- Louise e outros personagens: Terceira pessoa.
- Emma e Maya: Primeira pessoa.
- Sem "transmissão" ou "horizontal".
- Português impecável.
Louise...
— Essa Maya realmente não tinha escrúpulos! Traía o marido justamente com o guarda de maior confiança do Duque. — disse o padre Carlos, visivelmente afetado após ela ler algumas páginas intensas do diário. — Quem seria a alma devassa que levou esse livro para dentro da catedral?
Ela revirou os olhos, irônica:
— Macaco que senta no próprio rabo fica falando do rabo dos outros. O volume tem o selo da família Leroy, então é óbvio que quem o levou foi a Emma. Mas a questão é: por quê? E por que motivo estava escondido no porão? — Falou, deixando o manuscrito de lado e caminhando até a mesa onde estava o seu computador.
...
No dia seguinte...
— Bonjour, gostaria de falar com a senhora Alis de Leroy, por favor.
— Minhas sinceras desculpas, mas ela não se encontra no momento.
— Que pena. Tenho algo que certamente seria do interesse dela. Deixarei meu número de telefone; peço que anote e peça para que ela me contate assim que possível.
...
Dois dias depois...
Louise, no confessionário com padre Carlos...
— Aquela filha da puta deve se achar muito importante! Não me retornou até hoje, nem mesmo para saber o que eu possuo.
— Louise, já passou pela sua cabeça que você quer vender à senhora Alis algo que, na verdade, já pertence a ela? — indagou o sacerdote do outro lado da grade.
— Não se trata do diário em si, e sim do que não está escrito nele. A Duquesa era uma devassa, e a probabilidade é grande de que todos que se dizem descendentes do Duque na verdade sejam originários de uma relação ilegítima. E quanto mais esse fato for preocupante para Alis de Leroy, mais dinheiro eu poderei obter em troca do meu silêncio.
— Louise, ela não vai querer pagar você por uma herança de família. Seria muito mais simples para ela acionar a polícia.
— Carlos, ela jamais chamará a polícia. A família dela usufrui de inúmeros benefícios até os dias de hoje. Se houver a mínima possibilidade de que não são descendentes legítimos do Duque, podem perder tudo, inclusive a propriedade onde a própria Alis reside.
— Bem... Mudando de assunto, madame Louise, poderíamos passar o final de semana em Orleans?
— Está louco? Final de semana é o período com maior movimento de turistas, e como não vou receber dinheiro pela venda da escultura, preciso aproveitar ao máximo para manter as contas em dia, especialmente a prestação do carro. O Kaleb sempre foi cuidadoso, nunca roubou algo que não pudesse vender. Até hoje não consigo entender aquela história de ele dizer que a própria gárgula o levou até a porta da casa da Emma. E, de qualquer forma, não vou até Orleans toda vez que quisermos transar. Agora preciso ir, daqui a pouco inicia-se outro passeio. A sua benção, padre.
— Deus te abençoe, minha filha.
Ela saiu do confessionário e caminhava distraída em direção à nave principal quando ouviu a voz do Arcebispo:
— Senhorita Louise, as suas visitas ao confessionário estão se tornando cada vez mais frequentes.
— Arcebispo Nicolas de Cluny, que vergonha! Não sabia que o senhor reparava tanto em mim. Como Vossa Excelência deve saber, não é fácil seguir o caminho da santidade. "O espírito está pronto, mas a carne é fraca". Sou solteira e, por vezes, acabo cedendo à tentação.
— Senhorita Louise, a carne é fraca, mas o espírito deve ser forte. Perdoar... O verbo hebraico nassah significa também “levantar” e “levar embora”, e este poderia muito bem ser o significado literal que deu origem ao metafórico. Mas creio que não deveria se aproveitar da misericórdia divina cometendo sempre o mesmo erro.
— Vossa Excelência Reverendíssima, eu me apego ao "setenta vezes sete". E, como o senhor bem sabe, as misericórdias divinas se renovam a cada amanhecer. Poderia explicar-lhe o porquê de cair sempre no mesmo pecado, mas, se formos olhar a fundo, nem é realmente o mesmo: fornicação, lascívia, adultério... De vez em quando gosto de variar com mulheres, adoro filmes adultosos e confesso que sou viciada em mim mesma. Com a sua licença, senhor Arcebispo, mas tenho turistas me esperando. — Falou, segurando o riso.
Ao atravessar a nave, sentiu o telefone vibrar no bolso. Parou por dois segundos, olhando o número desconhecido, e atendeu assim que cruzou a porta principal da catedral:
— Alô.
— Bonsoir, aqui é a senhora Alis. Tive a informação de que teria algo que me interessasse. O que realmente você tem que possa me interessar?
