* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ...
Eu já falei que o livro tem muito sexo?
É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
Já era domingo. Na segunda-feira, Jean voltaria a trabalhar… e eu não tinha feito nada com ele. Nada de verdade. Nada de nós dois. Foi então que tive uma ideia. Peguei o carro, fui até o supermercado e, quando voltei, Jean ainda estava assistindo ao noticiário. — Am… — tentei puxar assunto. Ele levantou o dedo indicador, pedindo um minuto, sem sequer olhar para mim. Fiquei em pé, no meio da sala, esperando a notícia acabar. — Parece que Paris tem um justiceiro — disse ele, inclinado para a televisão, completamente atento. — Ah… que legal — respondi, sem pensar. Jean virou o rosto lentamente e me lançou um olhar de reprovação. Suspirei. — Desculpa… o que está acontecendo? — perguntei, sentando-me ao lado dele. — Tem um sujeito matando alguns bandidos. O repórter chama de justiceiro… mas, para a polícia, ele é só mais um criminoso que precisa ser preso. Fiquei assistindo ao noticiário com ele até entrar o intervalo. Levantei-me, fui até a cozinha, peguei uma cerveja, abri e levei até Jean. Ele sorriu antes de pegar a garrafa da minha mão — aquele sorriso pequeno, mas sincero, que sempre me desmontava. Ele bebeu um gole, distraído com a propaganda na televisão. Respirei fundo. — Amor… vamos à ponte dos cadeados? — Mais uma pesquisa? — perguntou, sem desviar os olhos da TV, levando a garrafa à boca novamente. — Não… — respondi, me aproximando mais — é só para colocarmos um cadeado. Para garantir que o nosso amor seja eterno. Mostrei o cadeado, onde eu havia escrito nossas iniciais com caneta permanente. Ele me olhou. Dessa vez… de verdade. — Você tem dúvidas de que o nosso amor é eterno? Ele se levantou, veio até mim e depositou um beijo suave na minha testa. Fechei os olhos por um segundo, sentindo aquele gesto simples… e tão cheio de significado. — Nããão… — respondi, sorrindo — mas é tão romântico… — Mas agora eu bebi — disse ele, erguendo a pequena garrafa como prova. — Eu dirijo — falei, envolvendo-o em um abraço. Ele riu, encostando a testa na minha. — Você dirigindo em Paris? Que perigo. E ele não estava errado. Eu morria de medo de dirigir. ... Rodamos por várias pontes de Paris, mas parecia que os cadeados estavam comprometendo a estrutura. Muitas já não permitiam mais que novos fossem colocados. Mesmo assim, aproveitei o caminho. Passei pela Torre Eiffel… iluminada, imponente… quase mágica. Depois pelo Arco do Triunfo. E, por fim, seguimos em direção à Catedral de Notre-Dame. — Vamos parar? Eu gosto daqueles gárgulas — disse Jean, me surpreendendo. — Essa eu não sabia… — respondi, rindo enquanto procurava uma vaga. Depois de várias voltas, finalmente consegui estacionar. Quando vi a fila gigantesca na entrada, não consegui conter o riso. — Você tem certeza de que quer entrar nessa fila enorme só para visitar uma igreja? — Não fala assim da Notre-Dame… — ele respondeu, meio sério, meio divertido. — Mas tudo bem… podemos voltar outro dia. Foi então que vi. — Olha lá! Apontei para uma grade ao lado da catedral — cheia de cadeados. Descemos do carro quase ao mesmo tempo e fomos até lá. Coloquei o cadeado com cuidado, sentindo um pequeno arrepio ao fechá-lo. Jean estava ao meu lado. Gravamos um vídeo, rindo, meio sem jeito… como dois adolescentes. Mas, quando terminamos, percebi que não éramos os únicos. Algumas pessoas estavam filmando. Outras começaram a se aproximar. Pedidos de fotos. Autógrafos. Comentários sobre Crônicas de Machado e Espada. Senti aquele peso conhecido — o da exposição. Olhei ao redor, procurando Jean. Ele estava mais afastado. Parado. Olhando para o alto. Para os gárgulas. Assim que consegui me desvencilhar, fui até ele. — Desde quando você gosta de gárgulas? — perguntei. Ele não tirou os olhos das esculturas. — Não sei… quando eu era pequeno, eu tinha medo. Inclinei a cabeça, curiosa. — Minha mãe dizia que nossos antepassados eram nobres… duques, condes… algo assim. E que um homem muito mal foi transformado em gárgula por um deles… e que a estátua foi trazida para cá. Senti um arrepio leve. — Sério que você tinha medo disso? Olhei para uma das figuras — dentes afiados, expressão grotesca… quase viva. — Dizem que as gárgulas foram colocadas nas catedrais para lembrar que o mal nunca dorme — ele continuou. — Que é preciso vigilância… até nos lugares sagrados. Fiquei em silêncio por um momento, observando a catedral. Imponente. Bela. E… estranhamente inquietante. Respirei fundo. — Estou pensando em escrever um romance com a ponte dos cadeados como plano de fundo. Jean finalmente me olhou. — Você conhece a história original? Assenti. E comecei a contar: — Dizem que essa tradição começou há mais de cem anos… com uma história sérvia, na Primeira Guerra Mundial… Enquanto eu falava sobre Nada e Relja… sobre amor, traição e perda… percebi algo. O romantismo daquela história… E a sombra das gárgulas atrás de nós. Amor e tragédia. Sempre caminhando juntos. ... Mais tarde, já em casa… Jean dormia profundamente. Eu, não. Sentei-me na varanda, com o notebook aberto diante de mim. Coloquei uma pequena mesa improvisada e fiquei ali, encarando a tela em branco. Nada vinha. Levantei-me, fui até a cafeteira e preparei uma caneca grande de café. Coloquei quatro… cinco pastilhas de adoçante. Voltei. Sentei. Tentei escrever. Nada. Fechei os olhos e tentei lembrar dos casais que vi mais cedo. Os sorrisos. Os gestos. Os cadeados. Mas, toda vez que eu tentava escrever… Eram os gárgulas que surgiam na minha mente. As sombras. Os rostos distorcidos. Os olhos vazios. — Vamos… me ajuda… — murmurei para a caneca de café, como se ela pudesse me responder. A lua nova parecia zombar de mim, escondida no céu escuro. Frustrada, bati a testa de leve no teclado algumas vezes. — Ok… você venceu. Peguei o celular. Comecei a pesquisar. — “Gárgula vem do francês gargouille, que significa garganta…” — li em voz alta, andando pela sala ainda vazia. — “Eram estruturas usadas para escoar água da chuva…” Parei. Suspirei. — Nossa… a realidade é muito mais sem graça… Sorri de canto. — Aposto que Jean não teria medo nenhum… se a mãe dele tivesse contado essa versão. Mas, mesmo assim… Alguma coisa naquelas criaturas… Ainda me chamava.