03 de setembro, 2018
Sentada no carro, com a cabeça apoiada contra o vidro, observava o movimento das ruas de Belo Horizonte. Havíamos chegado ao Brasil apenas para uma despedida... de um corpo frio, sem alma. Não havia nada de tranquilizante nisso, ao contrário do que meu pai parecia acreditar.
- S/n! - A voz de Georg soou firme, quase autoritária, arrancando-me dos pensamentos. O carro já estava parado. Enxuguei rapidamente as lágrimas que não cessavam desde a notícia e desci.
Meu pai saiu logo atrás, seguido por Tom, que havia dirigido durante todo o trajeto.
A entrada do cemitério erguia-se diante de mim. O céu nublado e sombrio parecia refletir exatamente o que eu sentia.
- Você está pronta? - Tom murmurou próximo ao meu ouvido, envolvendo minha cintura com a mão. Apenas assenti, respirando fundo.
Ele beijou minha mão antes de dar o primeiro passo rumo ao interior do cemitério. À medida que nos aproximávamos, a multidão vestida de preto e o ar carregado de tristeza tornavam-se mais opressivos. Tudo ali transbordava dor.
Meu português estava enferrujado, mas o suficiente para responder às perguntas das minhas tias... e, principalmente, da minha avó, que certamente estaria devastada.
- Vou esperar aqui. Acho que sua avó não gostaria de me ver. - disse meu pai, parando à sombra de uma árvore.
- Tem certeza, pai? - Georg questionou.
- Sua mãe e eu sempre fomos complicados... desde jovens. A única coisa que realmente funcionou entre nós foram vocês. Brigávamos, terminávamos, voltávamos. Sua avó sempre a acolheu... pode ser que ainda me odeie. - Ele sorriu de canto, quase divertido, como se imaginasse roubar a atenção do velório ao aparecer como o ex inconveniente.
- Você também deveria esperar aqui. - Georg disse, voltando-se para Tom.
- Por quê? - interrompi, contrariada.
- Porque seria estranho um qualquer aparecer. - respondeu, e senti o sangue ferver sob a pele.
- "Estranho qualquer", Georg? Vai se ferrar! - empurrei-o, furiosa.
- Ei... calma. Você pode ir, eu espero com seu pai. Não gosto de enterros. - Tom interveio, segurando meus ombros.
- Tom... - murmurei, sem saber como expressar o misto de raiva e gratidão. Talvez Georg usasse a arrogância para suportar o luto, mas não havia justificativa para tratar Tom daquela forma.
- Vão se despedir. Eu sinto muito por vocês, de verdade. Estarei aqui, para ambos. - disse ele, encarando Georg, que apenas revirou os olhos.
Após alguns segundos, segui com meu irmão para a cerimônia. O caixão estava fechado. A incerteza corroía: teria o corpo resistido à queda? Teria explodido, queimado? Ninguém falara nada. Como acreditar que ali dentro repousava minha mãe, doce e generosa como sempre fora?
Parentes nos acolheram. Um pastor recitou palavras bonitas sobre ela, mas tudo soava distante.
Mamãe... eu te odiei, mesmo sem querer. Admirei e odiei seu trabalho ao mesmo tempo. Só queria que tivesse me perdoado antes de partir.
(...)
- Está bem, querida? - a voz trêmula de minha avó me alcançou. O enterro já terminara havia mais de uma hora, mas eu permanecia diante do túmulo.
- Oi, vovó... só pensando. - respondi, a exaustão consumindo-me, enquanto a culpa me corroía por dentro.
- Aquele rapaz perto do seu pai... é seu namorado? - perguntou, esboçando um sorriso suave, apesar da dor estampada em seus olhos.
- É sim. O nome dele é Tom. - Olhei em sua direção; mesmo à distância, percebia o quanto me observava.
- Diferente do seu pai, ele parece disposto a protegê-la de tudo. Não tirou os olhos de você desde que chegaram. - comentou, acariciando meu rosto.
- Pois é... que sorte a minha. - suspirei.