— Senhora Alis de Leroy, eu tenho nada mais, nada menos, do que o diário da Duquesa Maya de Leroy. Sinceramente, senhora Alis, não acho que uma coisa dessa deveria estar ao alcance de qualquer um, seria muito perigoso se esse diário caísse em mãos erradas. — Falou, encostada na porta principal.
— Eu já entendi, você irá me chantagear.
— Chantagem é uma palavra muito forte, senhora Alis. Eu apenas quero o valor de 50 mil euros pelo diário. Sei que não são tão ricos como na época do Duque, porém também sei que ainda têm bastante coisas de valor, inclusive relíquias que, se vendidas, levantariam esse montante rapidamente. Como ia dizendo, esse é apenas um valor irrisório que me recompensará por ter achado o querido diário da Duquesa, algo que imagino ser bastante importante para sua família. — Falou, olhando para as próprias unhas de gel, feitas na tarde anterior.
— Irei falar com a polícia e pegarei o diário sem ter que gastar um centavo. O diário pertence à família Leroy.
— Eu li o diário e sei que não irá chamar a polícia, pois sabe que o que está escrito naquele livro, se vier a público, pode fazer com que perca boa parte de suas regalias, senão todas.
A senhora Alis desligou o telefone na sua cara e ela, olhando para a tela, falou:
— Muito mal educada para pertencer a uma família tão importante. — Falou, na certeza de que receberia uma ligação em breve.
...
Emma...
O curso já havia terminado e eu olhava satisfeita a minha nota pelo aplicativo, nota essa que iria permitir que eu continuasse as aulas com Eugène. Esperei que os alunos fossem embora e fui até onde estava Pierre, voltando a desenhá-lo. Não por necessidade, pois eu tinha dúzias de desenhos, bem mais do que precisava, mas porque precisava de uma desculpa para continuar ali.
Era estranha a necessidade que eu tinha de estar perto de Pierre Durand, mesmo quando ele estava em modo estátua. Eu já estava sombreando o desenho quando meu professor apareceu por trás de mim e falou:
— Bonito desenho.
— Ah! Muito obrigada. — Falei sem graça.
— Eu realmente acho que teria muito mais sucesso como desenhista do que como restauradora. Você até que melhorou bastante, mas quando restaurou a asa do gárgula seu trabalho ainda não era tão bom assim. E não tente negar que foi você que estourou a lâmpada; conheço o trabalho de cada um de meus alunos.
— Na época o Arcebispo não queria muita atenção em cima da escultura. — Falei dando de ombros.
— Karen falou comigo que você está quase terminando o livro. Continuará fazendo o curso mesmo após ele estar terminado? — Eugène me perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Sim, irei continuar o curso, se assim permitir. — Falei olhando a escultura e sombreando o nariz de Pierre.
— É estranha a maneira que olha a escultura, eu quase poderia dizer que tem um carinho por ela. — Meu professor falou, me analisando.
— Essa estátua vai fazer com que eu tenha mais um livro na lista de best-sellers e isso significa muito dinheiro no meu bolso. — Menti, pois eu sabia que o que sentia por aquele gárgula era muito mais do que isso.
— Bom, Karen me falou da entrevista que conseguiu para você na televisão. Meus parabéns.
— Eu também vi sua entrevista, estava ótimo, Eugène. Parabéns. — Falei vendo meu professor se distanciar.
Continuei o que estava fazendo até que ouvi uma voz conhecida:
— Nossa, se o livro não der certo pode tentar a carreira de desenhista. — Louise falou, olhando meu desenho.
— Obrigada. — Falei secamente.
— Você crê em reencarnação? — Louise perguntou do nada.
— Nunca pensei no assunto. Minha família é protestante, com exceção do meu marido. Somos os Müller, e os Leroy são os católicos. — Falei por educação.
— Eu estava estudando sobre sua família por causa do gárgula. É incrível como você é idêntica à Duquesa Maya, e mais incrível ainda é você ter se casado com uma pessoa que é a cara do Duque de Leroy. — A morena falou saindo de perto, e eu não pensei muito na conversa pois estava muito focada no que estava fazendo e também porque o que saía da boca de Louise não tinha nenhuma importância para mim.
...
Horas depois...
Louise...
Ela já estava em seu apartamento, havia tomado banho, colocado a camisola e estava estudando um pouco mais sobre a lenda do gárgula da família Leroy quando o telefone tocou.
— Aqui é Alis de Leroy.
— Claro que é. — Falou, abrindo a geladeira e pegando uma maçã.
— Irei pagar o valor que pediu.
Ela sorriu satisfeita antes de mandar o número da conta e o endereço para a entrega do diário.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Gárgula ( +18)
Fantasia* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
