33 - Coisas estranhas

183 18 1
                                        

  Após o café da manhã, pedi a Aaron que me levasse até a cozinha

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.




Após o café da manhã, pedi a Aaron que me levasse até a cozinha. Por alguns instantes, tive a estranha impressão de ver tudo o que estava descrito no diário: Maya e Durand se beijando e se acariciando em cima da mesa, com tantos detalhes que cheguei a sentir o rosto esquentar.

Depois, o gerente, com muita paciência, me levou para um passeio pelo jardim e pelos arredores do castelo, avisando-me que mais tarde haveria um jantar de aniversário do hotel e todos deveriam se vestir com trajes da época.

Expliquei que não poderia participar, pois não tinha me preparado para uma festa dessa grandiosidade. Mas Aaron disse que fazia questão da minha presença e que providenciaria tudo o que fosse necessário.

Quando voltamos, perguntei-lhe se sabia algo sobre a bruxa que teria lançado o feitiço transformando Durand em pedra. Ele respondeu que as informações eram escassas, mas sabia que o sobrenome dela era Caron. Segundo suas pesquisas, ainda existiam descendentes da família vivendo na região de Juvisy-sur-Orge e em Paris, embora fossem muito discretos. Ele explicou que, em certa época, quase todos os Caron foram exterminados, mas não soube dizer o porquê. Aconselhou-me também a não dar muita importância a essa parte da lenda, pois, para a história oficial, o Duque havia matado Pierre Durand, e a história da gárgula não passava de um conto para assustar crianças malcriadas.

O dia foi bastante agradável. Andei a cavalo, almocei pratos deliciosos e, à tarde, fui para o quarto fazer anotações sobre tudo o que tinha visto e sentido.

Já no final da tarde, Aaron bateu à porta e entregou-me uma grande caixa.

- É um empréstimo, faz parte do acervo do hotel, mas mandei lavar especialmente para a senhora. Está limpo e cheiroso para usar no jantar.

Assim que ele saiu, abri a caixa e fiquei pasma: era uma réplica perfeita do vestido vermelho que Maya usava no quadro da entrada.

Quando a hora da festa se aproximou, ouvi outra batida na porta e disse para entrar. Uma moça vestida como uma criada de antigamente entrou, fez uma pequena reverência e disse:

- Vim ajudar a senhora a se vestir.

Achei um pouco excessivo, mas pensei que era só o entusiasmo deles com o tema da festa.

- Que bom! Já estava imaginando como iria conseguir fechar esse espartilho sozinha. - Falei, mostrando a roupa na cama.

A camareira era tão autêntica no traje que parecia ter saído diretamente do passado. Nos primeiros minutos, senti dificuldade para respirar com o espartilho tão justo, mas logo me acostumei.

Ela arrumou meu cabelo com perfeição enquanto eu fazia uma maquiagem leve. Ao terminar, ela puxou um grande espelho de pé com moldura dourada para que eu pudesse me ver por inteiro.

- Espero que tenha ficado ao seu gosto, Duquesa. - Disse ela, fazendo nova reverência antes de sair.

Olhei-me no espelho e vi que era a cópia fiel de Maya. Por instinto, contei meus dedos - lembrava de ter lido que, em sonhos, às vezes os dedos aparecem em número diferente -, mas estavam todos lá, normais. Então, não era um sonho.

Mal a camareira saiu e Aaron bateu na porta de novo, me dando um susto danado.

Ele estava acompanhado de Charlotte Jolie, a cabeleireira mais famosa da região.

- Viemos ajudar a senhora a se arrumar! - disse ele. Mas ao me ver já toda pronta, ele ficou tão branco quanto eu.

- Muito obrigada, mas a camareira que o senhor mandou há pouco já fez um trabalho maravilhoso. - Falei, ainda olhando o reflexo.

- Mas... eu não mandei ninguém, senhora. Fui pessoalmente até a cidade buscar a Charlotte para fazer seu cabelo. - disse o gerente, visivelmente confuso. - Pode colocar tudo na minha conta, Charlotte.

A cabeleireira saiu um pouco chateada, e Aaron ficou ali, tão perdido quanto eu.

Mais tarde, ele voltou ao quarto, já vestido a caráter, temendo que eu desistisse de descer.

Quando finalmente chegamos ao topo da escada principal, parei bem em frente ao grande quadro. Os convidados olharam e começaram a aplaudir, achando que aquela semelhança toda era parte do espetáculo da festa.

Era assustador e fascinante ao mesmo tempo. Eu estava tão idêntica à pintura que cheguei a me sentir perdida, tentando entender quem era eu de verdade naquela história.

A avó de Jean estava na festa e passei a maior parte do tempo ao lado dela, já que não conhecia ninguém mais ali.

- Agora você entende... - disse a matriarca em tom baixo. - Desde que Jean se interessou por você, a família, que conhece essa história toda, tenta protegê-lo. Têm medo que a história se repita. Como já deve saber, Maya não era uma mulher de bom coração.

- Ainda estou tentando processar tudo isso. É muita informação para minha cabeça. - Respondi, pensando na incrível coincidência: eu ser a cara de Maya e estar casada com um homem idêntico ao Duque Lohan.

Depois que subi para o quarto, sentei-me na cama exausta, pensando em como conseguiria me livrar sozinha daquele espartilho apertado. A cabeça girava por causa do champanhe, e acabei dormindo vestida mesmo.

Tive um sonho intenso: Maya apareceu, pegou minha mão e me levou correndo até o que parecia ser uma Paris noturna. Lá, ela me mostrou Durand e Jean se encarando, trocando olhares cheios de ódio e desafio.

Acordei às seis da manhã com o coração apertado e uma sensação horrível de angústia. Não pensei duas vezes: tirei aquela roupa pesada, tomei um banho rápido, vesti minhas roupas normais, juntei minhas coisas e fui embora do hotel sem esperar pelo café.

Antes de pegar a estrada, mandei uma mensagem agradecendo Aaron pela hospitalidade e segui viagem.

...

Algumas horas antes...

Pierre Durand voava sobre os telhados nos arredores de Paris quando avistou uma mulher saindo de um restaurante por volta das 23h30. De repente, um assaltante a atacou.

Aproveitando a escuridão e as sombras, Pierre mergulhou, agarrou o criminoso pelo colarinho e o arrastou para longe, antes que a vítima pudesse perceber o que acontecia - ela ainda estava de olhos fechados, obedecendo à ordem do ladrão.

Voando entre as nuvens com o homem pendurado, Pierre avisou:

- Se gritar, eu te solto daqui mesmo.

O sujeito, que parecia estar drogado, mal conseguia acreditar no que estava acontecendo. O pânico foi tanto que deixou a arma cair no vazio.

Pierre pousou em uma rua deserta, encostou o bandido com força contra a parede e começou a lhe dar socos, cheio de fúria.

- Está passando por isso porque se aproveitou de uma mulher que estava trabalhando até tarde da noite! - rosnou.

O sangue começou a escorrer pelo rosto do ladrão quando uma voz firme o interrompeu:

- Solte esse homem e se renda, ou eu atiro!

Era Jean, apontando uma arma para a sombra, sem conseguir ver claramente quem era.

Pierre, que conseguia ver o rosto do policial iluminado pelo poste de luz, ficou paralisado. Diante de si, estava o Duque Lohan Leroy.

Estático, a gárgula nem percebeu que ainda mantinha o assaltante pressionado contra a parede, desobedecendo à ordem. Jean, vendo que não havia reação, gritou mais uma vez e, como não fosse obedecido, puxou o gatilho.

-
Leia também

- Leia também

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.


Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora