Quando chegou o horário, peguei o diário de Maya, subi no meu patinete elétrico e fui o mais rápido possível, quase atropelando uma senhora que carregava muitas sacolas de compras.
Na aula, Eugène falava animado sobre algum assunto que eu não fazia a menor ideia do que era. Com certeza teria que ler a apostila inteira em casa depois, pois não havia prestado atenção em nada.
Eu só conseguia contar os segundos para a aula acabar e poder ir até a torre. Como já era final de outono, o sol se punha mais cedo, então quando saísse de lá, Pierre já deveria estar acordado e nos esperando.
Durante a aula, vi Louise passar pela porta da sala duas vezes. Aquilo estava me incomodando profundamente.
— Guardem as apostilas! — ordenou Eugène. — Agora quero ver vocês limpando essas imagens. Isso vai valer nota na avaliação, e quem não tirar uma nota razoável ano que vem não continua no curso.
Ele me tirou do transe quando colocou uma imagem de São Dionísio bem na minha frente. Pensei comigo mesma: Se eu não continuar aqui, não terei mais desculpa para vir à catedral, nem autorização para entrar nos lugares proibidos. Então respirei fundo e dei o meu melhor, limpando cada detalhe da peça com carinho.
— Muito provavelmente em janeiro o livro já estará pronto — disse a minha consciência enquanto eu trabalhava —, e não haverá motivo para vir aqui, a não ser como turista. A não ser que exista outro interesse... bem mais profundo.
— Cale a boca! — sussurrei baixinho para mim mesma.
Quando terminei, entreguei a imagem restaurada ao professor, que sorriu satisfeito. Parecia ter gostado muito do resultado.
Assim que a aula acabou e todos começaram a sair, peguei minha mochila e fui direto para a torre. Mas antes de subir, o Arcebispo apareceu e sussurrou:
— Ele ainda está no porão. Com os passeios turistas acontecendo, é mais seguro ele ficar lá por enquanto.
Olhei ao redor e vi Louise lá embaixo, guiando um grupo de quinze pessoas pela nave.
O Arcebispo revirou os olhos, me entregou a chave e eu segui em silêncio até o porão.
Abri a porta, acendi a luz e desci as escadas. Lá estava ele, parado olhando pela pequena janela. Quando me viu, não demonstrou surpresa nenhuma, apenas ficou me observando enquanto eu descia.
Fiz cara de brava, deixando claro que não estava feliz com o que ele tinha feito.
— Você não tem noção do que é certo e errado? Tenho certeza que esse coração de pedra ficou frio mesmo! Não pode sair por aí matando pessoas e achar que está tudo bem! — Falei, nervosa, olhando firme para ele.
Mas antes que eu pudesse terminar, Pierre estendeu a mão, me puxou pela cintura com força e colou seus lábios gelados nos meus.
E o pior de tudo? Eu retribuí.
Racionalmente, parecia absurdo, como beijar uma parede ou uma pia de banheiro. Mas o meu coração não entendia de razão. Ele disparou forte, e uma sensação de calor e excitação tomou conta de mim, mesmo com a pele dele sendo gelada como mármore.
Só nos separamos quando, sem querer, ele bateu a asa enorme na lâmpada, que se espatifou no chão com um barulho enorme.
— Por que me beija se diz que não sente nada? — perguntei, ainda ofegante e muito perto dele.
— Eu não sinto... mas você sente.
— Como sabe que sinto alguma coisa?
— Você retribuiu. Se não gostasse, não teria retribuído. E por que me abraçou tão forte quando eu voltei? O que está passando pela sua cabeça, Emma? Sabe muito bem que eu não poderei te dar o que qualquer homem pode dar. Por que continua arranjando desculpas para vir aqui? Você é escritora, já não tem informações suficientes para o seu livro? — Ele falou se afastando devagar, com cuidado para não me ferir com as asas ou garras.
— Tenho informações suficientes, sim! Só não tenho o final ainda! — Respondi, com a voz embargada. — Você quer que eu pare de vir aqui?
— Quero que só volte quando souber exatamente o porquê de estar vindo.
Aquilo doeu como uma facada.
— Tudo bem. — Falei, segurando as lágrimas para não chorar na frente dele. Já ia virar as costas e subir as escadas quando lembrei do objeto na minha mão. — Uma vez você pediu para ler isso. Toma, vai ajudar a passar o tempo.
— Tempo é uma coisa que eu tenho de sobra. — Ele pegou o diário com cuidado. — Obrigado.
Subi as escadas correndo, atravessei o corredor o mais rápido que pude e cheguei à nave principal. Respirei fundo para me recompor. Por sorte, Louise já tinha levado o grupo embora, então não precisei dar explicações.
Procurei o Arcebispo para devolver a chave e encontrei o Padre Carlos. Ele me disse que o Arcebispo estava na capela do Santíssimo. Fui até lá, fiz o sinal da cruz, me ajoelhei ao lado dele e sussurrei bem baixinho:
— Deixarei a chave aqui do seu lado. Tenho que ir para casa.
Fingi terminar a oração, fiz o sinal da cruz novamente e saí dali o quanto antes.
...
Horas depois, na torre...
— O que você fez com a senhora Leroy? Ela me pareceu muito triste quando me entregou a chave. — Perguntou o Arcebispo, olhando as luzes de Paris se acendendo lá embaixo.
— Apenas falei a verdade, amigo. Disse a ela o que você mesmo sempre me fala: que nunca poderei te dar o que qualquer outro homem pode dar.
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Gárgula ( +18)
Fantasy* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
