E essa foi a deixa para que eu fosse embora e Pierre voltasse ao seu modo estátua, mas agora sabíamos que poderíamos nos ver todas as noites, independente da lua.
— “Naquela noite, o destino deixou de ser uma prisão… e se tornou escolha.”
O estúdio mergulhou no silêncio.
— “Pierre já não era mais apenas pedra, nem apenas carne. Ele era a fronteira entre dois mundos… e, pela primeira vez em séculos, podia atravessá-la quando quisesse.”
Os olhos de Charlotte percorreram a página, mas havia algo além da leitura.
Memória.
— “O feitiço não o libertou daquilo que ele era… apenas lhe deu poder sobre sua própria existência. E talvez… esse sempre tenha sido o verdadeiro significado da liberdade.”
A plateia estava imóvel.
— “Porque não é a forma que define o monstro… mas a escolha que ele faz quando finalmente pode deixar de ser um.”
Charlotte fechou o livro lentamente.
O som seco da capa ecoou no estúdio.
Por um segundo…
Nada.
Então—
Aplausos.
Fortes.
De pé.
Longos.
Não apenas pelo livro.
Mas pela história.
Pela coragem.
Pela dúvida que ainda permanecia no ar.
Charlotte sorriu.
Dessa vez, sem esforço.
Elise voltou ao centro do palco, ainda batendo palmas.
— Simplesmente incrível! — disse ela, olhando para o público. — Uma história que prende, emociona… e nos faz questionar tudo.
Ela se virou novamente para a câmera.
— E semana que vem, estaremos de volta com mais uma leitura… mais uma história… e, quem sabe, mais um mistério para vocês.
Um sorriso final.
— Eu sou Elise Carton, e esse foi o programa mais nerd da televisão francesa. Boa noite!
As luzes começaram a suavizar.
Os aplausos continuaram.
E, em algum lugar entre a ficção e a verdade…
A história permanecia viva.
...
Depois do ponto final escrito em meu livro, fiquei na frente do computador por algum tempo sem pensar em nada e era estranho; não sentia nem felicidade, nem satisfação, nem dever cumprido como em todos os outros livros. Mesmo assim, três dias depois, enviei o arquivo para Karen, que ficou de fazer as correções pessoalmente.
Respondi apenas um “ok”, sem puxar assunto. Eu sabia que a melhor coisa no momento era trocar de editora, alegando que fui vítima e não cúmplice, mas é muito cômodo abandonar o navio enquanto ele está afundando. Resolvi fazer como a orquestra do Titanic e continuar tocando, porém não sei por quanto tempo.
Após dois dias, Karen me mandou um e-mail marcando para conversarmos sobre o livro em um café bem perto da catedral, num horário bem depois do curso...
Eugène veio até a mim quando eu estava arrumando minhas coisas para ir ao café e falou:
— Muito obrigado por não ter abandonado a Karen. Sei que para uma escritora famosa como você seria muito mais fácil ir para outra editora, mas você não fez isso.
— Eugène, não se iluda, não foi por amizade. A editora havia encomendado o livro e me pagou 10% do valor do último livro para escrever esse. Karen é a dona da editora, mas você bem sabe que foi a gerência quem fez a proposta irrecusável para que eu voltasse a escrever. — Falei, colocando a mochila nas costas e andando vagarosamente até a porta principal da nave.
Quando notei que Eugène continuava andando ao meu lado, tive a certeza de que meu professor também estaria conosco. Haveria algum motivo para Karen não querer ficar sozinha comigo?
No café, sob a sombra imponente da catedral, nós três nos reunimos. Karen exibia um olhar sério, ainda processando a trama que estava impressa em suas mãos. Eugène mantinha seu sorriso enigmático, como se soubesse mais do que as palavras podiam expressar. Eu, tentando não parecer nervosa, tomei um gole de café, saboreando o amargor que estava tão presente em minha vida quanto nas histórias que escrevi.
Karen finalmente rompeu o silêncio:
— Esta história é diferente, profunda, perturbadora. Você alcançou um novo patamar, Emma, está fantástico. Porém há algo que precisa ser discutido. Eu estou muito agradecida, você superou desafios e resistiu à tentação de abandonar o navio. Só acho que esse não é o momento certo para lançar o livro. Você sabe, a imprensa ainda não se cansou de falar de plágio; se lançarmos agora, pode ser que ele seja abafado por tudo isso que está acontecendo.
— Perdão, Karen, mas discordo. Acho que poderíamos aproveitar que meu nome está em alta; as pessoas comprarão o livro mesmo que seja para falar mal. A empresa de streaming que irá fazer Crônicas de Machado e Espada não está esperando a poeira baixar para dar início às gravações e já pediram para que eu comece semana que vem a mexer no romance que adaptarei como filme de natal. Eles estão apostando em aproveitar e surfar nessa onda caótica. Coloque os advogados de prontidão! Todos sabiam que eu estava escrevendo o livro Gárgula — você anunciou para todos em rede nacional no dia que disse que Crônicas iria virar série. Se alguém aparecer falando que estou plagiando, mande a pessoa provar; porque se não provar, irei processar o sujeito, sem dó nem piedade. — Falei, indo pela primeira vez contra a vontade de Karen.
— Charlotte querida, se a empresa de streaming fizer uma aposta errada, apenas eles vão se dar mal. Agora, se esse livro der errado, todos nós vamos nos dar mal. Ou esqueceu que parte do pagamento foi adiantado a você quando topou escrever? — Karen falou, tentando fazer sua vontade prevalecer.
— Eu bem me lembro, foi 10% do valor total combinado. Também lembro que não assinamos contrato nenhum; se quiser, te devolvo o dinheiro agora mesmo. Quero meus livros na internet e nas livrarias em dois meses, independente das fofocas. E não precisa se preocupar com os eventos, já contratei uma empresária para cuidar disso.
Karen fez menção de esbravejar, mas Eugène fez um sinal com a mão, pediu uma cerveja para o garçom e, em seguida, colocando sua mão sobre a dela, falou:
— Karen querida, não é ruim a ideia de aproveitar que Charlotte está em alta para lançar o livro. Realmente, quem já gosta dela irá comprar de qualquer jeito, e quem não gosta irá comprar só para ver se o livro está bom ou não. — A cerveja chegou e o professor aproveitou para sussurrar no ouvido da noiva: — Você não pode se alterar. Tem toda essa coisa de plágio nas suas costas e ainda o seu falecido marido que apareceu. Você está precisando de boas notícias, antes que perca o resto dos escritores da editora e os patrocinadores.
Karen sorriu e falou:
— Como quiser, Charlotte Sophie.
E assim ficou claro que, daqui para frente, a amizade entre mim e Karen havia acabado. Eu me senti sozinha como não me sentia há muito tempo. Não tinha mais Jean, nem Karen. Meu único alívio era esperar a catedral fechar para me recolher nos braços da minha gárgula.
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Gárgula ( +18)
Fantasy* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