- Vai passar, minha querida. O vazio, a dor... não se preocupe. Esse rapaz vai curar você. - disse, fitando-me com ternura.
- Não sei... talvez nunca me cure. Mas vou aprender a suportar. A senhora é forte, vovó. Vai encontrar de novo a felicidade que a vida arrancou. - Beijei sua bochecha com carinho.
- Você se tornou uma linda mulher. Continue florescendo, minha querida Boo. - uma lágrima deslizou pelo rosto dela.
Provavelmente via minha mãe em mim. O estilo, o semblante, até o olhar... Éramos reflexos, e talvez isso causasse nela ainda mais dor.
(...)
- Trouxe macarrão. - Tom anunciou, entrando no quarto.
- Não estou com fome. - respondi, sem desviar os olhos da parede.
- Você não come nada desde ontem. - insistiu. Ouvi a porta se fechar, e quando me virei, ele já se aproximava.
- Não tenho resposta... simplesmente não quero comer.
- Só um pouco, por favor. - disse, enrolando o macarrão no garfo. Sentei-me e provei a pequena porção que ele guiou até minha boca. O sabor me arrancou quase um gemido.
- Delicioso. - murmurei, limpando a boca com a ponta dos dedos.
- Uma garfada? Sério? - ele exclamou, incrédulo. Serviu-me mais, mas lágrimas ameaçaram cair.
- Ok... não precisa me alimentar como um bebê. Vou comer. - Peguei o prato de suas mãos. Ele sorriu satisfeito e beijou minha testa.
- Vou ver se seu irmão precisa de algo e volto em dez minutos. - afirmou, saindo. Mesmo com toda a hostilidade de Georg, ainda tentava ajudá-lo.
Onde estivera escondido esse Tom atencioso, disposto a suportar tudo em silêncio?
(...)
Foram os piores dias da minha vida - e ainda estavam sendo. Hoje, dia cinco, voltaríamos à Alemanha. Tom me dera espaço para sentir a perda, mas nunca me deixou só. Em cada noite de choro, ele permaneceu ao meu lado.
Sem ele, eu já teria desmoronado.
Georg continuava a ignorá-lo, mas sabia que cedo ou tarde cederia. Não era apenas birra por minha causa, havia mais ali.
- Bill ligou. Quer preparar uma surpresa de boas-vindas para vocês. - disse Tom, guardando o celular no bolso.
- Você acabou de estragar, não acha? - retruquei, fechando a mala.
- Não me parece uma boa ideia... vocês não estão voltando de férias. - ponderou, pegando a mala.
- Você conhece o Bill melhor que eu. Essa é a forma dele demonstrar pêsames e tentar amenizar a dor. - respondi, seguindo-o até o carro.
- E justamente por isso temo que ele diga ou faça algo inadequado. - retrucou, guardando a bagagem.
- Só quero descansar. Quero chegar em casa e me deitar. A viagem será longa. - suspirei, sentindo o nó na garganta sempre que lembrava da mamãe.
- Não acha que se trancar no quarto pode ser pior? - perguntou, o olhar repleto de preocupação.
- Do que tem medo agora? Faz só três dias... é normal sentir essa dor, Tom. - resmunguei, entrando no carro e batendo a porta. Ele apoiou-se na janela, com um sorriso doce.
- Eu só perguntei. Se o quarto ajuda, eu entendo. - disse, beijando minha bochecha antes de entrar.
Seguimos para o aeroporto e de lá para casa. Uma viagem longa, na qual dormi quase todo o percurso. Só despertei para o jantar, e ainda assim deixei metade do prato.
Dormir era a única forma de tornar a dor suportável. Nos sonhos, ela ainda estava viva.
Dormir era a única maneira de enganar o vazio que me devorava.
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A irmã do meu melhor amigo -Tom kaulitz
Fanfic🍒HISTÓRIA FINALIZADA🍒 Aos 16 anos, S/N vê sua vida mudar por completo. Irmã gêmea de Georg Listing, ela foi criada pela mãe no Brasil, enquanto o irmão cresceu na Alemanha ao lado do pai. Agora, forçada a conviver sob o mesmo teto que Georg, a con...
