38- o roubo

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Diário de Maya...

Eu havia ido ao pomar pegar o resto dos pêssegos que sobraram após a colheita, para fazer o doce favorito de Lohan. Segundo ele, iria chegar no dia seguinte. Aproveitei também para pegar algumas maçãs e fazer uma torta.

Coloquei as frutas nas cestas, arrumei as maçãs no alforge que estava sobre o cavalo e subi na montaria com alguma dificuldade, derrubando alguns pêssegos pelo caminho, e voltei para o castelo.

Ao longe, já dava para notar uma movimentação estranha e, ao me aproximar mais, vi a carruagem do meu marido.

Meu coração parou por três batidas quando lembrei que havia deixado o diário aberto em cima da cama... eu jurava que ele só chegaria amanhã!

Fiz o cavalo correr ainda mais rápido. Ao chegar, entreguei a cesta a um dos guardas que veio me ajudar a descer e ordenei que a levassem para a cozinha.

Quando subi os degraus para entrar, engoli seco. Lá estava Pierre, com o supercílio sangrando, amarrado e sendo praticamente arrastado por quatro guardas.

Tentei manter a postura, olhei fundo nos olhos do meu amante e segui em frente. Entrei no salão principal, subi as escadas e cheguei ao quarto, onde encontrei Lohan segurando o meu diário na mão.

— É isso que você faz enquanto eu estou viajando, tentando dar uma vida de rainha para você? Eu tirei você e sua família da lama, dei terras e uma vida de luxo, e é assim que me agradece?

— Meu marido, não é nada do que está pensando...

— Não é? Então esse diário não é seu? Você não é uma meretriz que se deita com o meu guarda de confiança, o mesmo que eu coloquei aqui para vigiar você?

Corri até ele e me ajoelhei aos seus pés, implorando por misericórdia, mas ele me deu um tapa tão forte que me fez cambalear. Ficamos nos encarando por segundos em silêncio, até que ele saiu do quarto furioso.

Lohan ordenou aos servos que pregassem um tronco no jardim, bem embaixo da minha janela. Em seguida, arrastaram Pierre até lá e o amarraram. Eu vi tudo, horrorizada da janela, enquanto ele pegava seu chicote de montaria e começava a açoitar meu amante. Quarenta vezes.

...

— E foi assim que Lohan descobriu a traição da Duquesa de Leroy. — Jean leu em voz alta, com um ar satisfeito.

— Meu Deus, isso foi horrível! Ele usou o mesmo chicote que bate nos cavalos! — Exclamei.

— Naquele tempo era assim, Emma. — Disse meu marido, enquanto tirava as luvas e caminhava em direção à cozinha. — Amor, vai querer um café?

— Sim. — Respondi.

Guardei o diário com cuidado no guarda-roupa e fui até a janela. Respirei fundo, olhando para a lua cheia brilhando no céu.

...

No dia seguinte...

— Vamos, temos que ser rápidos! Vocês dão jeito nos seguranças, desliguem alarmes e câmeras. Nós entramos com o carrinho e pegamos a estátua.

...

Com um caminhão estacionado próximo a um mercado, a equipe entrou em ação. Os primeiros ladrões agiram rapidamente, neutralizaram os seguranças e deram o sinal. Um deles deu uma forte coronhada no Padre Carlos, que desmaiou no mesmo instante.

Para disfarçar, roubaram outras relíquias pela catedral: taças de ouro e prata, imagens sagradas, e só então seguiram para o sótão. Arrombaram a porta, carregaram aquele peso imenso e saíram o mais rápido possível.

...

— Policial Leroy, o Padre Carlos disse se sabe o que foi levado? — Perguntou o superior.

— Não, senhor Capitão Lohan. Ele disse que não sabia o que havia no porão e que apenas o Arcebispo tinha a chave do local.

— Então chamem todo mundo! Arcebispo, padres, coroinhas, coral, equipe de limpeza, de restauração... quero interrogar cada um deles!

...

Tarde da noite...

Eu estava acordada, pensando se Jean tinha razão e se realmente seria estranho demais uma mocinha se apaixonar por uma gárgula, quando meu celular tocou.

— Desculpa te acordar, amor, mas não tenho boas notícias.

— Eu não estava dormindo. Jean, você foi baleado? Envenenado? Sequestrado? — Perguntei desesperada.

— Não, Emma... Notre-Dame foi roubada.

— Ai que susto! E o que roubaram?

— Você não vai acreditar... Levaram várias relíquias, taças de ouro, mas a pior parte: roubaram a gárgula.

— Ai Jean, a catedral é cheia de gárgulas! Qual delas levaram?

— A do porão, Emma. A gárgula da minha família.

— Oh meu Deus!

— Estou te avisando porque o Capitão Lohan vai mandar chamar todo mundo que tem vínculo com o lugar para interrogatório, e você também será chamada. Isso pode ser um problema se aquela historiadora lembrar que te viu sempre rodeando o sótão.

— Ai que merda! Jean, o Arcebispo já sabe de tudo isso?

— Provavelmente. Emma, o Capitão está chegando, tenho que desligar agora.

...

— Perdão, Reverendíssimo, por te ligar essa hora, mas...

— Senhora Emma Müller de Leroy — interrompeu a voz calma mas firme do Arcebispo —, tenha certeza de uma coisa: Pierre Durand voltará para Notre-Dame. O problema é se alguém ainda estará vivo para vê-lo voltando.

...

Nos arredores de Paris...

Os bandidos chegaram a um galpão escondido.

— A polícia deve estar procurando um caminhão branco como esse. Assim que clarear o dia, leve isso para alguém de confiança para mudar a pintura e a sinalização.

O líder entregou as chaves a um de seus homens, que saiu dirigindo o veículo. Eles haviam retirado a estátua e deixado ela guardada dentro do galpão.

— Eu não acredito... A Gárgula dos Leroy! Sei de várias famílias ricas e colecionadores que pagariam uma fortuna para ter isso. Amanhã mesmo começarei a fazer as ligações.

O chefe ficou ali por uns instantes, admirando a peça, e depois saiu, trancando a enorme porta de ferro com cadeado.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora