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Cecília Albuquerque

     Hoje já é sábado, ontem passei o dia todinho curtindo cada minuto com meus pais.

Daqui a pouco o Matheus vai passar aqui pra gente ir pra praia.

    Como eu esperei por esse momento de curtir uma praiazinha...

— Tinha que ser o Matheus com essa demora toda. - Meu pai reclamou e minha mãe riu.

— Pontualidade nunca foi o forte dele, pai. - Falei segundos antes de ouvir uma buzina — Até que hoje ele não se atrasou tanto, vai.

    Meu pai negou com a cabeça e pegamos as coisas que separamos pra levar.

    Matheus tinha insistido com minha mãe que passaria aqui pra nos levar até a praia ao invés de nos encontrar por lá, confesso que tô desconfiando da tamanha insistência dele.

— E aí, priminha. - Falou sorridente encostado no carro, me puxando pra um abraço apertado — Quanto tempo que a gente não se via, cara.

— Que saudade, chatinho. - Respondi fechando os olhos durante o abraço.

Oi, sobrinho. - Minha mãe falou ironicamente esperando o Matheus ir falar com ela.

— Faltou dizer sobrinho favorito, tia. - Disse abraçando minha mãe — E aí, tio.

— E aí nada, moleque. - Meu pai respondeu de cara feia cortando o Matheus  — Quero saber o porquê de você tanto querer levar a gente pra praia.

— Que isso, tio... - Matheus colocou a mão no peito, fingindo estar sentido — Desse jeito me ofende.

— Bora, desembucha. - Coloquei lenha na fogueira — Quando algo vem de você, coisa boa que não é.

— Na moral, Cecilia. Dois anos sem me ver e já vem com essas gracinhas tuas. - Falou do jeito engraçado dele, fazendo todo mundo rir.

— Gracinhas não, somente fatos. - Teimei com ele.

— Eu só insisti em levar vocês porque tirei carteira essa semana e quero mostrar minhas habilidades no volante, família. - Admitiu coçando o pescoço, dando um sorrisinho.

— Sabia que ele tava escondendo algum detalhe. - Meu pai falou negando com a cabeça — Prefiro ir a pé do que com esse sem juízo recém habilitado.

— Tio, o senhor tá começando a me ofender de verdade. - Matheus disse apontando pro meu pai.

— Nem eu tô querendo ir mais. - Minha mãe admitiu baixinho pro meu pai e o Matheus arregalou os olhos quando ouviu, começando uma discussão entre os três.

— Não gente, todo mundo vai. - Falei botando ordem nesse caos — Se o Detran autorizou, tá autorizado.

— Isso aí, priminha. Única que me apoia. - Fez drama e meu pai revirou os olhos me fazendo rir.

— Tá, nós vamos. Mas já adianto que eu não vou na frente. - Meu pai disse abrindo a porta de trás do carro.

— Tira ímpar ou par vocês duas. - Matheus disse pegando a chave no bolso.

— Que o que, menino. - Minha mãe negou — Eu vou com o meu marido atrás.

— Você vai ter a honra de ir na frente, prima. - Disse abrindo a porta pra mim e eu fiz um pai nosso antes de entrar — Que isso, pô. Não é pra tanto.

— Aham, sei. - Debochei ajeitando o meu boné na cabeça e entrei no carro.

    O Matheus deu a volta, sentando no banco do motorista e ligou o carro dando início ao trajeto.

— Tio, eu tô vendo pelo retrovisor você segurando na alça do teto. - Provocou meu pai.

— Eu não confio em você, garoto. - Meu pai respondeu — E para de olhar pra mim e presta atenção no trânsito, sem juízo.

— Seu pai me chama tanto de sem juízo que as vezes acredito que esse realmente é o meu nome. - Matheus falou pra mim e eu passei mal de rir.

— Ai, merda. - Gritei de susto com o barulhão que o carro fez — O que aconteceu?

— O carro morreu, família. - Matheus avisou — As vezes acontece com os melhores motoristas.

— Tá vendo? - Meu pai berrou atrás — Por isso sugeri que viéssemos a pé, mas foram dar razão pro sem juízo.

— Nós não demos razão pra ele, bem. - Minha mãe respondeu meu pai — Demos apenas uma chance.

— Gente, eu ainda tô aqui. - Matheus bufou — Calma que com paciência a gente chega lá.

— Com esse carro morrendo a cada metro rodado acho difícil. - Meu pai alfinetou.

— Cecília, coloca meu tio no porta-malas. - Matheus sugeriu enquanto ligava o carro, que continuava morrendo.

    Depois de um tempo com o Matheus colocando a vida de todo mundo em risco, conseguimos chegar na praia.

— Certeza que esse sem juízo comprou a carteira. - Meu pai disse pegando as coisas no porta-malas e o Matheus fez cara de tédio.

— Eu não vou voltar com você, sobrinho. - Minha mãe disse abraçando ele de lado — Coloco minha vida em risco apenas uma vez.

— Minha mãe tá toda empolgada pra andar comigo, tia. Não dá nenhum feedback pra ela por enquanto, beleza? - Pediu e eu dei risada da cara de pau dele.

— Vamos logo, gente. - Pedi manhosa fazendo bico.

— Que pressa é essa, Cecília? Nunca foi na praia não? - Perguntou irônico e eu dei língua pra ele.

— Você fala isso porque mora aqui no Rio, passa um tempo sem praia em São Paulo pra ver o que é bom. - Retruquei.

— Eu não. - Deu de ombros — Azar o seu de morar lá.

    Quase dei dedo pra ele mas lembrei que tava na frente dos meus pais.

    Ele começou a gargalhar quando percebeu isso e eu revirei os olhos.

— Cadê sua namorada, Matheus? - Minha mãe perguntou depois de um tempo em que já estávamos sentados na praia.

— Eu sei lá. - Falou bocejando — Não tô mais com ela, tia.

— Esse menino troca de namorada igual de cueca. - Meu pai, pra variar, perturbou o Matheus.

— O senhor é um querido, tio. - Matheus respondeu com ironia — Acho acolhedor todo esse carinho.

     Meu pai fez careta e eu ri. Como eu tava com saudade dessa família, viu...

    Tínhamos almoçado por aqui e eu já tava no meu segundo drink.

— Que comecem os trabalhos. - Matheus veio brindar a cerveja dele com o meu drink.

— Só o início ainda. - Pisquei sabendo que me juntar com ele era confusão na certa.

Aquela PessoaOnde histórias criam vida. Descubra agora