18 Acidente

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Acordei sem a mínima vontade de ir ao curso. Eu tinha aulas três dias por semana; comecei apenas pela oportunidade de descobrir algo sobre a lenda… mas agora que tinha o diário, já não via motivo para continuar. Ainda mais sabendo que Louise ficaria me vigiando o tempo todo — e, muito provavelmente, eu não teria chance alguma de descobrir nada.
Eu estava sentada, tomando meu petit-déjeuner com meu esposo quando ele disse:
— Se essa tal de Louise não quer que você descubra alguma coisa… é porque há algo a ser descoberto. E por que ela não quer que você descubra? — falou meu marido, antes de abocanhar um croissant.
— Você é um gênio, meu amor!
Dei um beijo rápido em seus lábios, peguei minha mochila e meu patinete elétrico — sim, eu havia comprado um para fugir do trânsito de Paris e não precisar vender um órgão toda vez que pegasse um táxi.
Cheguei à catedral mais cedo. Enquanto esperava o curso começar, fiquei contemplando a beleza dos vitrais, quando ouvi alguém dizer:
— Vitrais são como mosaicos coloridos e resplandecentes que, atravessados pela luz, conferem uma aura celestial aos lugares onde se encontram. O apogeu do vitral foi alcançado na Idade Média, principalmente na França, durante o período gótico. Dependendo do contexto em que o vitral era inserido, podia apresentar desenhos geométricos, arabescos, brasões, monogramas… ou ainda histórias e personagens da tradição sagrada. Nos monastérios cistercienses, por exemplo, as cores eram mais suaves. Já em grandes catedrais góticas, como Notre-Dame de Chartres ou Notre-Dame de Paris, os vitrais são um verdadeiro turbilhão de cores — com destaque para o vermelho e o azul escuro, símbolos marcantes do cristianismo medieval.
Era Louise.
— Desculpe, mas eu não paguei pelo passeio. — respondi, virando-me para encará-la.
— Não tem problema. Pode me pagar com informações. Emma de Leroy… o que está procurando aqui?
— Engraçado. Eu ia te fazer a mesma pergunta.
— Eu trabalho aqui. — disse ela, indignada.
— E eu faço um curso aqui. — retruquei, sem pestanejar.
O arcebispo passou por nós, e eu o cumprimentei:
— Vossa reverendíssima.
Louise fez uma leve reverência. Ele apenas nos abençoou e seguiu seu caminho.
...
O grupo do curso — que se resumia a oito pessoas, contando comigo — combinou de ir a um restaurante à noite para comemorar o aniversário do professor Eugène.
Jean, infelizmente, iria trabalhar naquela noite, então tive que ir sozinha. O restaurante ficava a cerca de vinte e cinco minutos da minha casa de patinete… e eu definitivamente não pagaria um táxi se podia chegar lá por conta própria.
Como não era nada muito chique, vesti apenas um vestido solto até a coxa e um tênis branco. A noite estava quente, e eu queria estar confortável.
A surpresa foi ver Karen ao lado de Eugène. Felizmente, nem todo mundo levou acompanhante, então aquilo que eu imaginei ser uma noite entediante — com alunos competindo para ver quem sabia mais sobre restauração — acabou sendo leve e divertida.
Chegamos por volta das oito da noite. Bebemos, conversamos, rimos. Às dez, trouxeram o bolo, cantamos parabéns, e a conversa continuou. Por volta das onze e meia, começamos a nos despedir.
Karen e Eugène até me ofereceram carona, mas preferi ir com meu patinete. Segurar vela não me parecia uma boa ideia.
Mesmo assim… eu estava inquieta. Não estava acostumada a voltar tarde sem meu carro e sem meu marido.
Enquanto o patinete me levava pelas ruas, meus pensamentos voltavam ao diário de Maya.
