Enzo Martins
— Cadê a Cecília? - A Lara perguntou enquanto eu levava ela pra escola — To com saudade dela.
Acho que eu pareci um retardado quando a Lara perguntou isso.
Eu queria entender o porquê da criança perguntar só o que não deve.
— Ela tá muito ocupada ultimamente, Lara. - Respondi tentando desviar da conversa.
— Eu quero a Cecília. - Ela falou com voz de choro e eu olhei pelo retrovisor.
Minha irmã de 8 anos chorando com saudade da minha ex... é mole?
— Eu vou falar pra ela ir te ver, Lara. - Falei tentando amenizar a situação e ela foi parando de chorar.
Deixei a Lara na escola e fui pra faculdade.
Consegui chegar cedo hoje e parti direto pra lanchonete.
Felipe já tava lá, numa mesa afastada pra caralho.
— Quase que eu não te vejo, porra. - Falei sentando com ele.
Notei o Felipe abalado, sem o bom humor matinal dele.
— Essa é a intenção. - Falou largando o celular.
— O que a Amanda fez? - Perguntei direto.
— Terminou comigo. - Respondeu me encarando e eu arregalei um pouco os olhos.
Eu não soube o que dizer pra ele, ficamos alguns minutos em silêncio.
— Porra, mano. - Quebrei o silêncio — Acha que é algo temporário ou ela falou sério?
— Ela falou sério. - Ele respondeu — E mesmo se fosse algo temporário, eu não ia querer voltar.
— Será que vocês não vão se resolver? - Perguntei — Tem essa possibilidade.
— Eu não quero. - Ele falou começando a ficar puto — Ela terminou porque quis, não vou querer voltar.
Deu uma coisa na minha garganta quando ele falou isso...
— E como vai ser? Vamos sentar com elas ou vamos sentar em mesas diferentes? - Perguntei sem saber como seria daqui pra frente.
— Enzo, se liga. O nosso grupo acabou. - Ele falou sincero — A única coisa que prendia todos nós depois do teu término com a Cecília era o meu namoro com a Amanda.
— Que ano complicado. - Falei suspirando, jogando a cabeça pra trás.
— E olha que nem começou direito. - Felipe falou negando com a cabeça — Mas vou te falar, depois disso não quero saber de mulher nenhuma na minha vida.
— Porra, muito menos eu. - Concordei — Felipe, acho que tem algo que tu não pensou.
— Impossível, eu sempre penso em tudo. - Ele discordou sem nem saber do que se tratava.
— E o show desse final de semana? - Perguntei e ele foi ficando branco igual fantasma — Você pensou que poderia terminar com a Amanda quando comprou os ingressos querendo juntar eu e a Cecília?
— Puta que pariu. - Ele falou arregalando os olhos, ajeitando a postura — Fudeu cabuloso agora, que porra que eu fui fazer?
Eu comecei a rir da situação que ele se enfiou.
— Porra, que início de dia bom. - Falei parando de rir aos poucos — Foi aprontar e se fudeu.
— E a porra dos ingressos ainda tão vinculados ao cpf, não dá nem pra vender. - Ele falou jogando a cabeça pra trás — Como que tu me deixou fazer isso?
— Eu nem sabia que tu ia comprar esses ingressos, tu fez tudo escondido. - Retruquei.
— Porra, que dia horrível. - Ele falou levantando da mesa e eu estranhei.
Olhei pra direção que ele encarava e era a Amanda chegando na lanchonete.
Ele saiu antes da Amanda se aproximar.
— Como ele tá? - Ela perguntou sentando comigo na mesa.
— O você acha? - Devolvi a pergunta e ela me olhou feio — To sendo sincero, pô.
— Você acha que eu errei? - Ela perguntou me olhando atenta, com um olhar arrependido.
— Tá perguntando mesmo isso pra mim que terminei com a Cecília? - Ironizei e ela riu — Acho que você fez o que achou certo e isso basta.
— Eu não queria continuar levando o relacionamento com a barriga. - Ela se explicou e eu assenti — Tudo virou um caos desde quando eu comecei o estágio.
— É porque o cara queria que você desse conta de tudo igual ele tava fazendo. - Ressaltei o lado do Felipe — Ele tava sobrecarregado pra caralho e ainda sim se esforçava pra fazer vocês dois dar certo.
— Eu sei e não sei como ele dava conta. - Admitiu e eu ri.
— É o Felipe, pô. O maluco não cansa. - Falei e ela riu concordando.
A Cecília se aproximou e sentou com a gente.
— Preciso falar com você. - Falei pra Cecília, que arqueou uma sobrancelha.
— E essa é a minha deixa. - A Amanda falou pegando a bolsa e saindo.
— Não quero brigar, Enzo. Tá muito cedo ainda. - A Cecília falou e eu segurei a risada.
— E agora tem horário pra brigar, pô? - Perguntei e ela me olhou feio — To brincando, também não quero brigar.
— Então diz. - Falou me olhando.
Porra, por alguns segundos eu até esqueci o que ia dizer.
— A Lara. - Comecei a falar e ela passou a me olhar atenta — Ela tá me deixando louco querendo ver você.
A Cecília sorriu e eu me segurei pra não sorrir junto.
— Ela tá bem? - A Cecília perguntou.
— Não, tá dando até febre querendo ver você. - Menti e a Cecília me olhou assustada.
— É tão sério assim? - Ela perguntou e eu assenti — Vou ver se consigo passar na sua casa até domingo.
— Beleza. - Concordei — E obrigado por isso.
— Você sabe que não precisa agradecer. - Ela foi sincera e saiu, provavelmente indo pro campus dela.
Assim que a Cecília saiu, fiz o mesmo.
Hoje eu precisava chegar mais cedo no consultório, porque meu pai viajou e quem vai me supervisionar é um dos dentistas da clínica.
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Aquela Pessoa
Teen FictionEm um dia comum no estacionamento da faculdade, um acidente inusitado une os caminhos de duas pessoas que, até então, eram completos estranhos. O impacto do encontro vai muito além dos carros amassados: suas vidas começam a se entrelaçar de maneira...
