora