153

3.1K 237 38
                                        

Enzo Martins

    Fazia mais de uma hora que eu e a Cecília estávamos trancados na casa da Amanda.

    Trocamos poucas palavras, mal nos olhamos.

— Que barulho foi esse? - A Cecília perguntou me olhando.

—  Minha barriga. - Respondi suspirando - To verde de fome já.

— A Amanda pediu pra eu trazer doritos. - A
Cecília tirou o salgadinho da sacola e me entregou.

— Como eles foram generosos. - Ironizei pegando o pacote - Felipe falou pra eu trazer vinho.

— Pode guardar o vinho, que eu vou quebrar na cabeça dele. - Ela respondeu me fazendo rir fraco.

    Coloquei o primeiro salgadinho na boca e fechei os olhos parecendo que tava saboreando a comida mais gostosa do mundo.

    Me toquei que eu tava comendo o salgadinho da Cecília sozinho e sentei do lado dela pra dividir.

    Ela não falou nada, só começou a comer.

    Nossas mãos se encostaram no pacote e a gente se encarou.

    Ela tirou a mão rápido, na velocidade da luz.

— A gente não precisa ficar assim. - Falei quebrando o silêncio.

— Discordo. - Respondeu sincera — Tá cada um na sua, o que tem de demais?

— O que tem de demais? - Ironizei soltando um riso — A gente tá agindo tão mal que nossos amigos literalmente trancaram a gente em uma sala pra nos resolvermos.

— Não tem o que resolver. - Teimou — O que tá feito, tá feito.

— Acho que a gente podia lidar com isso melhor. - Falei comendo o último salgadinho do pacote.

— Não tem como lidar com isso melhor. - Ela foi sincera — Só se virarmos amigos.

    Quando ela falou isso minha boca ficou seca, eu comecei a coçar meu pescoço.

— Então é melhor deixar as coisas como estão. - Respondi respirando fundo.

— Por quê? - Perguntou me olhando confusa — Não era você que tava tentando resolver tudo há segundos?

— Porque eu não consigo ser seu amigo. - Respondi rápido e ela me encarou — Não dá.

    Ela respirou fundo e ficamos em silêncio por mais alguns segundos.

— Também não consigo ser sua amiga. - Admitiu.

— Só acho que se a gente não melhorar, o grupo vai acabar. - Fui específico.

— Sua preocupação é o grupo e não a gente? - Ela perguntou me olhando.

— Não tem mais a gente. - Respondi no automático e depois me arrependi — Pera, não foi bem isso que eu quis dizer.

— Tanto faz. - Respondeu chateada negando com a cabeça — E em relação ao grupo, a culpa não é só nossa. O Felipe e a Amanda não param de brigar.

— É, ele tá boladão com ela. - Defendi o Felipe.

— E ela tá chateada com o excesso de cobranças dele. - Defendeu a Amanda — Ele tinha que ser mais compreensivo com ela.

— Ah... claro. - Respondi — Compreensão, né? Ele vai compreender pra ela continuar dando os mesmos vacilos de sempre?

— Isso é sobre eles ou sobre nós dois, Enzo? - Perguntou direta.

— Agora a gente vai brigar por causa deles? - Perguntei rindo e ela revirou levemente os olhos.

— Não to brigando. - Mentiu jogando o cabelo pra trás.

    Voltamos a ficar em silêncio novamente.

— Vamos ficar de boa? - Quebrei o silêncio, tentando resolver a situação mais uma vez.

— Eu to de boa, ué. - Respondeu desconversando.

— Você revira os olhos a cada frase que direciona a mim. - Contestei e ela revirou os olhos — Viu?

— Eu tenho direito de estar assim com você. - Ela falou me encarando — Não sei se esqueceu, mas você que terminou comigo. Acha que eu vou te tratar como se nada tivesse acontecido?

— Você sabe muito bem porque eu terminei. - Falei começando a me estressar.

— Achei muito radical sua decisão, não precisava de tanto. - Contrariou.

— Claro que precisava, pô. Falei contigo desde o início que não gostava quando você me escondia as coisas. - Relembrei — E pelo visto não adiantou nada.

— Você nem me ouviu, nem deixou eu me explicar. - Ela brigou.

— Porque não precisa, Cecília. - Comecei a brigar também — Você além de esconder as coisas mais uma vez, ainda mentiu pra mim.

— Quando que eu menti? - Perguntou virando pra mim.

— Quando eu te perguntei naquele domingo se você passou em algum lugar antes de ir lá pra casa. - Respondi — Você disse que não, sendo que tinha ido encontrar o Guilherme.

— É sempre sobre o Guilherme. - Reclamou — Você não confia em mim.

— Não é sobre o Guilherme, é sobre você. - Falei sem paciência — E outra, não confio mesmo. Não confio em pessoas que ficam me escondendo as coisas.

— Então ótimo, Enzo. Ainda bem que terminamos. - Ela falou me olhando com raiva.

    O Felipe e a Amanda destrancaram a porta e nós dois levantamos.

— Porra, moleque. A gente fazendo de tudo pra vocês se resolverem e começamos a escutar a briga. - Felipe falou se aproximando da gente.

— Eu falei que não era uma boa ideia. - A Amanda falou enquanto fechava a porta.

— Que ideia idiota de vocês dois. - Falei puto — Ninguém aqui tá mais na escola não, caralho.

— Pelo amor, que infantilidade de vocês. - A Cecília falou pegando a bolsa e saindo da casa.

    Olhei pro Felipe e pra Amanda negando com a cabeça, saindo logo atrás da Cecília.

Aquela PessoaOnde histórias criam vida. Descubra agora