43 Remédio

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Quando entrei no prédio onde morava, tentei acalmar meus batimentos cardíacos parando um instante antes de abrir a porta

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Quando entrei no prédio onde morava, tentei acalmar meus batimentos cardíacos parando um instante antes de abrir a porta. Ainda no hall de entrada, chamei o elevador e fiquei esperando, impaciente. Quando as portas finalmente se abriram, entrei e respirei fundo: contei até sete, segurei o ar por mais sete segundos e soltei devagar, contando até sete novamente. Repeti o processo três vezes, mas não adiantou nada, continuava nervosa. Estranhei a demora do elevador e olhei para o painel... é claro, eu nem tinha apertado o botão do meu andar.

— Ainda vou acabar ficando doida. — Falei, finalmente apertando o botão.

Abri a porta de casa forçando um sorriso no rosto.

— Oi amor, já comeu alguma coisa? — Perguntei ao meu marido, que estava assistindo ao noticiário.

— Comi uma lasanha de micro-ondas, até que estava boa. — Respondeu ele.

Sentei ao seu lado no sofá e senti sua mão começar a passear pelo meu joelho, subindo lentamente até quase chegar na minha virilha. Levantei-me de uma vez, assustada.

— Vou tomar um remédio para dor de cabeça... esse material do curso tem um cheiro muito forte.

Percebi Jean me olhando sério por alguns segundos, mas depois ele voltou a prestar atenção na televisão.

Tomei o remédio e fui tomar um banho rápido. Quando saí do chuveiro, ele já estava deitado na cama com o notebook apoiado na barriga, vasculhando notícias na internet.

— Emma... eu fiz alguma coisa para você ficar tão indiferente comigo desse jeito?

— Claro que não, Jean! É só o cansaço, os produtos químicos do curso...

— Então saia do curso! Não tem motivo para continuar nele. Você já tem mais da metade do livro escrito, já fotografou e desenhou cada centímetro daquela catedral. Não precisa mais ficar lá... a não ser que tenha outro motivo para continuar indo. — Ele falou sem tirar os olhos da tela.

— Que outro motivo eu teria? Eu nem sou católica!

— Talvez o professor. — Jean virou o notebook para mim, mostrando uma foto de Eugène. — Eugène Doc. Ele é bem famoso no que faz, sem falar que é bonito... E aqui tem uma lista grande de pessoas famosas com quem ele já se relacionou.

— Jean, eu não admito que desconfie de mim! Nunca te dei motivo! E fora que o Eugène está saindo com a Karen!

— Desculpa... é que você mudou muito. Essas dores de cabeça do nada, você não me procura mais, e quando estamos juntos parece que está com pressa ou com a cabeça longe. — Ele fechou o computador, se levantou e me abraçou forte.

Ainda aninhada em seu peito, fechei os olhos e falei:

— Desculpa, amor. Acho que pode ser só sinusite ou enxaqueca mesmo. Amanhã passo no médico, prometo.

Meu marido apagou as luzes e foi dormir, e eu deitei ao seu lado fingindo dormir também. Mas minha cabeça estava um turbilhão, milhões de pensamentos rodando sem parar e não me deixavam pregar o olho.

Quando tive certeza que ele já dormia, afastei devagar a perna dele que estava sobre mim e fui até a cozinha fazer um chá de melissa, na esperança de me acalmar.

— O que está acontecendo comigo? Por que a ideia de não ir mais à catedral me dói tanto? Por que não poder entrar no porão enquanto não descobrir meus sentimentos está me matando assim?

Peguei meu chá e fui para o escritório. Abri o notebook e li a última cena que tinha escrito:

“O Gárgula a beijou e ela o correspondeu. O beijo de Pierre Durand parecia familiar, era como se ela tivesse passado a vida inteira esperando por ele.”

Seria loucura. Eu não posso estar gostando de um gárgula. Mas, pensando bem, já é loucura suficiente saber que magia existe, que alguém pode ser transformado em pedra e que uma escultura volta à vida todas as noites de lua cheia. Se isso é real, o que mais existe que achamos que é lenda? Vampiros? Lobisomens?

— O que há de errado comigo? — sussurrei. — Jean sempre foi o herói dos meus livros, ele é meu porto seguro, minha paz.

— Talvez você esteja cansada de ter paz. — Disse a voz da minha consciência.

— Cale a boca!

Fui até a varanda e fiquei olhando para a lua brilhando no céu. Suspirei fundo.

— Talvez seja mais sensato terminar logo esse livro e voltar a ter uma vida normal.

— Como vai ter uma vida normal agora que já sabe a verdade?

— Já mandei ficar quieta! — Falei brava com meus próprios pensamentos.

Os dias foram se passando e eu não conseguia escrever nem uma linha sequer. Ia ao curso, passava várias vezes em frente à porta do porão, mas não entrava. Aquilo era um tormento, como um vício que eu não podia saciar. Cheguei a passar dois dias inteiros sem dormir, com a cabeça girando sem parar.

A lua cheia finalmente passou e eu fiquei um pouco mais calma, mas sabia que outras viriam. E eu precisava, urgentemente, arrumar um motivo — ou um pretexto — para poder voltar lá.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora