Terceira

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Encostada na parede dos fundos de uma casa verde, nos limites de uma jir do Leste, Caterina ficou de frente para uma subida íngreme; duvidava que Verônica viesse dali. Foi até o canto da casa e lançou um olhar tímido para fora, em direção à cerca baixa de madeira depois de um gramado seco. Logo à frente e mais adiante havia várias casas parecidas, que subiam muito pouco acima das árvores grandes, com copas que faziam bastante sombra.

Virou-se de novo para a parede dos fundos, e correu para o outro lado quando percebeu que Verônica, agachada, chegava por ali. Trazia uma bolsa preta junto ao corpo coberto por uma grossa capa marrom, mas o que mais aliviou Caterina foi o sorriso triunfante que trazia no rosto.

--- Como foi lá? --- Indagou Caterina.

--- Foi ótimo. Acho que descobri um jeito de torcer um pouco a história que os preculgos contam.

--- Você viu o plano deles? Dentro dos castelos.

--- Vi. --- Assentiu Verônica, com as sobrancelhas levantadas. --- É bom, mas na verdade eu não consegui entender tudo.

--- Eu tenho um pouco de treinamento preculgo, mas... Tive medo de mudar alguma coisa e acabar piorando a situação.

As alorfas concordaram, as duas pulando a parte em que explicitamente se entendiam.

--- Assim é melhor. --- Continuou Verônica, ao que Caterina concordou de novo. --- Mas poder ler o plano pelo menos me deu uma ideia melhor sobre o que falar com as pessoas.

--- Pode me mostrar o mapa?

Verônica tirou um papel pardo de dentro da bolsa e desdobrou-o num mapa de Prima-u-jir. Círculos representavam todas as vilas da cidade, e marcações mostravam onde os companheiros estavam nos últimos dois dias. Os mapas das semanas anteriores já haviam sido destruídos, e planos futuros eram combinados em reuniões rápidas e clandestinas como aquelas: quem estivesse com mapas, ao ser pego, teria uma quantidade limitada, e em caráter efêmero, de informações para deixar vazar sem querer para quem estava atrás deles.

--- O Alessandro ainda está ali?

Verônica piscou longamente, fazendo a companheira entender antes de precisar explicar o cansaço.

--- Disse que ainda não está bem por causa da queda.

--- Ele não quer. --- Taxou Caterina, balançando a cabeça. --- Ele não quer mais, Verônica.

Ela concordou, voltando a olhar um ponto qualquer do mapa. A fuga do cerco no Sul deixou marcas: hematomas nas partes interiores das coxas, dores nas costas, enxaquecas e a sensação de que andar no chão novamente jamais deixaria de ser doloroso. Ainda era, um pouco, para todos eles, já que se passaram só três dias desde a fuga prodigiosa, mas o esquema com cordas que montaram para se segurarem ao animal (o mesmo que lhes possibilitou uma descida menos arriscada do topo do yutsi) não funcionou tão bem para Alessandro, que clamava por um minério de cura o tempo inteiro desde quando começaram a andar a pé até chegarem num local seguro.

--- Acho que se eu for lá agora ele vai ter saído da cidade.

--- Deixa isso para lá... --- Caterina apertou os olhos e apontou para duas jirs no Nordeste da cidade. --- Essas não têm policiamento?

--- Sim. Essa, essa e essa que a gente está agora.

--- Por quê?

--- Não sei, mas acho que eles se mudaram para as vizinhas para conter o estrago que a gente fez. Você veio daqui --- Verônica apontou para um círculo rabiscado mais próximo das colinas na área mais central da cidade. --- e agora está cheio lá. Eu vim daqui e agora vou ficar por mais tempo nessa perto do rio, que é enorme.

A Guerra da UniãoOnde histórias criam vida. Descubra agora