12 Lendas

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Cheguei em casa e comecei a pesquisar na internet sobre lendas de Notre-Dame, porque minha mãe sempre dizia que, por trás de toda lenda, sempre existe um pingo de verdade.
— “Porta do Diabo”. Um jovem artesão parisiense, chamado Biscornet, foi encarregado da fechadura e da decoração em ferro forjado de uma das portas laterais da catedral, a de Santa Ana.
Diz a lenda que, diante da dificuldade que enfrentava para concluir o trabalho, Biscornet invocou o Diabo e pediu ajuda em troca de sua alma. Quando terminou, foi amplamente elogiado e promovido a mestre no ramo. Porém, pouco tempo depois, foi encontrado morto em sua cama, em circunstâncias estranhas…
Durante a Revolução Francesa, as 28 estátuas da Galeria dos Reis — que representam personagens bíblicos — foram decapitadas, pois os revolucionários acreditavam que elas representavam os reis da França.
— Li em voz alta, sentindo um leve arrepio percorrer minha pele.
— Não é nada disso que eu procuro… — murmurei, já digitando “lendas de gárgulas”.
— “Acredita-se que, originalmente, as figuras monstruosas e, por vezes, assustadoras dos gárgulas tenham sido criadas para alertar os fiéis de que o mal nunca dorme. Além dos clássicos gárgulas, existem também, nos telhados dos templos, as chamadas ‘quimeras’…”
Parei de ler, impaciente.
— Não… não é isso…
Continuei.
— “Uma lenda francesa gira em torno de São Romano (cerca de 641 d.C.), primeiro chanceler do rei merovíngio Clotário II…”
Li enquanto caminhava até a cafeteira, o cheiro quente e envolvente do café começando a preencher o ambiente.
— “…a criatura afundava barcos, devorava pessoas e animais… e foi derrotada e queimada…”
Soltei um pequeno riso, descrente.
— Sei não como iriam queimar algo feito de pedra…
Levei a xícara aos lábios, sentindo o calor escorrer lentamente pela garganta, enquanto meus pensamentos giravam mais rápido do que o normal.
Então algo chamou minha atenção.
— “Venha fazer aulas com o melhor restaurador da França, na catedral mais famosa do mundo. Eugène Doc. Uma vaga para iniciante e cinco para experientes.”
Meu coração acelerou.
— É claro…
Sorri sozinha, um sorriso lento, quase perigoso.
— É exatamente isso que eu preciso.
Karen era uma pessoa extremamente influente no meio artístico. Respirei fundo antes de ligar — já imaginando a reação dela.
— Olá, Karen.
— Oh, não! Você nunca me liga… alguma coisa aconteceu. Mon Dieu, você está com bloqueio criativo. Eu não acredito!
Revirei os olhos, apoiando o quadril na bancada da cozinha.
— Não estou com bloqueio criativo. Pelo menos… não mais.
Falei, levando mais um gole do café, enquanto meus olhos se perdiam na vista da Torre Eiffel pela janela — elegante, distante… quase inalcançável.
— Não acreditamos. Nem eu, nem meus superiores. Se não está, então me diz: sobre o que vai escrever?
Aproximei a voz, quase como um segredo proibido.
— Eu vou te contar… mas não fala pra ninguém.
Houve um pequeno silêncio.
— É sobre gárgulas.
Karen soltou um suspiro dramático.
— Emma, meu amor… por que você não pode ser uma escritora normal? Escrever sobre alfa, obsessão, dono do morro, CEO…
Sorri de lado.
— Karen… se eu escrever o que todo mundo escreve, como eu vou me destacar?
— Sendo a melhor… — respondeu, seca. — Mas fala logo, o que você quer?
— Eugène Doc. Eu preciso que você consiga uma vaga pra mim no curso de restauração da Catedral de Notre-Dame.
Do outro lado, silêncio.
— Emma Müller… você não tem experiência com restauração.
Passei a língua lentamente pelos lábios, sentindo o gosto amargo do café ainda ali.
— Mas sou uma ótima desenhista. Eu aprendo rápido.
— Acho melhor eu te arrumar outro passeio na catedral.
— Karen… — minha voz saiu mais firme, mais baixa — eu já fiz o passeio. Eu preciso entrar lá sem grupo… sem alguém me dizendo onde posso ou não posso ir.
Ela suspirou, irritada.
— Ai, que merda… o que você pretende fazer? Roubar alguma coisa? Emmaaaa…
Dei uma risada leve.
— Não vou roubar nada. Existe uma lenda… sobre um conde que descobriu que estava sendo traído e transformou o amante da esposa em um gárgula. Ele está guardado em alguma sala da catedral.
— Amor… — a voz dela suavizou, quase com pena — eu sei que você é escritora e vive no mundo da fantasia… mas magia não existe. Não tem como transformar alguém em pedra.
Apertei a xícara entre os dedos.
— Karen… essa história tem tudo: romance, traição, obsessão… magia.
Minha voz ficou mais baixa.
— E eu vi o olhar daquela historiadora… tinha alguma coisa ali. Eu não sei o que é… mas tem algo escondido.
Outro silêncio.
— Você está por sua conta e risco. Vou falar com o Eugène. Mas, se for presa, não fala meu nome.
Sorri, satisfeita.
— Obrigada, Karen. Você é um amor.

