Enzo Martins
Porra, como é bom acordar tarde no domingo. Eu espero a semana toda por isso.
A campainha tocou e eu estranhei, indo colocar uma blusa pra atender.
Olhei pela câmera e vi que era o Felipe, neguei com a cabeça e abri a porta.
— Cara, isso é dia e hora pra aparecer na casa dos outros? - Perguntei.
— Bom dia. - Ele ignorou tudo que eu disse e entrou — Tem café?
— Com certeza, a Flávia sempre faz. - Respondi indo tomar café com ele na cozinha — Qual foi?
— Briguei com a Amanda. - Ele respondeu servindo café pra mim e pra ele — Motivo de sempre, falta de assistência dela na relação.
— Será que não é você que tá cobrando demais? - Perguntei e ele me olhou chocado — Porra, só uma hipótese.
— Cara, eu sou ocupado tanto quanto ela e mesmo assim faço questão das coisas. - Ele se defendeu — Não é assim, pô. No relacionamento os dois precisam se esforçar.
— Eu sei, pô. Mas as vezes tá difícil pra ela conciliar tudo. - Falei fazendo meu pão.
— Você tá sugerindo que eu devo terminar? - Ele perguntou arqueando a sobrancelha.
— Claro que não, porra. - Respondi rápido.
— Falando em terminar, achei que ia encontrar a Cecília aqui. - Ele falou rindo — Os dois sumiram ontem da festa, recaíram?
— Não. - Neguei e ele não acreditou — To falando sério, não teve recaída. Só vi ela passando mal ontem e dei carona.
— Bom menino. - Me implicou e eu revirei os olhos — A Amanda me falou que você tava esbarrando nos moleques que chegavam perto da Cecília.
— Que exagero da porra. - Falei inconformado — Esbarrei só em um.
— Porque só um deles teve coragem de chegar nela. - Felipe respondeu o óbvio e eu fechei os olhos com força — Tá doendo sustentar a decisão, parceiro?
— Talvez. - Admiti — Mas já já eu me acostumo, é porque tá muito recente.
— Vocês dois podem pelo menos tentar conviver pacificamente. - O Felipe falou — Se evitaram a semana inteira na faculdade.
— Vamos dar tempo ao tempo, pô. Você é muito agoniado. - Reclamei.
— Agoniado nada, quero todo mundo de boa no show. - Ele falou naturalmente e eu encarei ele — Porra, falei demais.
— Que show, Felipe? - Perguntei desacreditado, sabendo que vinha coisa pela frente.
— Digamos que eu comprei quatro ingressos pro show do Henrique e Juliano que vai ter no final de semana que vem. - Ele falou segurando o riso.
— Você não fez isso, cara. - Falei largando meu café — Pode vender meu ingresso, eu não vou.
— Não dá, o ingresso já tá vinculado ao seu cpf. - O Felipe argumentou e eu neguei.
— Vai perder dinheiro. - Falei sério — Eu não vou. O que eu vou fazer no show do Henrique e Juliano com a minha ex? Ficou louco?
— Recair? - Ele sugeriu e eu joguei nele a primeira coisa que minha mão alcançou.
— Não vai ter recaída nenhuma, porra. - Falei firme e ele fez cara de quem não acredita no que eu to falando.
O Felipe passou boa parte do domingo na minha casa e depois precisou resolver alguma coisa pra mãe dele.
Tomei um banho e saí do meu banheiro com uma toalha enrolada na cintura.
Vi a porta do meu quarto abrir e a Cecília entrar com uma caixa na mão.
— Meu Deus. - Ela falou desviando o olho, por eu estar só de toalha — A Flávia me deixou subir, eu não sabia que você tava no banho.
— Não precisa agir assim. - Falei olhando pra ela, que me olhou de volta — Você era acostumada a me ver todo dia sem essa toalha.
— Mas agora é diferente. - Argumentou — Não somos mais um casal.
— O que veio fazer aqui? - Perguntei normal, sem ser grosso.
Tirei a toalha e me troquei na frente dela, sentindo o olhar dela sobre o meu corpo.
— Eu vim... - Falou desconcentrada — Eu vim trazer suas coisas que ficaram lá em casa e te agradecer por ontem.
— Não precisa agradecer, eu faria isso por qualquer pessoa. - Menti.
— Mentiroso. - Ela respondeu me encarando e eu encarei ela de volta.
Me aproximei involuntariamente, deixando nossos rostos a poucos centímetros de distância.
— Você tá me chamando de que? - Perguntei com a voz mais baixa, sustentando nosso contato visual.
— De mentiroso. - Respondeu firme, sem quebrar o contato.
Segui meu instinto e puxei a Cecília pra mim, iniciando um beijo
Era tudo que eu queria nesses últimos dias, mas não tava sabendo pedir.
O beijo da Cecília é único, nossas bocas se encaixam perfeitamente... Como se fossem feitas uma pra outra.
Ela passou os braços por volta do meu pescoço e eu puxei ela pro meu colo.
Deitei ela na cama, ficando por cima. Ela simplesmente me empurrou e levantou com a respiração ofegante.
— Não, isso é um erro. - Ela respondeu controlando a respiração.
— Você parecia gostar. - Alfinetei e ela me encarou.
— Foi só um deslize, as coisas não funcionam assim. - Ela respondeu séria — Você terminou comigo, você colocou um ponto final.
— Eu... - Fui tentar falar algo, mas ela me interrompeu.
— Não fala mais nada, eu vou embora. - Ela falou abrindo a porta do meu quarto — E por favor, não fica esbarrando nas pessoas que se aproximam de mim de novo. Deixa eu seguir a minha vida.
Ela saiu do quarto, sem nem esperar uma resposta minha.
Essa última frase dela ficou se repetindo na minha cabeça por alguns minutos.
Joguei um travesseiro no chão com raiva. Raiva de mim, raiva da má decisão que eu tomei há uns dias quando terminei com ela.
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Aquela Pessoa
Teen FictionEm um dia comum no estacionamento da faculdade, um acidente inusitado une os caminhos de duas pessoas que, até então, eram completos estranhos. O impacto do encontro vai muito além dos carros amassados: suas vidas começam a se entrelaçar de maneira...
