Continuar ou correr

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Beneditt fechou os olhos por alguns instantes. Respirou fundo. Detestava os minérios azuis do galpão de ensaio que Seimor alugava. Mesmo que a banda tocasse de dia, com a porta aberta, a cor se espalhava pelo local como tinta infecciosa.

Sentado atrás da bateria, observava Leila dedilhar melodia arisca, ainda que lúdica, na guitarra a tira-colo. Aumentava a velocidade a cada repetição, olhando para as cordas enquanto tocava; o rosto sério, focado, de lábios duros. Azul.

Leo ancorava-se em uma coluna de corvônia conversando com Mumba, o assistente de som. Gesticulava demais em contraste com os silenciosos olhares do homem de roupas simples e o sempre presente gorro. Dessa vez, um gorro azul.

A porta abriu-se e fechou-se num estrondo logo depois. Fjor entrava no galpão bocejando, desfilando em direção ao baixo.

Leo respirou fundo e pediu desculpas --- ou teria agradecido? --- a Mumba. Agarrou o irmão pelo braço, quase derrubando-o quando ele começava a se abaixar para pegar o instrumento.

--- Você prometeu que ia chegar na hora dessa vez, Fjor.

--- Foi só uns minutos, Leo...

Fjor combinava com malícia o sono de quem acaba de acordar com a atitude de não dar a mínima para nada. Beneditt desviou o olhar até Leo recuperar o minério de som no chão e explicar o que ele queria para a próxima música.

A bateria perderia proeminência; mudaria a velocidade, ficaria mais "mínima". Era o tipo de direção que Leo, tendo absorvido o espírito das instruções de Seimor, dava num tom de visionário. Beneditt chamava a mudança por outro nome: a bateria ficou mais previsível.

Leila assumiria os vocais, e Fjor... Fjor faria o que quisesse, independente do que Leo lhe dissesse, até que Seimor aparecesse e o baixista resolvesse tocar conforme as expectativas do agente para não ouvir reclamações depois.

Praticaram a mesma música dezenas de vezes. Seimor chegou quando começavam a fazer o ciclo de rotina em que repassavam, no fim do ensaio, as outras músicas que tinham desmembrado nas sessões anteriores.

Beneditt perdeu-se em pensamentos. Suas baquetas percorriam os tambores e pratos como antes --- o som enchia o galpão, mas ele não estava realmente ali. Fazia seu papel tanto quanto Fjor. Ao mesmo tempo, Leila fingia que gostava de cantar. E Leo fingia estar feliz.

"Como é que isso foi acontecer?"

Quando terminaram, Leila e Fjor foram os primeiros a sair. Só não foram mais rápidos porque ainda amavam os próprios instrumentos e não os deixariam no chão de qualquer jeito só para ganhar alguns segundos na corrida para longe de tudo e todos.

Mumba foi cuidar dos instrumentos. Leo foi ajudá-lo; não precisava fazer isso, e Beneditt calculou que ele devia estar esperando alguma coisa daquela amizade.

Seimor ficou sozinho, como Beneditt queria.

O plano era louco, mas nada complexo. E ele o ensaiava há dois dias. O número de vezes que o adiara deveriam tê-lo preparado, deixá-lo mais à vontade com a ideia mas, no fim das contas, eram só evidência da dificuldade de colocá-lo em prática.

Seimor olhou em silêncio para o músico.

--- O que foi?

--- Seimor, eu... --- Hesitou ele, quase de forma calculada. --- Eu entendo que você está investindo muito na gente. Obrigado.

--- O que você quer?

Beneditt podia sentir a sobrancelha do agente subindo, mesmo que ela estivesse no mesmo lugar.

A Guerra da UniãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora