19 Solidão

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— Você ainda está aqui? Achei que já tivesse saído depois que vi o porão vazio. — disse o arcebispo, ofegante após subir tantos degraus. — Temos muito a conversar: a menina negra continua procurando o sótão. Ela já sabe onde fica… mas não sabe como abrir.
— E vossa reverendíssima já sabe o que a jovem procura? — respondeu uma voz vinda da escuridão do telhado da catedral.
O arcebispo não se virou imediatamente.
— Não faço ideia. No começo, pensei que fosse alguma relíquia… mas já não tenho tanta certeza. Já a vi com uma planta antiga da catedral no telefone. — fez uma pausa breve. — E não é só isso. A polícia está te procurando. Querem saber quem é o tal “justiceiro de Paris”. Se eu fosse você… seria mais discreto.
Houve um silêncio curto. Denso.
— Mais discreto? — a voz voltou, carregada de algo contido. — Por séculos, sou praticamente invisível. Só tenho… algum tipo de existência durante a lua cheia. Vi todos que conheci morrerem, um por um… enquanto Paris crescia diante dos meus olhos e eu me escondia nas sombras. — uma pausa. — E o senhor me pede para parar?
O arcebispo suspirou.
— Pierre, meu amigo… o mármore não é tão resistente quanto parece. Se você for danificado de uma forma que não possamos restaurar…
— Talvez seja isso que me falta. — interrompeu ele, mais baixo agora. — Desde que Maya morreu… venho tentando encontrar um sentido. Mas… até ajudar as pessoas perdeu o gosto.
— Eu sei por quê. — disse o arcebispo, com suavidade. — É o aniversário da morte dela.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado que o anterior.
— Sabe o que é pior? — a voz de Pierre voltou, distante. — Eu estou me esquecendo dela. Aos poucos. Já não lembro exatamente o tom de verde dos olhos… nem o cheiro… nem o gosto do beijo. — respirou fundo. — E isso me incomoda mais do que deveria.
O arcebispo fechou os olhos por um instante.
— Há outra coisa. Uma jovem esteve perto do porão hoje. Ruiva, olhos claros.
Um leve som ecoou na escuridão — talvez um movimento.
— Não conheço muitas pessoas. — respondeu Pierre.
Um segundo depois, o som de algo cortando o ar.
O arcebispo ergueu o olhar, mas já era tarde.
Ele havia partido.
...
No alto, acima dos telhados e torres, uma silhueta se movia com precisão silenciosa, misturando-se às sombras e à noite.
Paris se estendia abaixo — viva, iluminada, alheia.
— Justo hoje… — murmurou a voz no vento — que eu precisava ocupar a mente.
Por alguns instantes, nada.
Nenhum som.
Nenhum movimento suspeito.
A cidade… tranquila demais.
Então—
Um cruzamento.
Uma jovem em um patinete.
Um carro vindo rápido demais pela outra rua.
Um cálculo instantâneo.
— Droga.
O movimento foi rápido. Rápido o suficiente para não deixar forma, nem tempo, nem explicação.
Um deslocamento brusco.
Um corpo retirado da trajetória.
E, logo depois—
Nada.
O carro passou.
O impacto nunca aconteceu.
A silhueta já não estava mais ali.
...
Minutos depois, no alto da catedral, entre pedras antigas e figuras silenciosas, ele retornou.
— Meu amigo tinha razão… — murmurou. — Foi uma rua clara demais.
A cidade já voltava ao seu ritmo habitual.
Mas algo havia mudado.
Ou talvez… alguém tivesse notado.
Ele permaneceu imóvel por alguns instantes, observando as luzes ao longe.
— Tudo isso… — disse, quase para si mesmo. — Essas coisas que não entendo. Celulares. Câmeras. Telas por todos os lados…
O vento passou, arrastando suas palavras.
— Por quê? — continuou, mais baixo. — Por que fui deixado aqui?
Nenhuma resposta.
Apenas o silêncio.
— O que antes parecia uma dádiva… — sussurrou — agora pesa como uma condenação.
Seus olhos se voltaram para a cidade mais uma vez.
— Ou me dê um motivo… — disse, por fim — ou leve isso de mim.
A lua cheia iluminava tudo.
E, ainda assim…
Não revelava nada.

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