Ainda naquela noite, comprei o ingresso de 20 € para a Catedral de Notre-Dame.
No dia seguinte, estava na 6 Parvis Notre-Dame – Pl. Jean-Paul II, 75004 Paris, França, ansiosa, sendo a primeira da fila. Saí antes de Jean, que teria, naquele mesmo dia, seu primeiro dia de serviço aqui em Paris. É claro que deixei o café da manhã pronto… e um beijo suave em sua testa, demorando um segundo a mais do que o necessário, como se aquele gesto pudesse me acompanhar durante todo o dia.
Dessa vez, quando cheguei à catedral, ainda do lado de fora, procurei prestar atenção em tudo. Observei os gárgulas de maneira diferente — mais atenta, quase íntima —, perguntando a mim mesma o que poderia escrever sobre eles.
Qualquer pessoa que chega à entrada da catedral sente, imediatamente, a grandeza inquestionável daquele lugar, repleto de símbolos, lendas e histórias que parecem sussurrar pelas pedras antigas.
Assim que o passeio começou, coloquei o celular para gravar. Eu não queria perder absolutamente nada.
— Bom dia, meu nome é Louise. Sou historiadora e acompanharei vocês hoje nesta excursão. Guardem as perguntas para o final do passeio. Neste nível, são evidentes três portais que surgem em épocas diferentes:
Portal de Santa Ana.
É o portal da direita e vem da época do início da construção da catedral. Possivelmente, foi pensado para um dos braços do transepto. Ainda transparece uma forte ligação à escultura do românico tardio, pela sua frontalidade, rigidez do vestuário e pouca volumetria.
Portal da Virgem.
É o portal da esquerda e, já pensado especificamente para este local, pertence ao século XIII, com iconografia referente a Maria. Aqui, o volume corporal é mais acentuado e a representação mais realista, em oposição ao abstracionismo românico.
Portal do Julgamento.
É o portal central e o mais recente do conjunto.
No românico, a figura central do portal é Cristo em ascensão aos céus, como parte dos acontecimentos de Pentecostes ou no papel de juiz. Já no gótico, não é mais o monge que introduz os fiéis no mundo iconográfico do sagrado; a fé e a experiência espiritual passam a ser sobrepostas pela autoridade e pela lei, representadas pelo clero urbano, pelo bispo. Assim, o tema do Julgamento assume o papel principal no portal gótico.
Entramos aos poucos na catedral enquanto Louise falava:
— A Catedral de Notre-Dame é uma das mais famosas catedrais da França. Está localizada na Île de la Cité, uma ilha no curso do Rio Sena, que corta a cidade de Paris. A catedral possui arquitetura gótica, e sua construção estendeu-se por quase duzentos anos.
Louise, historiadora e líder da excursão, falava com calma, enquanto eu erguia o olhar para a cúpula da catedral, quase prendendo a respiração.
Era impossível não se deixar envolver.
Cada espaço do edifício parecia ter sido zelosamente cuidado. Cada detalhe carregava a marca de mãos dedicadas, como se aquela obra fosse uma oferenda silenciosa a Deus.
— A Catedral de Notre-Dame foi construída em 1163, por decisão de Maurice de Sully, bispo de Paris. Ele assumiu o cargo em 1160 e decidiu construir uma catedral maior para a cidade. A nova construção foi nomeada “Notre-Dame”, em homenagem à Virgem Maria — “Nossa Senhora”, em francês.
Louise caminhava conosco em passos lentos, quase cerimoniosos.
Eu quase fiquei para trás, perdida na beleza dos arcos diagonais que reforçavam a estrutura da arcada gótica.
Continuei seguindo o grupo, pensando que já havia lido tudo aquilo na internet… mas ali, naquele lugar, tudo parecia diferente. Mais vivo. Mais… real.
— Historiadores encontraram evidências que sugerem a existência de um templo romano, provavelmente dedicado a Júpiter, neste local. Também há indícios de que existia aqui uma pequena cidade romana chamada Lutécia.
— No século XIX, a catedral estava em péssimo estado de conservação, e sua demolição chegou a ser debatida. As autoridades francesas planejavam utilizar suas pedras para construir novas pontes em Paris. Isso só não aconteceu porque Victor Hugo publicou um livro que se tornou um enorme sucesso: Notre-Dame de Paris.
Dominando o nível intermediário, encontra-se a rosácea de 13 metros de diâmetro, encaixada entre os contrafortes e ladeada por janelas gêmeas. À sua frente, ergue-se a estátua da Virgem Maria com o Menino.
O estilo gótico permite a ligação entre a terra e o céu. No interior de uma catedral assim, o visitante é naturalmente impelido a olhar para cima, levado pela verticalidade imponente, pelas paredes que parecem desafiar a gravidade. A luz atravessa os vitrais, espalhando cores que envolvem tudo em uma aura quase etérea… quase sagrada.
O edifício possui 127 metros de comprimento, 48 metros de largura e 35 metros de altura. É coroado por abóbadas e marca um dos primeiros grandes passos na construção monumental do gótico. As colunas maciças da nave acentuam a verticalidade e dividem o espaço em arcadas altas, sustentando uma galeria onde janelas externas permitem a entrada de mais luz.
— Diversos sinos compõem o patrimônio histórico da catedral. Entre eles, estão Angelique-Françoise, Antoinette-Charlotte, Hyacinthe-Jeanne, Denise-David (na torre norte) e o Bourdon Emmanuel (na torre sul). Durante a Revolução Francesa, muitos sinos foram derretidos para a fabricação de canhões.
Quando o passeio terminou, procurei Louise, que tomava um café do lado de fora da catedral.
Ela era uma mulher negra bonita, com mais ou menos a minha idade, e longas tranças presas em um rabo de cavalo. Havia algo nela — talvez o olhar, talvez a postura — que misturava firmeza e mistério.
Aproximei-me.
— Olá… posso lhe fazer uma pergunta?
Ela ergueu os olhos, ainda segurando o copo de café.
— O horário da visita já acabou. Não achou as informações esclarecedoras o bastante?
A voz dela era calma, mas carregava uma leve barreira.
— Perdão… foi muito esclarecedor, sim. Mas eu queria saber sobre uma lenda… a lenda do gárgula misterioso, guardado em uma sala que ninguém pode encontrar.
Perguntei ainda de pé, enquanto ela permanecia sentada, me observando com mais atenção do que antes.
Louise me analisou de cima a baixo.
Por um instante, o silêncio entre nós pareceu mais pesado do que qualquer resposta.
— Quem é você? — perguntou, enfim. — Não são todos que conhecem essa lenda.
Ela desviou o olhar por um segundo, como se ponderasse o quanto deveria dizer.
— Essa é uma história da família Leroy… algo sobre um conde que mandou transformar o guarda, amante de sua esposa, em um gárgula de mármore branco.
Ela deu um gole no café.
— Histórias infantis…
Mas havia algo em sua voz que não combinava com desdém.
— Tenho mais o que fazer. Daqui a pouco entram novos visitantes.
Fui para casa intrigada.
Se aquilo era apenas uma história para fazer crianças dormirem… por que Louise ficou tão cautelosa?
Por que, por um breve instante, seus olhos pareceram esconder algo muito mais real… e muito mais perigoso?
Bibliografia
https://www.google.com/amp/s/m.brasilescola.uol.com.br/amp/historia/historia-catedral-notre-dame.htm
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Notre-Dame_de_Paris
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Gárgula ( +18)
خيال* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
