24Interesse repentino

241 18 1
                                        


Durante todo o resto do dia, eu não conseguia pensar em nada que não fosse aquele maldito gárgula.
À noite, perto da hora de Jean ir para o serviço, enquanto vestia a farda, ele me fez uma pergunta:
- Quem se daria ao trabalho de mandar fazer uma estátua de mármore branco de um gárgula que nem fica exposta? E por quê?
Dei de ombros.
- Sei lá... de repente o seu tataravô era um psicopata. Mandou matar o Pierre, depois pediu para alguém esculpir esse gárgula e inventou a história.
Jean ficou em silêncio por um instante, pensando.
- Pega o diário. Vamos folhear e ver se tem alguma coisa sobre gárgulas... e por que ele foi parar na Catedral de Notre-Dame, em vez de ficar como herança da família ou no castelo Leroy. Afinal, uma estátua de mármore branco deve valer uma fortuna.
Olhei para ele, desconfiada.
- Tá querendo saber se dá pra reivindicar a estátua? Já vou avisando que não quero aquele trambolho aqui em casa.
Ele soltou um meio sorriso.
Fui até o diário, peguei um par de luvas cirúrgicas e fiz Jean colocá-las antes de encostar no livro.
Enquanto ele folheava as páginas antigas, eu devorava um misto quente e tomava um suco de laranja. Só então percebi o quanto estava com fome.
- Pelo visto, minha tataravó estava mais preocupada em registrar as próprias sem-vergonhices do que qualquer coisa útil - murmurou ele. - Fico imaginando o Lohan quando descobriu esse diário... porque, convenhamos, foi assim que ele descobriu tudo.
- É a monotonia - respondi, de boca cheia. - O duque vivia viajando, e a duquesa tinha tempo demais pra pensar... no que não devia.
Jean franziu a testa.
- Pra mim isso é má índole. O duque estava trabalhando, não estava em um bordel... espera... acho que encontrei alguma coisa.
Larguei o copo e praticamente me joguei ao lado dele, ignorando minhas mãos ainda sujas de manteiga.
Ele começou a ler.
7 de janeiro de 1330
É o terceiro dia que Lohan deixa Pierre ao relento.
Para meu marido, fazer meu amante sofrer não era suficiente. Ele o amarrou em um lugar onde eu pudesse vê-lo.
Já não durmo mais no quarto do duque. Estou em um dos quartos de visita. Da janela, vejo meu amor... quase morrendo congelado.
Pierre está amarrado a um tronco, sem camisa, há três dias.
Ontem a temperatura chegou a três graus.
Passei a noite inteira acordada, rezando para que ele não morresse.
Ouvi os serviçais comentando que Lohan irá viajar... e meu coração se encheu de esperança. Talvez eu ainda consiga fugir com Pierre.
Ele já havia me proposto isso antes.
Mas eu tive medo.
Medo do que poderia acontecer com minha família.
Agora tenho certeza: se eu não fugir, ele vai morrer.
Quando a noite caiu, Lohan entrou em meu quarto.
Falou com calma.
Com frieza.
Disse que me amava desde o primeiro dia. Que me tirou da colheita e me deu tudo - casa, nome, posição.
E que, em troca, eu o traí.
Disse que matar Pierre não seria castigo suficiente.
Que conhecia uma bruxa.
E que a transformaria em pedra.
Uma escultura.
Para que eu pudesse olhar para ele todos os dias...
E sofrer.
Depois disso, ele saiu.
Vi da janela quando Pierre foi retirado do tronco e colocado em uma carruagem.
8 de janeiro de 1330
O estresse está me consumindo.
Não consigo comer.
Tudo que entra, volta.
Estou fraca.
Durmo sem querer.
Pedi que chamassem um médico.
Mas os serviçais disseram que ninguém pode entrar ou sair do ducado.
9 de janeiro de 1330
Minha família tentou me ver.
Não deixaram.
Passei o dia entre sopas e frutas... e mesmo assim, quase não consegui manter nada no estômago.
Dormi a maior parte do tempo.
Até que Lohan voltou.
Bateu à porta.
Disse que eu havia me comportado bem.
Que sabia que eu estava doente.
E que tinha um presente para mim.
Ele abriu a cortina.
Depois a janela.
E me conduziu até ela.
E então eu vi.
No jardim...
Uma escultura.
Um gárgula.
Meu coração parou.
- Venha - ele disse - faça questão de ver de perto. Foi caro. A bruxa cobrou bem pelo feitiço.
Desci as escadas com ele, sentindo seu braço firme em minha cintura.
Quando me aproximei...
Eu soube.
Era perfeito demais.
Detalhado demais.
Real demais.
Não havia dúvida.
Segurei o choro.
Olhei para meu marido.
E agradeci.
- Obrigada...
Pedi para voltar ao quarto.
Disse que estava passando mal.
Ele permitiu.
Assim que cheguei lá em cima...
Corri para o banheiro.
Vomitei até não restar nada.
E chorei...
Até não ter mais lágrimas.
O erro de quem faz o errado é sempre o mesmo:
achar que nunca será descoberto.
Ou, como diz o ditado...
o erro do esperto é achar que todo mundo é burro.
Eu gostava da emoção.
Do risco.
De fazer escondido.
Sim, eu me apaixonei por Pierre.
Mas havia mais.
Havia a adrenalina.
O perigo.
O proibido.
Nunca passou pela minha cabeça...
que eu seria descoberta.
Nunca.
Terminei de ouvir em silêncio.
Um silêncio pesado.
- Então... - murmurei - não é só uma estátua...
Olhei para Jean.
- Se isso for verdade...
Meu olhar voltou, involuntariamente, para a lembrança do gárgula no porão.
- Então eu não desmaiei sozinha lá dentro.

Leia também

Leia também

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora