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Enzo Martins

Despertador tocou e já bateu aquele desânimo de saber que vai começar tudo de novo.

Como não enrolei na cama e fui direto pro banho, pude tomar café com calma.

Hoje tava um tempo chuvoso, muita chuva e muito frio.

— Lara, pede pra Flávia pegar um casaco pra você. - Falei e ela concordou indo atrás da Flávia.

Lembrei que hoje era aula prática e já fui pegar o jaleco. Dei sorte de ter lembrado antes de sair de casa.

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Felipe viado 🦌
Você: Bom dia caralho 7h33
Você: Hoje é prática mlk
Você: Vê se não esquece o jaleco fdp
Felipe viado 🦌: Tudo certo pai✌🏻 7h36
Felipe viado 🦌: Já deixo no carro pra não ter erro pô

— Pronto, irmão. - Lara disse de casaco e mochila nas costas — Vamos?

— Vamos. - Falei dando um beijo na cabeça dela e indo em direção ao carro.

Deixei a Lara na escola e fui pra faculdade.

Encostei na lanchonete, vendo o Felipe mexendo no celular em uma mesa afastada.

— E aí, viado. - Falei sentando com ele — Não tinha uma mesa mais perto da civilização não?

— Enche o saco agora não, porra. - Brigou e eu ri — 8h da manhã, um frio do caralho e ainda tu vem querer tirar onda?

— Tá muito nervosinho, pô. - Impliquei ele.

— Nervosinho é meu p... - Parou de falar e eu olhei pra trás, vendo a Amanda se aproximando.

— E aí, lindos. - Ela falou cumprimentando a gente.

— Fala com o Felipe não, que o bicho tá atacado hoje. - Falei com a Amanda e o Felipe me chutou.

— Deixa o pobre coitado, Enzo. Deve ser tpm, super entendo ele. - Amanda entrou na onda.

— Eu perdi a moral mesmo, né? - Felipe perguntou desacreditado, fazendo a gente rir — Dois desocupados, puta que pariu.

— Nunca nem teve moral e mete essa. - Perturbei mais ele.

— E a Cecília? - Ele perguntou pra Amanda, me olhando, e eu parei de rir — Vem hoje?

— Vem.  A vida boa dela durou só três dias. - Amanda respondeu — Agora vai ser gente como a gente.

— Acho que ela não quer se igualar não. - Felipe disse rindo — Cadê ela aqui cedo?

— Não é estranho ela atrasar, né. - Amanda falou olhando as horas — Deve tá em negação de não estar mais na praia.

    Deu o horário da gente ir pra aula e nos despedimos da Amanda.

— Moleque, eu tô com uma preguiça da porra dessa aula prática. - Falou bocejando enquanto íamos pra sala laboratorial — Por mim eu dormiria o dia todo com esse tempo.

— Faz isso mesmo, pô. Pra daqui 4 anos se formar e não saber o que fazer no dente dos outros. - Respondi e ele me deu um tapão.

— Até parece, pô. Vou ser o dentista mais gostoso que existe. - Disse todo garantido e eu olhei pra ele com cara de tédio.

— Quero ver se vai se formar, do jeito que tu tá indo não consegue nem o diploma. - Foi só eu falar isso que ele me olhou incrédulo.

— Hoje tu acordou todo engraçadinho, né... filho da puta. - Falou assentindo com a cabeça — O nome do seu bom humor é Cecília?

— Começou... tu não perde uma. - Empurrei ele pelo ombro.

Chegamos na sala e já vestimos nossos jalecos. Tirei o meu relógio e entreguei pro Felipe guardar na mochila dele que tava mais perto.

Colocamos as luvas e começamos a fazer os procedimentos, que o professor tava ensinando, nos nossos bonecos.

— Muito bom, rapazes. - O professor passou olhando como estava o procedimento de cada dupla — É isso aí mesmo.

— Que milagre a gente receber um elogio. - Felipe falou quando o professor saiu — Ultimamente até de castigo ficamos nessa porra.

— Fiquei de castigo igual menino de escola por tua culpa, arrombado. - Falei com raiva, me lembrando do dia.

[...]

A luz caiu, provavelmente por causa da chuva e o professor liberou a gente mais cedo pro intervalo.

— Parece piada acabar a luz na USP. - Felipe falou rindo e eu concordei.

— Caralho, olha a chuva. - Falei vendo a tora que tava caindo — Nem fudendo que eu ando isso tudo pra chegar na lanchonete.

— Tu é feito de açúcar, parceiro? - Foi irônico.

— Então vai lá, pô. - Cruzei os braços — Vai lá na lanchonete de baixo dessa chuva.

— Só não vou porque eu não quero. - Falou todo sonso, me fazendo rir da cara de pau desse moleque — Vou ali na Amanda, já volto.

Felipe foi até a Amanda e eu fiquei mexendo no celular esperando a chuva passar um pouco pra conseguir ir até a lanchonete.

Guardei o celular no bolso quando vi mais alunos se aproximando e de longe vi uma loira parecendo a Cecília.

Me aproximei com o coração um pouco acelerado e tive a certeza pela pulseira que ela sempre usava.

Ela tava distraída no celular, então obviamente se assustou quando eu toquei em suas costas.

Nossa, que susto. - Falou quando me viu.

— Foi mal, não foi a intenção. - Falei dando um sorrisinho de canto — Como foi lá no Rio?

— Foi muito bom, graças a Deus. E por aqui, tudo certo? - Perguntou me olhando nos olhos, guardando o celular.

— Sim, tudo tranquilo também. - Respondi e ela concordou com a cabeça.

Ficamos um tempo em silêncio, apenas nos olhando.

— Tô te devendo uma coisa. - Falei quebrando o silêncio e ela parou pra pensar um pouco.

— Da última vez que você falou isso, me beijou dentro do seu carro. - Foi sincera quebrando o clima e eu ri.

— Não que eu não queira fazer isso agora, mas tô te devendo outra coisa. - Falei menos tenso — Um pedido de desculpas.

— Tá mesmo. Só que até agora eu não sei o motivo do pedido de desculpas. - Falou firme, jogando o cabelo pra trás.

— Bora conversar em um lugar com menos gente. - Falei sugestivo dando a mão pra ela, que aceitou, saindo comigo em seguida.

Aquela PessoaOnde histórias criam vida. Descubra agora