36 Temos um problema

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Cheguei em casa chorando. Como alguém poderia ser tão cruel? Não contente em transformar Durand em uma gárgula, ainda tramou para que queimassem a bruxa viva.

A teoria de Jean talvez estivesse certa: talvez o amor que Lohan sentia por Maya fosse tão grande que o enlouqueceu.

Cheguei a pensar que tudo isso era realmente culpa de Maya... mas culpar Maya era o mesmo que culpar a mim mesma. O que eu pensava que estava fazendo, beijando aquela criatura de pedra?

— Salvando o Jean. — Respondi em voz alta para mim mesma, tentando me convencer.

E a minha consciência, imediatamente, sussurrou:

— Fala mais alto, quem sabe assim você acaba acreditando que é verdade.

— Claro que não! Onde já se viu se apaixonar por uma gárgula? Qual vai ser o próximo passo? Me apaixonar pela privada do banheiro? — Bradei, tentando afastar aquela ideia absurda da cabeça.

Interrompi a discussão interna e sentei-me em frente ao notebook para pesquisar mais sobre a família Caron. Não precisei procurar muito até encontrar um lugar chamado Maison Caron, um sanatório que levava o nome da família.

— Nossa! É aqui mesmo em Paris! — Exclamei.

Sem pensar duas vezes, peguei o telefone, liguei e marquei um encontro.

No dia seguinte, tomei meu café da manhã e inventei uma desculpa qualquer para Jean, saindo logo em seguida rumo à Maison Caron.

Fui recebida por Angèle Caron, uma senhora sorridente, com longos cabelos grisalhos trançados e, impressionantemente, usava o famoso anel de lua e estrela no dedo.

Ela me levou até a sala da diretoria e, sem muita paciência para formalidades, fui logo dizendo:

— Vim aqui porque preciso de uma bruxa Caron para desfazer o feitiço que Sophie lançou sobre Pierre Durand.

— Bom dia para você também, senhora Emma Müller de Leroy. — Disse ela, calmamente. — Não sabemos exatamente qual magia foi usada, o que torna muito mais difícil encontrar o contrafeitiço. Mas é curiosa... sua semelhança com Maya de Leroy é inegável. Também se apaixonou por ele? É lógico que sim.

— Eu só quero desfazer isso para que ele possa ser livre! — Falei, tentando disfarçar o quanto estava nervosa.

— Menina, se ainda não estiver completamente apaixonada por Pierre Durand, aproveite e esqueça tudo isso agora mesmo. Maya teve uma vida triste, vendo-o como pedra durante anos. Sophie foi morta por desafiar Lohan de Leroy. Você não vai querer ser a próxima a sofrer ou ter uma morte trágica por causa de um amor impossível.

— Eu te pago! Por favor, a senhora consegue trazer o Pierre de volta? — Implorei, com os olhos cheios de lágrimas.

— Posso procurar em alguns livros e anotações antigas, mas não sei se ainda existem ou se servirão para algo.

...

Depois do curso, pedi a chave ao arcebispo e fui direto para o sótão, mesmo não sendo noite de lua cheia.

Como Jean trabalharia a noite toda, não teria problema se eu chegasse um pouco mais tarde em casa.

Já tinha saído com esse propósito, então trouxe uma lâmpada nova. Peguei a escada que estava no canto, troquei a luz queimada e o ambiente finalmente ficou claro.

Sentei-me e comecei a desenhar. Primeiro apenas o rosto de Pierre, com todo cuidado, traçando cada linha e detalhe. Depois, resolvi desenhar o corpo inteiro da gárgula.

Em seguida, usando o que aprendi nas aulas de restauração, peguei alguns materiais e limpei toda a estátua. Confesso que fiquei um pouco sem graça quando cheguei às partes íntimas, mas continuei com profissionalismo. Por fim, seguindo as apostilas, reparei a parte da asa que estava rachada, ferida pelos tiros que Jean havia disparado.

Quando terminei, tanto o desenho quanto a restauração estavam perfeitos. Senti um orgulho enorme.

Fiquei ali por mais alguns minutos, apenas passando os dedos suavemente pela pedra fria: nariz, sobrancelhas, lábios, peito... era uma necessidade louca de tocá-lo.

Para finalizar, limpei todo o sótão e, antes de ir embora, peguei um tecido limpo que encontrei na sala de materiais e cobri a escultura com carinho.

...

Depois que Emma saiu, o arcebispo entrou no aposento. Olhou ao redor, vendo tudo impecavelmente limpo, e seus olhos pousaram sobre a gárgula bem cuidada.

Ele suspirou profundamente e disse em tom grave:

— É... sem dúvida alguma, temos um problema.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora