Cecília Albuquerque
O Enzo me levou pra um lugar mais afastado da multidão, ficando só nós dois.
Sentei em uma das cadeiras que tinha ali, esperando ele começar a falar.
— Essa é a hora que você diz alguma coisa. - Falei sugestiva e ele sentou do meu lado apoiando os dois braços próximo aos joelhos.
— Tô com vergonha de falar. - Disse sem jeito.
— Tenta. - Falei calma vendo ele pensar por uns segundos.
— Eu tinha te visto conversando com o moleque lá da minha sala no dia que te tratei daquele jeito.
— Quem? - Perguntei sem entender.
— O Fábio, pô. - Respondeu me olhando.
— Aaah, sim. - Falei me lembrando — E você me tratou mal só por causa disso?
— É... - Fez um sinal de mais ou menos com a cabeça.
— Então você ficou com ciúmes? - Arqueei uma das sobrancelhas, achando graça.
— Não. - Ele respondeu rápido, negando.
— Não? - Perguntei com os olhos estreitos e ele concordou com a cabeça — Tem certeza?
— Tá... Eu fiquei com ciúmes. - Admitiu revirando os olhos, me fazendo rir.
— Cara, eu não acredito que a gente ficou esses dias sem se falar por ciúmes bobo. - Falei batendo de leve no ombro dele.
— Na hora não pareceu bobo. - Disse sério.
— Mas foi. - Contestei — Eu falei com o Fábio umas três vezes na vida, por educação.
— Ah, eu não sabia pô. De longe parecia que ele tava te babando. - Falou fazendo careta.
— E você vai agir assim comigo toda vez que algum cara chegar em mim? - Fui sincera e ele não respondeu nada.
— Eu sei que foi errado o jeito que eu te tratei. - Ele quebrou o silêncio — Foi mal, de verdade.
— Não tenho problemas em te desculpar, mas vou ter se daqui pra frente você me der gelo a cada atitude minha que te desagradar. - Já avisei logo.
— Não, pô. Eu fui crianção mesmo, deveria ter falado contigo desde o primeiro momento. - Foi sincero, olhando nos meus olhos.
— Sim. - Falei com o nariz empinado e ele riu.
Ele me abraçou e ficamos ali, abraçados sem dizer nada. Provavelmente matando a saudade que poucos dias afastados nos fez sentir.
Droga... Envolvida nos braços dele, sentindo o seu perfume, me fez perceber o quanto eu estou apegada.
Preferi só curtir o momento a ficar refletindo qualquer coisa que seja.
[...]
Depois de passar um tempão papeando com o Enzo, percebi que passamos muito além do intervalo e cada um correu pro seu campus.
Quando voltei pra sala, a Jade tava me olhando com a cara feia e apontando pro celular.
Desbloqueei a tela e vi umas sete mensagens dela que não foram notificadas pelo não perturbe.
WhatsApp
Jade sala
Jade sala: Cecíliaaaaa 9h36
Jade sala: Professor tá chamando pra apresentar a porra do trabalho
Jade sala: Cadê vocêeeeee?
Jade sala: To em desespero mulher
Jade sala: Te liguei mil vezes já
Jade sala: Vou te bater pqp
Você: AMIGA QUE TRABALHO? 9h53
Você: Eu não lembro, desculpa 😓
Você: Nem lembro que trabalho é esse que o desocupado passou
Jade sala: Sua sorte é que eu inventei uma desculpa e ele deixou a gente apresentar no final da aula
Sentei no meu lugar, com um alívio imenso de tudo ter dado certo.
Agora é só esperar o professor chamar a gente no final da aula.
Voltei a minha atenção pra aula, que eu já tinha feito o favor de perder alguns bons minutos, e fiz minhas anotações.
A hora passou voando, quase na velocidade da luz, e chegou o momento da gente apresentar mais um dos quinhentos trabalhos que esses professores passam.
— Tá melhor, Cecilia? - O professor veio perguntar diretamente pra mim e eu olhei disfarçadamente pra Jade, que balançou a cabeça atrás dele.
— Estou sim, professor. - Respondi com um sorrisinho simples e ele afirmou com a cabeça, pedindo pra nós começarmos a apresentar o trabalho.
Foi super tranquilo apresentar, como sempre. Só fiquei um pouco perdida de início, não lembrando do que se tratava, provavelmente por eu ter viajado esse fim de semana e ter me desligado da minha vida aqui.
Terminamos de apresentar e o professor liberou a turma toda.
— Nossa, Cecília. Por pouco você não apanha hoje, em. - Jade falou com um tom ameaçador enquanto eu guardava minhas coisas.
— Ainda bem que você é uma mulher capacitada pra lidar com os desafios que a vida te impõe. - Falei sorrindo com os olhos quase fechados e ela riu.
— Não vem querer me bajular agora não, que na hora do aperto te xinguei todinha. - Falou mexendo no celular e eu peguei minha bolsa — Posso saber aonde você tava na hora do meu desespero?
— Pode. - Respondi rindo e fui andando pra fora da sala com ela me seguindo — Tava conversando com o Enzo.
Ela foi começar com as gracinhas dela e eu já cortei rindo.
— Nem vem zuar, que o assunto foi sério. - Apontei o dedo na direção dela.
— Ainda sobre aquela briga de vocês? - Perguntou chocada.
— Sim, era ciúmes. Acredita? - Respondi negando com a cabeça.
— Acredito, bem coisa de homem ficar com ciúmes e se afastar do nada. - Concordou.
Conversamos sobre isso até o estacionamento, onde nos despedimos e cada uma seguiu com o seu rumo.
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Aquela Pessoa
Teen FictionEm um dia comum no estacionamento da faculdade, um acidente inusitado une os caminhos de duas pessoas que, até então, eram completos estranhos. O impacto do encontro vai muito além dos carros amassados: suas vidas começam a se entrelaçar de maneira...
