26 - O chip

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Hoje é sábado.
Aproveitei o grande movimento dos passeios de fim de semana para voltar ao porão. Com Louise de folga, entrar ali foi fácil demais.
O gárgula estava exatamente como eu me lembrava.
Imóvel.
Silencioso.
Observando.
Aproveitei os últimos vestígios do pôr do sol que ainda entravam pelas frestas e comecei a tirar fotos. Eu queria capturar cada detalhe - cada linha, cada textura - para que, quando descrevesse no livro, o leitor pudesse enxergá-lo com a mesma nitidez que eu.
- Então foi você que destruiu o casamento de Maya e Lohan? - murmurei, meio irônica. - Acho que ela exagerou... você nem é tudo isso.
Continuei fotografando.
- Ai, que droga... já está escuro.
Fui até o interruptor e acendi a luz. O ambiente ficou ainda mais frio.
Voltei até a estátua.
Mais fotos.
As asas.
O rosto.
As garras.
- Ia ser melhor se essas asas estivessem abertas...
E então...
Elas se abriram.
O som foi seco.
Pesado.
Eu caí sentada no chão, o corpo inteiro travado.
Por instinto, puxei o celular e comecei a filmar.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa-
Ele se moveu.
Com uma rapidez impossível.
Arrancou o celular da minha mão... e o esmagou com uma única pressão.
- Nãããão! - gritei.
Tarde demais.
Os pedaços caíram no chão.
Estranhamente... eu não gritei de verdade.
Não como as personagens dos meus livros fariam.
Eu só... paralisei.
- Maya...
A voz.
Grave.
Arranhada.
Vinda dele.
Ainda sentada, comecei a me arrastar para trás, até alcançar a escada. Quando consegui me levantar, subi correndo, dois degraus de cada vez.
Saí.
Fechei a porta.
Tranquei.
E, mesmo com o coração disparado, tentei andar normalmente... como se nada tivesse acontecido.
De volta ao apartamento, me joguei na cama.
- Foi uma alucinação... foi uma alucinação... foi uma alucinação...
Repeti isso encolhida, abraçando as pernas.
Isso estava me fazendo mal.
Era isso.
Pensar demais nessa história.
Nesse gárgula.
Olhei para o lado.
O diário de Maya estava ali.
Por um segundo, pensei em pegá-lo.
Mas desisti.
Não.
Eu precisava de um tempo.
Um detox.
Nada de gárgulas.
Nada de castelos.
Nada de passado.
Fui até a cozinha, fiz pipoca, peguei um refrigerante e voltei para o quarto.
Mas tive a estranha impressão...
de que o diário estava me chamando.
Engoli seco.
Peguei uma camisa limpa, usei para segurar o livro - como se evitasse tocá-lo diretamente - e o tranquei dentro do guarda-roupa.
Pronto.
Fim.
Liguei a TV.
Comédias.
Leves.
Idiotas.
Qualquer coisa que não tivesse absolutamente nada a ver com aquilo.
Seis horas seguidas.
Sem parar.
Até que-
Um barulho na cozinha.
Algo caiu.
Meu coração disparou.
Fui verificar.
Um copo no chão.
- Estranho...
Voltei para o quarto, mas o sono não vinha.
O medo era maior.
Coloquei o áudio da Bíblia no notebook, deitei e me cobri inteira.
Como uma criança.
Quando Jean chegou pela manhã e tocou a campainha, mesmo tendo a chave, eu gritei.
Ele abriu a porta na hora.
- Emma! O que aconteceu?
- Nada... nada... só levei um susto.
Mentira.
Se eu contasse a verdade, ele provavelmente acharia que eu estava enlouquecendo.
- E aí? Foi ao porão? Viu o gárgula? Tirou fotos?
Ele parecia curioso demais.
- Não... meu celular caiu e quebrou.
Outra mentira.
- Então passa naquela loja do shopping e compra outro. É só colocar o chip.
Meu coração gelou.
- Mon Dieu... meu chip!
Contatos.
Editora.
Advogado.
Tudo.
- Sério, Emma? Você precisa levar isso mais a sério - ele disse.
- Calma... acho que sei onde está.
À tarde, fui ao shopping.
Comprei um celular novo.
Sorvete.
Uma camisa.
Tentei agir como se estivesse tudo normal.
Jean estava comigo.
Mas minha cabeça... não estava ali.
À noite...
- Quer que eu vá com você? - ele perguntou.
- Não. Vai chamar atenção.
Desci do carro.
Sozinha.
Nunca tive tanto medo de entrar naquele porão.
Abri a porta.
- Tem alguém aí?
Silêncio.
Desci devagar.
Degrau por degrau.
E então-
Nada.
Nada.
O gárgula... não estava mais lá.
O espaço vazio parecia ainda mais errado do que a presença dele.
Olhei para o chão.
E encontrei.
Os restos do meu celular.
- Mon Dieu...
Minhas mãos tremiam.
Minha imaginação não faria aquilo.
Não quebraria um celular.
Peguei a parte maior.
Onde ainda estava o chip.
E saí dali correndo.
Sem olhar para trás.


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