Cecília Albuquerque
Passei a noite toda chorando? Passei. Mas, vou levantar e fingir que não me abalou.
Tomei um banho demorado e passei uma maquiagem mais elaborada pra disfarçar essa cara de choro.
Tomei um café rápido e fui pra faculdade na intenção de chegar mais cedo e contar sobre o término pra Amanda.
— Oi, amiga. - Cumprimentei ela sorrindo fraco.
— Felipe já me contou tudo. - Foi direta e eu assenti, já esperando por isso — Tem certeza que foi o certo a se fazer?
— Eu não fiz nada, quem terminou foi ele. - Respondi encarando minha mão, sentindo falta da aliança no meu dedo.
— Acho que vocês agiram de cabeça quente. - Ela falou me encarando.
— No caso ele, né. - Corrigi e ela me olhou de cara feia — Ué, o que eu fiz?
— Escondeu coisa do Enzo sabendo que ele detesta isso. - Ela argumentou e eu revirei os olhos — Amiga, eu lembro o tanto que vocês brigavam no primeiro ano de namoro por causa das coisas que você escondia.
— Mas eu nunca escondi nada com uma intenção ruim. - Me defendi — Pelo contrário, sempre quis evitar confusão.
— E alguma vez adiantou? - Ela perguntou sincera — Porque pelo o que eu vi, todas as vezes que você escondeu algo sempre deu confusão.
— Tá, já passou. - Mudei de assunto — To cansada disso. Ele fez a escolha dele e eu vou respeitar.
— Agora o grupo não vai ser o mesmo. - Amanda resmungou jogando a cabeça pra trás.
— Claro que vai, a amizade continua. - Menti, sabendo que alguma hora esse término ia interferir no nosso grupo.
— Me engana que eu gosto. - Ela falou piscando pra mim — Os meninos tão vindo.
Continuei do mesmo jeito que eu tava, tentando agir naturalmente.
— E aí. - O Felipe chegou cumprimentando a Amanda e o Enzo sentou do meu lado, como sempre sentava.
Ficou um silêncio chato, mas eu sabia que o Felipe ia falar algo a qualquer momento.
— Dá pra vocês dois fingirem que ainda podem ser amigos? - Felipe perguntou direto.
Olhei pro Enzo e dei um sorriso forçado.
— Vou pra sala. - O Enzo falou levantando e saindo.
— Vai atrás dele. - O Felipe falou me olhando.
— Gente, quando vocês vão entender que ele terminou comigo? - Perguntei sem paciência — Não vou ir atrás dele coisa nenhuma.
Também levantei e fui em direção ao meu campus.
— Eita, que sorte a minha esbarrar com você. - O Fábio interrompeu meu trajeto.
— Vai começar cedo, Fábio? - Perguntei sem saco pra aturar ele.
— Nossa, calma. - Ele falou franzindo a testa — Por que você tá sem a aliança? Terminou?
— Não tenho que te explicar nada. - Respondi ignorando ele e seguindo meu caminho.
Fui pra sala, assisti as aulas e voltei rápido pra casa na intenção de fazer tudo correndo pra não atrasar pro estágio.
O meu dia no estágio foi muito bom, agora sim trabalhando de verdade, longe de qualquer café.
Toda vez que eu lembro dessa maluca da Jade mentindo sobre o café, sobe uma raiva absurda.
Faltava meia hora pro meu expediente acabar e eu já tinha finalizado tudo que tinha que ser feito.
Vi alguém entrando na clínica e reconheci o jaleco, era o Enzo.
Será que ele se arrependeu de ter terminado e veio fazer as pazes?
— Oi. - O Enzo se aproximou do computador que eu tava e tive que segurar o sorriso que queria surgir.
— Oi. - Respondi no mesmo tom e fiquei encarando, esperando ele dizer algo.
— Eu vim te dar isso aqui. - Ele me entregou uma caixa relativamente grande — Eu até pensei que te entregar no seu estágio não seria o melhor lugar, mas é o único horário que tenho.
— Que isso? - Perguntei abrindo a caixa — Minhas coisas?
— Sim, suas coisas. - Concordou — Tinha muita coisa sua lá em casa, achei que eu precisava te devolver.
Olhei pros olhos dele e ele retribui o contato visual.
Não consegui ver nenhum sentimento no olhar dele, nem de raiva e nem de arrependimento.
Parecia que ele tava firme com a decisão tomada.
— Obrigada. - Engoli toda a minha vontade de chorar e agradeci — Assim que der, te entrego suas coisas também.
— Tá certo. - Falou assentindo e foi se afastar, esbarrando na minha chefe sem querer.
— Mãe? - O Enzo perguntou desacreditado.
— Filho? - A Vanuza perguntou com a voz de choro, começando a se emocionar.
Puta que pariu, a Vanuza é a mãe do Enzo?
Tudo bem que às vezes eu olhava pra ela e por algum motivo algo me lembrava ele... Acho que os olhos.
O Enzo não falou nada, só saiu da clínica, deixando a Vanuza pra trás.
— Você é a minha nora? - Ela perguntou sem graça, limpando a lágrima.
— Até ontem sim. - Respondi respirando fundo, colocando a caixa que o Enzo trouxe no chão.
— Se quiser conversar sobre isso. - Ela falou simpática e eu neguei.
— Não precisa, mas muito obrigada pela disposição. - Respondi educada e ela concordou.
— Já terminou de digitalizar tudo? - Ela perguntou e eu assenti — Pode ir pra casa mais cedo.
— Tá bem, muito obrigada. - Agradeci totalmente feliz por sair mais cedo, mas meu sorriso se desmanchou quando esbarrei na caixa ao meu lado.
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Aquela Pessoa
Teen FictionEm um dia comum no estacionamento da faculdade, um acidente inusitado une os caminhos de duas pessoas que, até então, eram completos estranhos. O impacto do encontro vai muito além dos carros amassados: suas vidas começam a se entrelaçar de maneira...
