Não se podia saber quais dos magos que compunham a mesa o faziam porque Desmodes os obrigava ou porque realmente queriam estar ali. Moviam os olhos e o pescoço livremente, e certamente havia muito o que olhar no mapa que cobria o centro da longa mesa, cheio de marcas de territórios, tropas e batalhas previstas; não podiam, contudo, falar, mexer os dedos das mãos ou mesmo levantar as sobrancelhas.
Seis cidades não estavam sob controle do Conselho: Inasi-u-een e Novo-u-joss ao norte; Ia-u-jambu, Al-u-een e Roun-u-joss no centro e no Sudeste, e Kor-u-een a sudoeste. Jinsel e Dun-u-dengo atacavam Inasi-u-een pelo mar e por terra e, caso tivessem sucesso --- algo que o Conselho ainda desconhecia naquele momento --- logo cuidariam também de Novo-u-joss. As forças de Imiorina e Rirn-u-jir juntas em Enr-u-jir já marchavam para um ataque decisivo contra Ia-u-jambu. Kerlz-u-een deveria lidar com o que restava de Kor-u-een e, por fim, as tropas do Norte que já haviam reconquistado Karment-u-een desceriam um ataque final a Al-u-een e a Roun-u-joss.
Desmodes provavelmente gostava de poder dispensar todos os magos sem usar a voz --- já era o terceiro dia em que, assim que ele decidisse que não havia mais nada que os outros precisassem saber, levantavam-se todos, sem aviso, formando uma fila rumo aos aposentos próprios. Seus quartos eram espaços de liberdade: Kan percebia, pelo movimento dos castelos em Neborum quando passava por perto de um, que lá todos andavam muito de um lado para o outro, ainda dominados por Desmodes.
--- É curioso... --- Disse Kan, fazendo Desmodes interromper sua saída da sala. --- Você não me controla.
--- Não é necessário.
--- Ou não pode? Ou... Não deve?
Desmodes virou-se por completo para ele. Viu Lato-u-nau sentado à mesa no lugar que já fora seu, com as mãos enluvadas reunidas para encobrir o rosto.
--- Por que não o mata logo, Desmodes? É tão simples...
--- Com quem você fala quando estamos sozinhos e não é comigo?
--- Não diga mais nada. --- Ordenou Desmodes.
--- E se eu disser? --- Desafiou Kan.
Lato-u-nau riu, engasgado.
--- VÊ, Desmodes? Não vê como é preciso matá-lo? Pelo menos, pelo menos, Desmodes, invada-o!
--- Não pense --- Sibilou Desmodes para Kan, com o mesmo tom de quando dava uma ordem qualquer. --- que não posso matá-lo quando bem entender.
Kan desviou o olhar, querendo logo encerrar a conversa; já considerava-se louco o bastante por tê-la iniciado. Desmodes deu-lhe as costas e seguiu seu caminho.
Kan não sentia mais que corria risco imediato perto dele. A tática que o mago-rei usava com ele Kan conhecia, e bem, em seu formato mágico --- ele e a grande maioria dos preculgos. Já usara muito do artifício nos tempos em que vagou sozinho por Heelum depois de fugir do pai: Faça o mais fraco pensar que você não deve ser contrariado porque, perigoso como é, qualquer desafio o faria perder a cabeça. Em geral a pessoa perigosa é bem menos descontrolada do que quer fazer crer.
***
Desmodes subiu as escadas com passos firmes, ignorando solenemente cada vez que via com o canto dos olhos uma figura escura encostada à parede. Trancou a porta do quarto e foi até o aparador, sorrindo satisfeito para a forma como conseguia fazer a água sair da jarra em direção ao copo sem tremores ou inconstâncias: aquilo era belo como era seu controle de si.
--- É patético! --- Disse Lato-u-nau, andando em círculos à frente da cama. --- Você não pode se esconder.
--- Não seguirei ordens.
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A Guerra da União
FantasyNa série Controlados, a magia está em todo lugar. Os magos podem alterar os seus sentimentos, os seus pensamentos ou as suas atitudes. Não se pode confiar em ninguém. No segundo volume da série, A Guerra da União, Desmodes é o novo mago-rei e seu ob...