Fui arrumar a casa. Jean e eu optamos por ter uma arrumadeira apenas duas vezes por semana — seria caro demais tê-la todos os dias.
Eu já estava preparando o jantar quando Karen ligou novamente.
— É bom esse livro ficar ótimo, porque eu quero meu nome nos agradecimentos. Você começa depois de amanhã. Vai pagar com uma infinidade de publis… e, claro, o nome dele no final do livro.
Ela fez uma pausa.
— E já te aviso: Eugène é um conquistador. Então… cuidado.
Soltei uma risada baixa.
— Pode deixar… muito obrigada.
— Tchau, amiga. Agora vou tomar um banho e me arrumar pra um encontro com o Eugène… tudo isso pra você ir caçar uma estátua escondida.
Mordi o lábio, meio culpada.
— Desculpa…
Karen desligou, e por um instante fiquei parada, sentindo um leve peso na consciência.
A campainha tocou.
Jean entrou logo em seguida, abrindo a porta com a própria chave. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou pela cintura, me levantou e me girou no ar.
Soltei uma risada, surpresa, minhas mãos se apoiando nos ombros dele.
— Vejo que gostou do serviço…
Falei quando meus pés tocaram o chão novamente, ainda sentindo o corpo dele próximo demais do meu.
— Estou adorando — disse ele, com um meio sorriso — mas agora preciso de um banho. Estou cheirando a suor.
O jeito como ele disse aquilo… o tom, o olhar… fez meu estômago dar um leve aperto.

Depois do banho, já durante o jantar, comecei meu interrogatório.
— Amor… procurei em toda a internet e não encontrei nada sobre a lenda da sua família.
Ele não desviou os olhos da televisão.
— Não tem.
— E se eu quiser saber mais?
Ele suspirou, apoiando a cabeça no encosto do sofá.
— Vai ter que falar com a minha avó.
Me levantei devagar, sentindo uma decisão se formar dentro de mim.
— Amor… você ficaria chateado de dormir sozinho hoje?
Ele riu, sem humor, e se levantou.
— Eu já vi esse filme… ou melhor, já li esse livro. Você vai escrever sobre a lenda da minha família. Vai sair agora, entrar no carro e dirigir até Nancy.
Ele me olhou, agora sério.
— Espero que fique em um hotel e não acorde minha avó no meio da noite.
Cruzou os braços.
— Você acabou de voltar de lá. Não tem nem uma semana. E acabou de tirar a carteira… tinha medo de dirigir. Vai pegar estrada sozinha agora?
Dei um passo na direção dele.
— Eu não posso depender de você pra sempre.
Falei baixo, firme… mas havia algo mais ali. Algo que nem eu sabia explicar.
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado.
— Merda… vai. Mas toma cuidado. E lembra que minha mãe mora ao lado da casa da minha avó… e não gosta de você.
Sorri de canto, já virando para o quarto.
— Sua família inteira não gosta de mim.
Mas, no fundo… aquilo só tornava tudo ainda mais interessante.
E perigoso.

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Obrigada pelos votos

lobinha49
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BIBLIOGRAFIA

https://www.google.com/amp/s/listasdeviagem.com/2016/10/04/8-curiosidades-sobre-a-catedral-notre-dame-de-paris/amp/

https://www.google.com/amp/s/aminoapps.com/c/mitologicpt/amp/blog/as-gargula/M4E3_E5ikuabqgvbZn5xvQN2GdQJ2DEGwe

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