Enzo Martins
Fazia mais de uma hora que eu e a Cecília estávamos trancados na casa da Amanda.
Trocamos poucas palavras, mal nos olhamos.
— Que barulho foi esse? - A Cecília perguntou me olhando.
— Minha barriga. - Respondi suspirando - To verde de fome já.
— A Amanda pediu pra eu trazer doritos. - A
Cecília tirou o salgadinho da sacola e me entregou.
— Como eles foram generosos. - Ironizei pegando o pacote - Felipe falou pra eu trazer vinho.
— Pode guardar o vinho, que eu vou quebrar na cabeça dele. - Ela respondeu me fazendo rir fraco.
Coloquei o primeiro salgadinho na boca e fechei os olhos parecendo que tava saboreando a comida mais gostosa do mundo.
Me toquei que eu tava comendo o salgadinho da Cecília sozinho e sentei do lado dela pra dividir.
Ela não falou nada, só começou a comer.
Nossas mãos se encostaram no pacote e a gente se encarou.
Ela tirou a mão rápido, na velocidade da luz.
— A gente não precisa ficar assim. - Falei quebrando o silêncio.
— Discordo. - Respondeu sincera — Tá cada um na sua, o que tem de demais?
— O que tem de demais? - Ironizei soltando um riso — A gente tá agindo tão mal que nossos amigos literalmente trancaram a gente em uma sala pra nos resolvermos.
— Não tem o que resolver. - Teimou — O que tá feito, tá feito.
— Acho que a gente podia lidar com isso melhor. - Falei comendo o último salgadinho do pacote.
— Não tem como lidar com isso melhor. - Ela foi sincera — Só se virarmos amigos.
Quando ela falou isso minha boca ficou seca, eu comecei a coçar meu pescoço.
— Então é melhor deixar as coisas como estão. - Respondi respirando fundo.
— Por quê? - Perguntou me olhando confusa — Não era você que tava tentando resolver tudo há segundos?
— Porque eu não consigo ser seu amigo. - Respondi rápido e ela me encarou — Não dá.
Ela respirou fundo e ficamos em silêncio por mais alguns segundos.
— Também não consigo ser sua amiga. - Admitiu.
— Só acho que se a gente não melhorar, o grupo vai acabar. - Fui específico.
— Sua preocupação é o grupo e não a gente? - Ela perguntou me olhando.
— Não tem mais a gente. - Respondi no automático e depois me arrependi — Pera, não foi bem isso que eu quis dizer.
— Tanto faz. - Respondeu chateada negando com a cabeça — E em relação ao grupo, a culpa não é só nossa. O Felipe e a Amanda não param de brigar.
— É, ele tá boladão com ela. - Defendi o Felipe.
— E ela tá chateada com o excesso de cobranças dele. - Defendeu a Amanda — Ele tinha que ser mais compreensivo com ela.
— Ah... claro. - Respondi — Compreensão, né? Ele vai compreender pra ela continuar dando os mesmos vacilos de sempre?
— Isso é sobre eles ou sobre nós dois, Enzo? - Perguntou direta.
— Agora a gente vai brigar por causa deles? - Perguntei rindo e ela revirou levemente os olhos.
— Não to brigando. - Mentiu jogando o cabelo pra trás.
Voltamos a ficar em silêncio novamente.
— Vamos ficar de boa? - Quebrei o silêncio, tentando resolver a situação mais uma vez.
— Eu to de boa, ué. - Respondeu desconversando.
— Você revira os olhos a cada frase que direciona a mim. - Contestei e ela revirou os olhos — Viu?
— Eu tenho direito de estar assim com você. - Ela falou me encarando — Não sei se esqueceu, mas você que terminou comigo. Acha que eu vou te tratar como se nada tivesse acontecido?
— Você sabe muito bem porque eu terminei. - Falei começando a me estressar.
— Achei muito radical sua decisão, não precisava de tanto. - Contrariou.
— Claro que precisava, pô. Falei contigo desde o início que não gostava quando você me escondia as coisas. - Relembrei — E pelo visto não adiantou nada.
— Você nem me ouviu, nem deixou eu me explicar. - Ela brigou.
— Porque não precisa, Cecília. - Comecei a brigar também — Você além de esconder as coisas mais uma vez, ainda mentiu pra mim.
— Quando que eu menti? - Perguntou virando pra mim.
— Quando eu te perguntei naquele domingo se você passou em algum lugar antes de ir lá pra casa. - Respondi — Você disse que não, sendo que tinha ido encontrar o Guilherme.
— É sempre sobre o Guilherme. - Reclamou — Você não confia em mim.
— Não é sobre o Guilherme, é sobre você. - Falei sem paciência — E outra, não confio mesmo. Não confio em pessoas que ficam me escondendo as coisas.
— Então ótimo, Enzo. Ainda bem que terminamos. - Ela falou me olhando com raiva.
O Felipe e a Amanda destrancaram a porta e nós dois levantamos.
— Porra, moleque. A gente fazendo de tudo pra vocês se resolverem e começamos a escutar a briga. - Felipe falou se aproximando da gente.
— Eu falei que não era uma boa ideia. - A Amanda falou enquanto fechava a porta.
— Que ideia idiota de vocês dois. - Falei puto — Ninguém aqui tá mais na escola não, caralho.
— Pelo amor, que infantilidade de vocês. - A Cecília falou pegando a bolsa e saindo da casa.
Olhei pro Felipe e pra Amanda negando com a cabeça, saindo logo atrás da Cecília.
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Aquela Pessoa
Novela JuvenilEm um dia comum no estacionamento da faculdade, um acidente inusitado une os caminhos de duas pessoas que, até então, eram completos estranhos. O impacto do encontro vai muito além dos carros amassados: suas vidas começam a se entrelaçar de maneira...
