capítulo 41

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Boa leitura 📚

Minha mãe estava sentada na cama, o olhar perdido em algum ponto do quarto, e eu estava ao seu lado, observando cada detalhe de seu rosto, gravando em minha memória cada linha, cada expressão.

— Já tomou seus remédios? — perguntei, minha voz mais suave do que o normal.

Ela me olhou com um pequeno sorriso cansado.

— Sim, tomei alguns para a dor.

Sabíamos que aqueles comprimidos eram apenas , um alívio temporário para algo muito maior, inevitável. Ela havia recusado a quimioterapia, e, embora eu entendesse sua escolha, uma parte de mim ainda desejava que houvesse outra solução. Mas, para ela, aqueles remédios eram a única fuga possível da dor até o ato final.

O silêncio se instalou entre nós, pesado, denso. Eu queria dizer algo, convencê-la de que ainda havia tempo, que talvez existisse uma chance. Mas, ao encará-la, vi em seus olhos a aceitação. Ela já havia feito sua escolha. E tudo o que me restava era estar ali, ao seu lado, até o fim.

— Você deveria ir jantar com a sua irmã.

A voz da minha mãe soou calma, mas havia algo por trás de suas palavras, uma tentativa de me fazer seguir com a minha rotina, como se tudo ainda estivesse normal.

— Eu quero ficar aqui. Já que você não vai descer... — retruquei, determinada.

Ela suspirou, um sorriso leve nos lábios.

— Eu posso comer depois. A Lucy vai trazer meu jantar.

A encarei por um longo tempo, perdida em meus próprios pensamentos. Apesar de tudo, eu me sentia estranhamente em paz. Estar aqui, ao lado dela, mesmo em meio a circunstâncias tão difíceis, trazia um alívio inesperado. Nunca imaginei que poderia me sentir tão leve ao simplesmente compartilhar esse momento com ela, sabendo que, pelo menos agora, estávamos bem.

Mas essa leveza logo foi substituída por uma inquietação que não conseguia ignorar.

— Por quanto tempo você vai esconder isso de todo mundo?

O brilho em seus olhos diminuiu, como se minhas palavras tivessem pesado sobre ela. Não queria falar sobre isso. Não queria admitir.

— Eu já disse que só vou contar quando sua irmã se casar.

A resposta foi firme, mas cheia de camadas que eu ainda tentava entender.

— Você se importa tanto assim com esse casamento? — minha voz saiu mais baixa, mas carregada de dúvida.

Ela respirou fundo antes de responder, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado.

— Eu sei que o Brandon não se casaria nessas circunstâncias. Ele ficaria mal por mim. E eu não quero isso. Quero que a Julie tenha um casamento perfeito, sem essa sombra sobre ela. Não quero que esse dia seja marcado por lágrimas de tristeza, mas sim de felicidade. Quero que ela tenha um dia tão perfeito quanto o meu foi... quando me casei com o seu pai.

Ouvir ela falando sobre o papai me fez sentir  um aperto no meu peito. Um sentimento de saudade se instalou dentro de mim, profundo e inevitável.

O silêncio entre nós se prolongou, preenchido apenas por memórias e sentimentos não ditos. Por mais que eu entendesse sua intenção, não deixava de ser doloroso vê-la carregando esse segredo sozinha, guardando tudo dentro de si por amor a nós.

— Você só quer que a Julie tenha o que você teve. — Minha voz saiu em um sussurro carregado de compreensão. Naquele momento, tudo fez sentido. — Eu sei o quanto você amou o papai, e sei o quanto foi difícil perdê-lo.

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