Maya havia se corrompido por tão pouco… Beleza não é motivo suficiente para destruir um casamento de anos. Pierre podia ser bonito — mas Lohan também era.
Então por quê?
...
Eu seguia pela rua — naquele horário, a calçada estava praticamente vazia — quando me perdi em pensamentos.
E, quando dei por mim, uma BMW cinza já estava quase em cima de mim.
Não houve tempo para reagir.
O som do motor veio primeiro. Depois, a luz dos faróis estourando contra os meus olhos.
Fechei-os.
Era inevitável.
Mas o impacto… não veio.
Em vez disso, senti um puxão brusco, firme, quase violento, como se alguém tivesse me arrancado da rua no último segundo. Mãos fortes me seguraram por baixo dos braços — rápidas, precisas — e, por um instante, meu corpo simplesmente deixou de obedecer à gravidade.
Quando abri os olhos, já estava na calçada.
Meu coração batia tão forte que parecia querer rasgar meu peito.
O patinete… estava destruído. Espalhado pelo asfalto como se tivesse sido esmagado sem piedade.
A BMW havia subido no canteiro, torta, o motor ainda ligado.
Por alguns segundos, fiquei parada, tentando entender.
Não fazia sentido.
Eu não havia pulado.
Eu não havia corrido.
Eu não… tinha feito nada.
Então… quem?
Virei o rosto, lentamente, como se tivesse medo de confirmar algo que eu ainda não compreendia.
Ninguém.
A rua estava vazia.
Vazia demais.
O tipo de vazio que não combina com um acidente que acabou de acontecer.
O motorista saiu do carro tropeçando, visivelmente desorientado.
— Meu Deus… meu Deus… você está bem? — repetia, passando a mão no cabelo, completamente transtornado.
Eu mal o escutava.
Meus olhos varriam o ambiente.
A calçada.
A rua.
As sombras.
Havia um beco poucos metros atrás de mim — escuro, estreito. Antes, eu juraria que não tinha notado aquilo.
Agora, parecia… observar.
Balancei a cabeça, tentando afastar a sensação.
— Você viu…? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Como eu vim parar aqui?
O homem piscou algumas vezes, como se a pergunta fosse absurda demais para ele processar.
— Eu… eu tentei desviar… você estava na rua… eu juro que tentei… — ele passou a mão no rosto. — Não sei. Não vi nada.
Claro que não viu.
Nem eu vi.
Mas eu senti.
E isso era pior.
Ele continuou falando — pediu desculpas, perguntou se eu queria chamar a polícia, implorou para que eu não o denunciasse. Disse que pagaria outro patinete, que resolveria tudo.
Eu apenas assenti, mecanicamente.
Minha atenção ainda estava em outro lugar.
Ou melhor…
Na ausência de alguém.
Quando finalmente entrei no táxi, não consegui evitar.
Olhei pela janela.
Para o mesmo ponto.
Para o beco.
Por um segundo — só um — tive a impressão de que havia alguém ali.
Imóvel.
Observando.
Mas, quando pisquei…
Não havia mais nada.
...
Cheguei em casa ainda atordoada.
O silêncio do apartamento parecia mais denso do que o normal.
Fui até a varanda quase sem pensar, tentando organizar as ideias, mas tudo voltava para o mesmo momento.
O puxão.
As mãos.
A precisão.
Aquilo não tinha sido sorte.
Também não tinha sido reflexo.
Foi… calculado.
Mas por quem?
Respirei fundo e ergui os olhos.
A lua cheia dominava o céu.
Fria. Distante. Imóvel.
Por algum motivo, aquilo me causou um arrepio.
Afastei o pensamento imediatamente.
Não fazia sentido.
Nada daquilo fazia.
Passei a mão no rosto, tentando recuperar o controle.
Jean não estava.
A casa estava silenciosa.
E, pela primeira vez desde que comecei essa história…
O diário de Maya não parecia mais apenas uma curiosidade.
Parecia um começo.

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Bibliografia

https://artrianon.com/2016/10/21/vitral-uma-arte-de-luz-e-cores/

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